
Apesar de os tratarmos afectuosamente por “
nuestros hermanos”, é fácil constatar que as relações dos portugueses com os espanhóis nem sempre são amistosas, embora nas últimas décadas se tenham atenuado animosidades. Claro que aqui e ali vão surgindo pequenos fogos como é o caso da “guerra das laranjas”, reacendida pontualmente por meia dúzia de maduros” amigos de Olivença”, ou, nos casos mais publicitados, na vida difícil que o treinador e jogadores lusos do Real Madrid têm com a imprensa e uma parte da “aficcion” espanhola.
Conheço-o há vários anos, frequentamos o mesmo café, falamos - geralmente, é ele que fala e eu ouço - mas não somos amigos. Conhecidos, vá. Somos muito diferentes em todos os aspectos, e eu acho alguma graça na sua maneira de ver a vida, embora essa esteja, também ela, longe da forma com que encaro a minha. Mas é um original, um filósofo, que vive de expedientes.
Uma descrição breve: é moreno, meão e entroncado, barba cerrada, muitas vezes por desfazer - não daquelas propositadas de 3 dias, mas desmazelada - cabelo muito escuro negro, denso, penteado para trás. É um frequentador assíduo da feira de
Carcavelos, sítio de onde é abastecido o seu guarda-roupa: ténis
Mike, calças
Doce Cabana, camisas
Armandi(que usa sempre com pelo menos 3 botões desabotoados), blusões
Faztonabo, enfim, é por aí.
O episódio que a seguir relato, passou-se há uns tempos largos, mas veio-me à cabeça face ao recente episódio envolvendo
José Mourinho, e a sua alegada (o que eu gosto desta palavra) homofobia e os termos que deram origem ao incidente.
Veio ter comigo e disse-me:
“
Outro dia, e pela 1ª vez, entrei na Pastelaria V. Sabes que aquilo ali há muita gaja entradota à procura de macho?”“
O quê? estás a dizer que a V é uma espécie de bar de alterne?”“
É verdade. Até falei com o X que me confirmou que já lá sacou algumas. Estou a pensar tentar a minha sorte, que ando um bocado á rasca de massas”
“
Estás a pensar tornar-te chulo?” “
Não é chulo, pá. Tem outro nome. Estrangeiro”.
“Gigolô?”
“Isso!Isso mesmo”
Abreviando, decidiu-se mesmo a tomar aquele passo. Mas pior, conseguiu convencer-me a ir com ele “
Sabes como é, estás mais habituado àqueles ambientes finos. Ias ajudar-me a sentir-me mais á vontade”. A princípio renitente, lá acabei por aceitar: “
Ficas-me a dever essa, ok?”No dia, aparece-me com uma camisa branca aberta até á barriga, com o pelame do peito e um fio dourado e grosso com um crucifixo, umas figas e mais 2 ou 3 penduricalhos não identificáveis à mostra. Um fato escuro, muito bem engomado, mas cujo casaco só lhe chegava a meio do rabo e com umas bandas demasiado grandes. Sapatos um bocado gastos, mas muito engraxados, quase tanto como o cabelo negro, empastado e penteado para trás. Uns óculos escuros Vay Ban compunham o retrato. Julgava eu. A precedê-lo, um cheiro pavoroso a “perfume” rasca, intenso, “
Onde é que te meteste para arranjar esse cheiro?” “
Não percebes nada disto. É um perfume espanhol que a minha tia Deolinda lá tem. Trouxe-o de Badajoz ainda antes do 25 de Abril. Uma preciosidade. Vamos?” - Calei-me e segui-o mantendo para ele uma distância cautelosa.
Chegados, ele escolheu uma mesa em sítio estratégico, com vista para todo o salão da pastelaria e de onde poderia localizar a vítima. Que não demorou:
“Vai ser aquela”.
Apontava para uma senhora que teria decerto 70 anos ou mais, um pequeno chapéu com 2 penas no cocuruto de uma cabeleira cinzenta azulada muito ripada, e uma cara que parecia ter levado um balde de reboco, de olhos pequenos encimados por um par de sobrancelhas que se resumiam a duas semi-circulares desenhadas a lápis. A boca era um borrão de baton vermelho. Nos ombros, uma estola de raposa conferia com tudo o resto: uma senhora á moda antiga. Muito antiga.
Levantou-se, apertou o casaco, movimento que fez abrir a racha traseira do casaco deixando-lhe o rabo redondo á mostra, e dirigiu-se à mesa da senhora com um andar insinuante, cabeça levantada, sorriso nos lábios. Atrás dele, o pivete do perfume espanhol.
Confesso que estava um pouco envergonhado. De todo queria que notassem que aquele tipo era meu companheiro de mesa, pelo que fui chegando a cadeira devagar até ficar um pouco escondido atrás de uma coluna, mas de forma a apreciar a conquista.
Lá chegado, e mantendo o sorriso níveo sempre dirigido á senhora, puxou uma cadeira fazendo menção de se sentar a seu lado e começar a abordagem.
Foi então que se deu o (in)esperado. A senhora bradou numa voz esganiçada:
-
Jesus! (pronuncie-se “Résú”) Qué fédor! Vate-le! A mi no me gustan a los maricones!