quarta-feira, 14 de março de 2012

Um dia peculiar

Ontem foi um dia peculiar.
Levantei-me normalmente, tomei um duche, aprontei-me - uma roupa já mais leve, que, ao que parece, a primavera antecipou a chegada - e fui até ao café aqui da esquina para um pequeno almoço frugal: um café e um pão com manteiga. Ao balcão.
A meu lado, um tipo que não conhecia. Baixo, atarracado, um pouco desleixado e de cabelo oleoso. Sou até um pouco distraído, mas reparei nele pelo tom excessivamente alto com que pediu ao empregado o que queria:"Uma mine e uma sande de presunto, faxavor", de mão direita esticada. A mão era grossa e as unhas roídas, excepto a do dedo mindinho que sobressaía das outras pelo tamanho pouco habitual. Devia estar nervoso, porque enquanto esperava, desatou a roer desatinadamente uma das unhas, enquanto mantinha a esquerda na algibeira.
Até que chegou o pedido, e ele atirou-se á "sande". De repente largou-a, enfiou a mão na parte de trás das calças até atingir o ponto certo (muito íntimo, acrescento eu), começando então a coçar furiosamente. Passadas as comichões, retirou a mão e, calmamente agarrou o resto da sande e devorou-a em três dentadas.
Nessa altura, já não me estava a saber muito bem o pão com manteiga. Mas desisti mesmo quando o homem, ao mesmo tempo que pedia para pagar acenando com uma nota de 5€ na mão esquerda, enfiou a mão direita - sim, a mesma que segurara a "sande" e se coçara nas partes íntimas - na boca, e com aquela unha enorme do dedo mindinho começou a palitar os dentes.


Depois de uma tarde pouco interessante, e pelas 5 da tarde, saí de casa para cumprir o doloroso dever de ir ao funeral da avó do Luís.
Quando cheguei, estava ele encostado a uma parede, auscultadores do mp3 nos ouvidos enquanto que meneava a cabeça cadenciadamente.
Toquei-lhe num braço ao que ele se virou para mim e disse:
- Green Onions!
Abanei-o outra vez até que ele tirou os auscultadores dos ouvidos e inquiriu:
- Que foi, pá?
- Então mas tu estás no funeral da tua avó e com isso ligado?
- Que se lixe! É para ver se isto anima um bocado!
O Luís é um fanático do jazz, especialmente do tradicional. Ao que parece, também curte funerais animados.
Pelos vistos, para ele, New Orleans será o paraíso na terra.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ainda 3 episódios sobre o tema do post de ontem

- O Marcelino é um tipo muito radical. Há uns tempos teve uma discussão com um padre por causa de um lugar de estacionamento:
- O lugar estava vago, e eu meti lá o meu.
- Mas parece que o homem já estava à espera que o outro saísse. Portanto, tinha prioridade.
- Não tinha nada. Ele era mas era um grande tótó a conduzir, e eu desenrasquei-me melhor. Depois começou a mandar vir comigo em voz baixa. A chamar-me "Meu filho" e a dizer que eu tinha cometido um pecado. Eu dou-lhe o pecado. Armado em anjinho! Sabes o que vou fazer? Escrever um panfleto a deitá-los abaixo?
- A quem?
- Aos padres, claro. E às balelas que impingem. E já sei como lhe vou chamar: "Textículos Satânicos". Podia-se chamar Versículos Satânicos, mas não tenho queda para a poesia.
- Além de que poderias ser acusado de plágio, claro.
*****

2 - A minha vizinha do 2º andar é brasileira, chama-se Florzinha, e é casada com o Douglão. A mulher deve ser muito religiosa, porque todos os dias das 11 à meia-noite, passa o tempo a rezar e a dizer em voz muito alta: "Meu Deus, ai Meu Deus", "Meu Deus, ai Meu Deus", e de vez em quando "Deus é grande", embora a entoação pareça ser "Deus, é grande". Não sei que religião é a dela, os brasileiros têm a IURD e mais umas quantas igrejas diferentes, sei é que as rezas são acompanhadas de uns barulhos estranhos. Deve ser do género dos arekrishna com as campainhas.
Sei é que a religião a deve preencher plenamente, porque ela anda sempre com um ar muito feliz.
*****




3 - O Marcelino - outra vez ele - foi à Foz do Arelho no fim de semana, e trouxe-me uma recordação das Caldas: um Frade que pôs em cima da minha televisão da sala. Não percebi a ideia, a decoração da minha casa não é naif, nem tem nada de folclórica. Enfim, ideias do Marcelino.
Ainda tenho que ver para que serve o raio do fio que sai debaixo do pedestal do frade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Deus me livre de acreditar em ti, Deus

