Há uns anos largos, uma das grandes instituições de Lisboa –
e só falo de Lisboa porque foi a cidade onde nasci e vivi sempre – era a “Entulhosa”.
Para os menos informados, a Entulhosa era a sopa feita nas tascas alfacinhas e
levava toda a espécie de legumes e em tão grandes quantidades que quando era
posta na tijela de onde era comida, enfiava-se-lhe a colher e esta ficava de pé.
A Entulhosa era feita assim propositadamente para servir de
refeição, muitas vezes a única, da classe operária lisboeta e das suas famílias
que a tornavam ainda mais entulhosa, juntando-lhe uma ou duas carcaças. Um dos elementos da
família ia com uma panela à taberna onde lha enchiam com a preciosa sopa, e por 15 tostões .
Mas havia os mais pobrezinhos e esses contentavam-se com a
meia-Entulhosa que se chamava…Económica. Esta, muitas era também consumida ao almoço na taberna, na maior parte das vezes acompanhada por um copo de 3 e um carapau de escabeche (quando haviam uns trocos a mais).
Mas “Económica” não serve só para denominar uma sopa de
taberna. Esse aliás, é a sua denominação menos interessante.
Como é que eu hei-de explicar a outra designação da palavra?
É que é um bocado embaraçante. Mas vamos lá, e vou-me servir de uma história do
meu amigo de adolescência, o Alfredo Alarcão, para dar pelo menos a
entender de que se trata.
O pai do Alfredo era um industrial alentado e tinha vindo de
Vila Nova de Gaia para estabelecer o seu negócio na capital. Como dizia o
Alfredo, o pai como bom industrial do norte que se prezasse, tinha uma amante
espanhola e uma visão do sexo muito convencional para a altura. E no dia em que
o Alfredo fez 15 anos o pai chamou-o ao gabinete dele e disse-lhe:
- Alfredo, meu filho, a partir de hoje és um homem e com a
tua idade já eu ido para a cama com pelo menos três sopeiras do teu avô
Laurentino. Portanto, como nós cá, a única sopeira que temos é a Henriqueta que
já é velhota, toma lá 500$00 e diz ao Artur (era o motorista) para te levar às
p$%#s.
E acrescentou o Alfredo quando me contou a conversa do pai.
- Já viste? Quinhentos paus! Isto vai dar-me para fazer umas
flores com as gajas do liceu. E o meu pai a dizer que a Henriqueta é velhota!
É, é. 50 anos é velhota. Até pode não ser nova, mas tem uma ginástica que ele
nem calcula! (eu também não imaginava que ele já se tivesse enrolado com a
criada, que ele nessas coisas era muito recatado). E se a Henriqueta hoje não estiver para festas, vou buscar as revistas
pornográficas que o meu tem escondidas na gaveta do psiché e vai uma Económica
à conta (nessa altura, já tínhamos chegado à conclusão por experiência própria,
que aquilo que o sr. Padre Checo nos dizia sobre o cato de tal acção, além de constituir um pecado nos fazer crescer pelos
nas palmas das mãos, era tanga.
Bom, acho que toda a gente percebeu onde é que eu queria
chegar, e peço desde já desculpa se feri a sensibilidade de alguém.
Portanto, aí está: uma palavra com dois significados
diferentes.
O mais curioso, é que este nosso governo, parece que quer
voltar a pôr a Económica (sopa) como prato preponderante nos hábitos alimentares de alguns milhões de
portugueses. A chatice é que já quase não há tascas para as fazer (as que ainda
existem, em breve pedirão insolvência), as carcaças (que hoje se chamam bolas)
têm mais buracos que miolo e como já só existem vinhos gourmet, a económica vai
ter que ser comida a seco. E já nem falo no carapauzinho de escabeche, que esse só estará ao alcance dos gerentes de empresa sobreviventes, e daí para cima.
Por outro lado, da forma como as coisas estão, é muito provável que também as
meninas que dedicam a sua vida a fornecer belos momentos de prazer (que maneira
tão poética para designar as p#$%s, não é?) aos machos desejosos de manifestar
a sua masculinidade deixando a sua líbido correr à rédea solta, em troca de
algum dinheiro (que diabo, a boa vontade e os gestos magnânimos têm todo o
direito de receber a sua recompensa terrena, embora tenha a certeza que a
celestial também não lhes falhará), vejam os seus ternos clientes desaparecer
por falta de verbas para divertimentos, mesmos os imprescindíveis à sua higiene
fisiopsicológica, e assim terem elas próprias que começar a declarar as suas
próprias insolvências.
Quanto aos machos carentes, a esses restar-lhes-á reanimar
esse tão prosaico hábito da adolescência. A não ser que, como me está a
palpitar, a crise se agudize tanto, que nem força terão para pensar (sim, que ter força para o resto já seria pedir demais) em se
dedicar a tal prática.
Este teu texto deixou-me uma má impressão económica. ;)
ResponderEliminarAdoro sopa de entulho, e vou-me ficar por aqui.
ResponderEliminarNão conhecia nem um nem outro significado, nem a tal de entulhosa. Mas um dia destes ao ir jantar a casa de uma amiga, passei pela "sopa dos pobres" ali para Arroios e fiquei sem fala, com a fila de gente que estava lá à porta, já passava das 9 da noite... É, estes governantes só falam em cortar, mas já há muita gente que nem dinheiro tem para comer... :P
ResponderEliminarEscusado será dizer que gostei da tua história e da explicação que dás dos dois significados da palavra! :)
Beijocas!
E assim se explica muita coisa...
ResponderEliminarNão gosto de sopa de entulho, prefiro a de bebé :p
Beijinho :)
Caro Vic, tem aqui um blog e pêras, que bons momentos de leitura me tem proporcionado. Faz falta gente assim, sem complexos a escrever o que pensa e com sentido de humor.
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