A minha relação com a fé, assemelha-se muito à luz de um farol: ora se vê, ora não se vê. Ao caso, ora existe, ora não existe.
Por exemplo: às 3ªs e 6ºas, dias em que anda a tômbola do Euromilhões, eu sou um devoto cheio de fezada. Já nos outros dias, tenho muitas dúvidas, sendo que ao sábado e à quarta, sou mesmo um descrente absoluto.
É como os pasteis de massa tenra da minha tia Etelvina: umas vezes são fofos e saborosos, outras, saiem encarquilhados e duros e se atirados à cabeça de alguém, partem-na de certeza.
Desde já, uma declaração de intenções: uso o nome "Deus" por uma questão de comodidade - até porque a maioria dos portugueses são cristãos - e de modo algum desejo melindrar devotos de outras religiões, pelo que, onde se lê essa palavra, qualquer um é livre de a substituir por Allah, ou Jeova, ou Buda ou o que quiserem.
Dito isto: naturalmente fui desde novo instruido nesta religião por uma questão de tradição, e porque a chibata com que a minha madrinha - beata de todas as horas - zurzia todos os que fossem contra as suas crenças, era bastante convincente. E comecei a frequentar a catequese aos 6 anos, onde uma senhora anafada e de buço me ensaiava e a mais uns 4 ou 5 para a 1ª comunhão. Esta senhora, também tinha uma chibata.
Mas passados uns tempos, teria eu uns 7 anos, a fé em algo de transcendente que me pretendiam incutir, sofreu um rude golpe: descobri que o Pai Natal era o meu pai. Ora eu sempre me convencera que o Pai Natal era um reformado que arranjara um biscate como moço de recados do Menino Jesus, que lhe fornecia umas roupas patuscas, um trenó com renas, e uns sacos com brinquedos e doces para distribuir pelos meninos.
Afinal, o Menino Jesus era um explorador dos oprimidos, neste caso, do meu pai que, coitado, já tinha 2 empregos e não precisava de mais um part-time não remunerado. Para cúmulo, descobri que era da algibeira do meu pai que saía o dinheiro dispendido na compra dos presentes que me apareciam no sapatinho, o que fazia do Menino Jesus um capitalista sem escrúpulos. Esse foi o primeiro dia em que pensei em mudar de religião, mas quando a minha mãe me disse que nas outras religiões não havia Natal e, consequentemente prendas, tive que relevar aquela aldrabice. Além disso, a minha madrinha ainda manuseava bem a chibata.
Ainda fiz a 1ª comunhão, felizmente sem o fatinho branco - o meu pai, que nunca foi muito de religiosidades, disse logo que comunhão ainda vá lá, mas não queria panasquices - e depois de uma confissão em que omiti umas quantas coisas. Entretanto o meu padrinho reformou-se e a minha madrinha foi para a terra com ele, pelo que me afastei um pouco da religião.
No liceu, porém, a ruptura foi definitiva no dia em que o meu professor de Religião e Moral, me marcou uma falta de castigo só porque adormeci naquela parte em que ele contava a aldrabice do Mar Vermelho se abrir ao meio. Foi então que decidi ser ateu. Até por uma questão de estatuto.
Como referi, quando apareceu o Euromilhões - aquando do totoloto, já a coisa tremelicara - passei de ateu a agnóstico, mesmo com tendência para optar por uma religião. Só que a coisa é difícil: gosto dos sapatos do Papa, o que é um ponto a favor da religião católica. Mas ao mesmo tempo, nunca esperei que os padres, especialmente os irlandeses. levassem até tão à letra a tirada atribuida a Jesus "deixai vir a mim as criancinhas". Mas também gosto de ver os fatos do Amid Karzai e a perspetiva de vir a ter várias mulheres, o que me faz vacilar. Porém, e para complicar, gosto da cor laranja, cânticos e campainhas, pelo que não digo não a me tornar arekrishna, embora me sinta um bocado desconfortável com a salada à solta. Portanto, lá está, encontro-me em mais um dilema.
Mas é só decidir um caminho, porque ontem reflecti e cheguei à conclusão que tem que ter havido alguém superior a criar-nos. Não sou um evolucionista - o Toni Ramos não é o bastante para me convenvcer que descendemos dos macacos - e só preciso de uma luz, até porque a perspectiva de arder no inferno não é nada agradável. Tenho que me render à mente superior de um deus qualquer. Um deus que em tudo pensou. Até nas orelhas. Claro nos podia ter criado com dois pequenos orifícios, um de cada lado da cabeça, mas depois onde é nós pendurávamos os óculos?
É preciso ter vistas largas


*- A imagem que escolhi hoje é um tanto ou quanto efeminada, não é?

domingo, 11 de março de 2012

Vistos e revistos - Ao domingo, um filme (2)

High Fidelity, de Stephen Frears

Este filme de Stephen Frears e baseado no livro homónimo de Nick Hornby, proporcionou-me um prazer quase juvenil quando o vi pela primeira vez. Talvez porque o protagonista - interpretado pelo John Cusack, actor pelo qual nutro especial estima - tenha o emprego de sonho que eu nunca tive. Bom, não será bem um emprego: Rob é um melómano especializado em rock, dono de uma discoteca "Championship Vinyl", à beira da falência, e que tem ao seu serviço outros dois loucos por rock, Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black).
O conhecimento enciclopédico sobre rock que Rob e os seus parceiros detêm é impressionante, e o seu primeiro passatempo é elaborar playlists e top-fives, vendendo de vez em quando, um ou outro disco, até porque qualquer deles encara a ignorância musical de muitos dos seus potenciais clientes, com um gozo e sobranceria quase inacreditável, e tentando sempre guiá-los de forma a pô~los no "caminho certo".
Tal como a sua inabilidade para gerir o negócio, também a vida amorosa de Rob decorre desastradamente, sucedendo-se os fiascos até ao caso presente, periclitante, com Laura(Iben Hjejle), que ele tenta a todo o custo que não acabe como os anteriores. É então que Rob decide fazer uma retrospectiva da sua vida amorosa e um top-five dos seus desaires sentimentais. Curiosamente, até aí ele estabelece paralelo entre os seus casos e eventos musicais.
O filme é divertidíssimo, tem um cast que inclui além dos citados, Catherina Zeta-Jones e Tim Robbins, e tem uma banda sonora espectacular, que vai de Tommy James (Crimson and Clover) aos Queen (We are the champions), passando por Peter Frampton (Baby, I love your way).
Sem dúvida um dos meus filmes cinco estrelas.

sábado, 10 de março de 2012

Canções da Vida (8) - The Walker Brothers - The sun ain't gonna shine anymore



The Walker Brothers - The sun ain't gonna shine anymore(1966)

Quem goste de música popular - especialmente da de língua inglesa - e se dê ao trabalho de querer saber o que afinal se passou na tão cantada década dos Beatles, os 60's, irá verificar que os Walker Brothers são, a par de P.J. Proby, casos especiais: enquanto as grandes bandas inglesas tomavam de assalto o enorme (e de difícil penetração) mercado norte-americano, dando origem à chamada British Invasion, eles fizeram o percurso inverso, emigrando dos EUA para a swinging London, onde acabariam por ter um sucesso assinalável, embora de não muito longa duração (de 1965 a 1967 tiveram várias canções no top inglês, separando-se logo a seguir)
Adiante-se que o grupo, um trio, não era realmente constituido por irmãos e curiosamente, nenhum deles tinha o sobrenome de Walker. Tratou-se, portanto, que uma questão de marketing.
Quando da separação, e inevitavelmente, a grande voz do grupo, Scott Engel, foi dos três o único a ter sucesso a solo, embora o seu low-profile - evitava até estar em eventos onde as suas obras constavam das candidatas a prémios - não lhe tivesse proporcionado a projecção que a sua qualidade merecia.
Não me vou estender muito em pormenores - na net encontra-se informação de sobejo sobre Scott Walker (ele manteve o sobrenome na sua carreira a solo) ou mesmo sobre os Brothers - mas diria que a sua classe como cantor, o bom gosto que sempre demonstrou na escolha meticulosa dos temas que aceitou cantar, permitiram-lhe o assentimento de Jacques Brel para que editasse um álbum, "Scott sings Brel", com temas do grande autor belga transpostos para inglês pelo próprio Scott. Foi aliás a qualidade das versões que levou Brel a aquiescer.
Fica aqui também, uma amostra da qualidade desse álbum:

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dilema

Hoje estou num impasse. Ou melhor, num dilema.
Uma das coisas que exige mais da minha concentração e atenção é a escolha de sapatos. Aliás, parece que isso já tinha ficado claro aqui no blog. Que me perdoem as senhoras (seguindo o decretado agora em França, proibo-me mencionar as raparigas - ou moças - não vá ferir susceptibilidades), mas essa preocupação não pode ser só exclusiva delas.
Nem qualquer sapato me serve, sou esquisito, e dou sempre importância, quer à estética, quer a qualidade do sapato a comprar.
Pois bem - e agora cá vai então o dilema - estou na fase de escolher sapatos e depois de muito procurar, surgiram-me os dois pares seguintes:


Os 1ºs são uns loafers de Louboutin (pois é, minhas senhoras, o Louboutin já não desenha sapatinhos de sola vermelha só para vós)
Os 2ºs são uns brogues (escuso-me de enunciar a marca, está bem à vista)
E agora, estou na dúvida sobre que par irá melhor com o meu tom de pele (caucasiano, cabelo castanho claro, embora já a tender para o acinzentado)

Any suggestions? Please?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dos amores de verão, Dos aromas do campo à Madeleine, com poesia presente

Vinham-me ás narinas cheiros mesclados, do tojo, do pó molhado pela ligeira poalha que tinha caído há menos de uma hora, até odores cítricos de um laranjal por colher, mesmo ali ao lado.
Mas era sobretudo o cheiro do seu pescoço, o habitual odor a alfazema de lavado de fresco, que se impregnava em mim quase com a força de um vício.
Tinha uma quase veneração por aquele cheiro. Por aquele e por outros dois, o dela tão característico, de fêmea e o dos dois, do amor acabado de fazer. Sempre pensei que se pudesse guardar aquelas fragrâncias juntas num pequeno frasco, este não mais me abandonaria e seria o aroma perfeito.
Abri os olhos e olhei-a. Estávamos deitados num pequeno relvado que se tinha formado naturalmente por baixo de um salgueiro cujas ramagens densas quase roçavam o chão, mesmo junto ao ribeiro, de que ouvíamos o rumorejar, o saltitar irrequieto de fraga em fraga. Tinhamo-nos ali recolhido do chuvisco e não resistíramos à ocasião. Eu hesitara, mas ela cantou-me Brassens:"Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants, Ne crois pas au cimetière, Il faut nous aimer avant, Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants. Tu sors pas du monastère, Moi, je sors pas du couvent". A verdade, é que eu estava ansioso por me deixar convencer.
Ela tinha os olhos fechados e estava virada para mim, o braço direito passava-me pelo peito e massajava-me suavemente o lóbulo da orelha, friccionando-o suavemente entre o polegar e o indicador, deixando-me arrepiado. Sentia o morno da sua coxa morena deitada em ãngulo recto sobre as minhas pernas. Não resisti a uma carícia e senti na ponta dos dedos aquela penugem incipiente que lhe emergia da pele fina. Abriu os olhos, aqueles olhos que pareciam sempre espantar-se com o mundo, e sorriu. Nunca a tinha visto sorrir assim. Nunca mais esqueceria aquele sorriso.
- Já sentiste este cheiro, Marília? Não sentes a sua falta em Paris?
- Vou todos os dias a pé de Montmartre até à Madeleine só para sentir o cheiro das flores no ar. Quando posso, vou aos Jardins do Luxembourg. Mas não é a mesma coisa, disse com uma voz quase triste. Vou ser eternamente rústica
.
Tinha mudado muito. Pouco ultrapassara a instrução básica, mas era uma auto-didacta e tinha conversas surpreendentes.
- Gostas de poesia? perguntou - Na verdade, na altura era pouco dado a lirismos, estava vocacionado para interesses mais mundanos.- Lá, num café ao pé da casa onde moro, às 2ªs feiras lê-se poesia. É uma coisa fora do vulgar. Sinto-me diferente, livre, quando os ouço.-
- É isso que te dá o sentido de liberdade de que agora dás mostras? Ou é a vida de lá que é menos convencional?

- É tudo isso. Também não conheces a musiquinha do Brassens em que ele conta a história da menina que vai tomar banho à nascente, e à qual o vento atira a roupa para longe, e que então, à vista do homem que a observa, se faz muito envergonhada? Não? Depois acaba assim:"Le jeu dut plaire à l'ingénue, Car, à la fontaine souvent, Ell' s'alla baigner toute nue, En priant Dieu qu'il fit du vent, Qu'il fit du vent..." E riu-se. Com aquele riso descarado e cristalino, inconfundível, que me deixava rendido.
- Sabes? já não és tão desajeitado. Ao princípio eras mesmo principiante nestas coisas.- E voltou a rir-se. Corei, envergonhado.- O mal das pessoas é a hipocrisia com que encaram coisas simples da vida, como o amor e o sexo. Eu nunca o farei, o meu sentido de liberdade como lhe chamas, é assim que se expressa.
- Adoro-te
- creio que foi a primeira vez que disse tal coisa a alguém.- Vou-te adorar sempre.
- Avec le temps...avec le temps, va, tout s'en va, on oublie le visage et l'on oublie la voix, le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien. Avec le temps on n'aime plus. É do Ferré. Nunca te esqueças do que ele diz.

Mas eu esqueci. Ou quis esquecer. Nunca quis acreditar que não pudesse haver amores eternos.
É verdade que com o tempo, com a distância cavada entre nós, deixei que aquele sentimento tão forte por Marília se fosse esbatendo. Foi-se transformando num imenso carinho, numa recordação extraordinariamente bela. Ficaram-me episódios, gravados fundo na minha alma, todos ternos, excepto o da partida. Mas desse não vou falar agora.

Agora só falo daquela tarde que acabou em versos ditos de cor, misturados com beijos molhados e ávidos, como ávido era o nosso desejo adolescente, que nos fazia suar, pele com pele, quase violentamente, como se nos quiséssemos fundir um no outro.
Acabou com a roupa amarrotada e suja pelo amor ansioso e, na chegada a casa, com justificações adoidadas para o desatino.
Acabou com o cheiro dela a tomar conta de mim de maneira tão intensa que nessa noite, apesar de não estar nada asseado, disse não ao banho, só para ter o consolo de a ter mais um pouco comigo, de poder assim dormir com ela.

P.S.- Há aromas persistentes. Os daquele dia duraram anos...


quarta-feira, 7 de março de 2012

O Mar de Sophia


O que mais admiro nos poetas, é a sua capacidade de, com poucas palavras, conseguirem dizer mais do que eu diria num extenso texto

Mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua


(Sophia de Mello Breyner Andersen)

terça-feira, 6 de março de 2012

Da problemática da roupa íntima aos pequenos dramas familiares

Sobretudo nos últimos 2 séculos, a roupa interior tem ganho importância primordial na indumentária quer feminina, quer masculina.
Em relação á mulher e durante os séculos anteriores, a roupa íntima resumia-se aos inestéticos culotes até ao joelho e aos tenebrosos espartilhos, que definiam a cintura de vespa e causavam graves problemas de saúde. Os homens, desconheço que usassem qualquer tipo de roupa com essa função até ao século XIX, quando passaram, também eles a usar cuecas até ao joelho (mais tarde conhecidas como boxers), ou ceroulas.
No século XX houve uma grande evolução, as cuecas de ambos os sexos foram diminuindo de tamanho - embora em relação aos homens, os boxers tenham mantido uma razoável cota de mercado - e no caso da mulher, o espartilho foi sendo substituído pelo soutien, uma peça que tem também ela diminuído e apertado (no caso do wonder-bra) os seios de forma a oferecer à mulher uma figura mais sensual.
Penso que acima de tudo, a roupa íntima deve ser o mais cómoda possível. Todos os homens sabem as terríveis dores de cabeça que umas cuecas demasiado apertadas podem causar, pelo que prefiro os boxers. Já as mulheres parece terem-se rendido ao fio dental.
Vem isto a propósito da autêntica guerra de marcas (principalmente de lingerie feminina) a que tenho assistido na televisão, com spots publicitários que são por si só, pequenos filmes eróticos. Vejam os spots da Intimissimi ou da Calzedonia e verifiquem se não é verdade.
Um pormenor que acho curioso nesta interessante problemática da lingerie feminina, é o facto de as mulheres muitas vezes as escolherem cuidadosamente com o fito de aparecerem mais sensuais aos olhos do parceiro, sabendo de antemão que, quanto mais sensuais parecerem, menos tempo ficarão com a lingerie vestida e muitas vezes sujeita a sofrer danos irreparáveis.
A lingerie é, na verdade, muito importante. Muitas vezes, a chave de pequenos dramas domésticos, como o de um amigo meu, sempre muito divertido, e que há uns tempos atrás foi aparecendo macambúzio, cabisbaixo, durante alguns dias. Até que não resisti a perguntar-lhe o que se passava, e a muito custo lá me revelou que andava angustiado, porque suspeitava que a mulher o traía. Inquiri sobre os motivos que o levavam a pensar tal, e ele foi dizendo que de há 2 ou 3 meses a essa parte, quando iam para a cama, ela alegava sempre dores de cabeça ou que estava muito cansada. “é normal, é a desculpa recorrente quando não querem nada connosco nesse dia, mas 3 meses seguidos, todos os dias?”; parece que um dia quando achou que aquilo já era demais, meteu um dia de férias no trabalho, mas de manhã saiu de casa como todos os dias e ficou à esquina a ver o que a mulher iria fazer; teve que aguentar até às 2 da tarde, que foi quando ela saiu; seguiu-a discretamente até ao Marquês de Pombal, onde a viu encontrar-se com um tipo que ele não conhecia, a quem ela beijou na boca, o que - disse ele - lhe pareceu um bocado abusivo; seguiu-os até eles entrarem numa pensão ali ao Conde Redondo; chegado à porta, ouviu-os pedir um quarto; pagaram e seguiram; foi aí que ele avançou e falou com o homem que estava ao pequeno balcão, e lhe perguntou para que quarto eles tinham ido, informação que só lhe foi dada a troco de uma nota de 20 euros; sorrateiramente, chegou-se à porta do quarto visado, e espreitou pelo buraco da fechadura; disse ele que o par se despia apressadamente, ao mesmo tempo que ia trocando beijos demasiado efusivos - na óptica dele, mais uma vez - até que o insólito aconteceu: a mulher despiu as cuecas - pretas e rendadas - e atirou-as pelo ar, direitas à porta, ficando inopinadamente penduradas no que ele supôs ser a maçaneta e tapando assim o buraco da fechadura, e, consequentemente, a visão. E terminou a descrição com: “e agora, aqui estou eu nesta incerteza”.
Assim se prova a importâcia de um mero par de cuecas que conseguiu impedir que o azarado homem se cetificasse da infidelidade da mulher

segunda-feira, 5 de março de 2012

Canções da Vida (7) - Tom Waits - Christmas card from a hooker in Minneapolis


Tom Waits é uma lenda e a sua obra esmagadora. À primeira vista, a quem gosta da sua música, seria dificílimo de escolher uma preferida. No entanto, esta canção emocionou-me desde a primeira vez que a ouvi. Pensei que não seria possível a alguém tão "duro" como Waits escrever algo tão lírico, tão pungente. A canção - quase dita por Tom, pouco cantada - é um apelo lancinante escrito por uma mulher que atingiu o último degrau da decadência. Um retrato, ao mesmo tempo terno e cruel da América profunda, proibida.
A canção faz parte do álbum "Blue Valentine", de 1978, que inclui, entre outras, a magnífica "Romeo is bleeding" ou uma versão muito peculiar de "Somewhere"*.

*"Somewhere" faz parte do libreto da ópera "Porgy and Bess", Gershwin e Heyward

domingo, 4 de março de 2012

A treta dos sonhos

Se há coisa de que não gosto é de sonhar. Pode parecer estranho, poderia dizer que detesto pesadelos. Mas não, não gosto de sonhar tout court.
A minha filosofia de vida passa por pretender que cada coisa esteja no seu devido lugar - infelizmente trata-se somente de uma boutade, uma vez que sou desarrumado por natureza, até nos pensamentos - pelo que, quando me enfio na cama o meu desejo é dormir as 8 horinhas sem qualquer tipo de interrupção, seja para atender telemóvel - religiosamente desligado antes de me deitar - seja para o aperto de bexiga das 6 da manhã. Portanto, muito menos aprecio uns tipos que me entram pelo sono dentro sem serem convidados, qualquer que seja o motivo ou objectivo. E se os pesadelos são fáceis de justificar - não é agradável cair de um sítio alto e muito menos desembarcar numa ilha de canibais e passar a noite a fugir á frente deles - os sonhos não são melhores. A mijadela das 6 só acontece ou por me ter descuidado na quantidade de líquidos ingerido antes de deitar, ou, sabe-se lá, porque a próstata quer avisar que a idade não perdoa (e o que eu gosto de frases feitas). Qualquer que seja o motivo, é natural e no 1º caso, ate se me podem assacar culpas.
Agora sonhos? Não me interessa nada sonhar com os números do Euromilhões, até porque de manhã não me lembro deles e acabo por ficar lixado comigo mesmo, e se me lembrasse, com a sorte que eu tenho, eram os números da semana anterior. Muito menos quero ter daqueles sonos que dão origem às tão faladas poluções nocturnas - felizmente que estas com a idade vão rareando - e a outras situações embaraçosas. É por isso que evito ver filmes mais sugestivos a partir das 9 da noite.
E sei do que falo: é que ainda há dias, como o sono tardava, caí na tentação de, já na cama, sintonizar a televisão no AXN Black. Estava a começar um episódio de uma série australiana, “Satisfaction”, que fala do ofício e relações - em sentido lato - de quatro ou cinco prostitutas de um bordel de luxo. Ali pelo meio meteram-se umas cenas mais ousadas, como era de esperar, e como também era de esperar, o sono, além de demorar ainda mais, foi agitado. E o acordar não foi melhor. Às oito da manhã, ainda naquele meio dormido, meio acordado, dei 2 ou 3 voltas na cama, apalpei à direita e à esquerda e nada.
Foi mesmo uma noite da treta e razão tenho eu em detestar sonhos.

É que é uma chatice um tipo acordar de tenda armada, e depois não ter ninguém que o ajude a desarmá-la.

Vistos e revistos - Ao domingo, um filme (I)

Posso dizer que nasci e fui criado (literalmente) num cinema. Daqueles à antiga, que exibiam filmes em reposição. Cadeiras pouco confortáveis, sem ar condicionado… Até determinada altura da minha vida, fui um consumidor desregrado: tudo o que aparecia eu via, fossem pretendentes a óscares ou filmes de 3ª categoria. E nunca saí a meio de um filme. Mesmo nas férias de Verão nas beiras, não perdia um serão de 2ª feira no salão de festas da aldeia, onde o sr. Abílio, um amante de cinema e projeccionista á moda antiga, que na sua carcomida Volkswagen pão de forma, percorria as terrinhas das redondezas com a velha projectora e as enormes latas de filmes para que nem daquelas recônditas partes a magia do cinema estivesse ausente, providenciava para que tivéssemos uma soirée diferente.
Talvez por isso, ao contrário do que acontece a muitos cinéfilos a quem é difícil eleger o seu filme de vida, para mim é extremamente fácil: Cinema Paraíso, de mestre Tornatore.
Talvez porque a minha relação de encantamento com o cinema se assemelhe de certo modo à que Totó com ele mantinha. E também porque tive a sorte de ter também eu, um Alfredo na minha vida.
Depois, Alfredo era interpretado por esse génio da representação que era Philippe Noiret e o filme uma pérola rara, sem mácula, retrato de uma sociedade italiana dos anos 40/50 mas que se podia perfeitamente adequar á nossa situação: a censura moralista e castradora, o poder da igreja, a indiferença do "progresso" face às relíquias do passado…
Curiosamente, e depois de décadas de bom cinema que a Itália nos trouxe, após Cinema Paradiso - realizado por Tornatore para simbolizar a “morte” das grandes salas de cinema - o filme transalpino parece ter caído em estagnação, da qual se salvam o supremo Nanni Moretti, os irmãos Taviani ou mais esporadicamente Begnigni, e a Cinecittà após a sua privatização em inícios dos 90s, serve mais o cinema estrangeiro e a televisão, do que propriamente aquilo para que foi criado: o grande cinema italiano.
Eu sei eu é recorrente para os cinéfilos falar-se em Cinema Paradiso. Toda a gente já viu Cinema Paradiso. Mas eu não podia iniciar uma rubrica dominical sobre cinema, sem o invocar pela milésima vez

sábado, 3 de março de 2012

Canções da Vida (6) - David Sylvian & Sakamoto - Forbidden Colours


Extraida do álbum de 1987 "Secrets of the Beehive", esta canção - que serviu de tema musical do filme "Merry Christmas, Mr. Lawrence" - é das tais que, sempre que a ouço, me faz sentir arrepios na espinha e me eleva. Obra de Sylvian e Ryuchi Sakamoto - que é também o autor dos arranjos de todo o álbum - é de um lirismo quase imaculado, a roçar a perfeição. Diga-se que todo o álbum atinge um nivel do outro mundo. Só acrescentaria que se alguém menos conhecedor da obra de David, pretendesse aprofundar o seu conhecimento, aconselhá-lo-ia a começar com o Secrets...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Weekend's coming - Music's all around. Beauty too


Costuma dizer-se que um homem só se sente realizado depois de:
- Escrever um livro
- Ter um filho
- Plantar uma árvore (tou lixado)
Suponho que as permissas se apliquem também à mulher.
Suponho também que a divina Scarlett, ainda não tenha escrito nenhum livro e nem se lhe conhece filho. Fica a dúvida sobre se já terá plantado alguma árvore.
Contudo, e em contrapartida, aglutina (como eu gosto desta palavra, parece o nome de um remédio para o reumatismo) beleza (super) e talento(s). Refiro-me naturalmente à sua elevada craveira como actriz, e à recém descoberta faceta de cantora.
Neste vídeo aparece com Pete Yorn, de cuja música sou fã, e com o qual gravou um álbum, "Break up".
Agora digam lá se ela não vai muito bem, já para não dizer que está mai' linda que nunca?

(vejam lá se o Pete não parece mesmo o António Raminhos?)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Tangas


Apesar de os tratarmos afectuosamente por “nuestros hermanos”, é fácil constatar que as relações dos portugueses com os espanhóis nem sempre são amistosas, embora nas últimas décadas se tenham atenuado animosidades. Claro que aqui e ali vão surgindo pequenos fogos como é o caso da “guerra das laranjas”, reacendida pontualmente por meia dúzia de maduros” amigos de Olivença”, ou, nos casos mais publicitados, na vida difícil que o treinador e jogadores lusos do Real Madrid têm com a imprensa e uma parte da “aficcion” espanhola.
Conheço-o há vários anos, frequentamos o mesmo café, falamos - geralmente, é ele que fala e eu ouço - mas não somos amigos. Conhecidos, vá. Somos muito diferentes em todos os aspectos, e eu acho alguma graça na sua maneira de ver a vida, embora essa esteja, também ela, longe da forma com que encaro a minha. Mas é um original, um filósofo, que vive de expedientes.
Uma descrição breve: é moreno, meão e entroncado, barba cerrada, muitas vezes por desfazer - não daquelas propositadas de 3 dias, mas desmazelada - cabelo muito escuro negro, denso, penteado para trás. É um frequentador assíduo da feira de Carcavelos, sítio de onde é abastecido o seu guarda-roupa: ténis Mike, calças Doce Cabana, camisas Armandi(que usa sempre com pelo menos 3 botões desabotoados), blusões Faztonabo, enfim, é por aí.
O episódio que a seguir relato, passou-se há uns tempos largos, mas veio-me à cabeça face ao recente episódio envolvendo José Mourinho, e a sua alegada (o que eu gosto desta palavra) homofobia e os termos que deram origem ao incidente.
Veio ter comigo e disse-me:
Outro dia, e pela 1ª vez, entrei na Pastelaria V. Sabes que aquilo ali há muita gaja entradota à procura de macho?”
O quê? estás a dizer que a V é uma espécie de bar de alterne?”
É verdade. Até falei com o X que me confirmou que já lá sacou algumas. Estou a pensar tentar a minha sorte, que ando um bocado á rasca de massas
Estás a pensar tornar-te chulo?” Não é chulo, pá. Tem outro nome. Estrangeiro”.
“Gigolô?”
“Isso!Isso mesmo

Abreviando, decidiu-se mesmo a tomar aquele passo. Mas pior, conseguiu convencer-me a ir com ele “Sabes como é, estás mais habituado àqueles ambientes finos. Ias ajudar-me a sentir-me mais á vontade”. A princípio renitente, lá acabei por aceitar: “Ficas-me a dever essa, ok?”
No dia, aparece-me com uma camisa branca aberta até á barriga, com o pelame do peito e um fio dourado e grosso com um crucifixo, umas figas e mais 2 ou 3 penduricalhos não identificáveis à mostra. Um fato escuro, muito bem engomado, mas cujo casaco só lhe chegava a meio do rabo e com umas bandas demasiado grandes. Sapatos um bocado gastos, mas muito engraxados, quase tanto como o cabelo negro, empastado e penteado para trás. Uns óculos escuros Vay Ban compunham o retrato. Julgava eu. A precedê-lo, um cheiro pavoroso a “perfume” rasca, intenso, “Onde é que te meteste para arranjar esse cheiro?”
Não percebes nada disto. É um perfume espanhol que a minha tia Deolinda lá tem. Trouxe-o de Badajoz ainda antes do 25 de Abril. Uma preciosidade. Vamos?” - Calei-me e segui-o mantendo para ele uma distância cautelosa.
Chegados, ele escolheu uma mesa em sítio estratégico, com vista para todo o salão da pastelaria e de onde poderia localizar a vítima. Que não demorou: “Vai ser aquela”.
Apontava para uma senhora que teria decerto 70 anos ou mais, um pequeno chapéu com 2 penas no cocuruto de uma cabeleira cinzenta azulada muito ripada, e uma cara que parecia ter levado um balde de reboco, de olhos pequenos encimados por um par de sobrancelhas que se resumiam a duas semi-circulares desenhadas a lápis. A boca era um borrão de baton vermelho. Nos ombros, uma estola de raposa conferia com tudo o resto: uma senhora á moda antiga. Muito antiga.
Levantou-se, apertou o casaco, movimento que fez abrir a racha traseira do casaco deixando-lhe o rabo redondo á mostra, e dirigiu-se à mesa da senhora com um andar insinuante, cabeça levantada, sorriso nos lábios. Atrás dele, o pivete do perfume espanhol.
Confesso que estava um pouco envergonhado. De todo queria que notassem que aquele tipo era meu companheiro de mesa, pelo que fui chegando a cadeira devagar até ficar um pouco escondido atrás de uma coluna, mas de forma a apreciar a conquista.
Lá chegado, e mantendo o sorriso níveo sempre dirigido á senhora, puxou uma cadeira fazendo menção de se sentar a seu lado e começar a abordagem.
Foi então que se deu o (in)esperado. A senhora bradou numa voz esganiçada:
- Jesus! (pronuncie-se “Résú”) Qué fédor! Vate-le! A mi no me gustan a los maricones!
(ele nunca mais quis ouvir falar de espanhois)