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quarta-feira, 28 de março de 2012

Flato - A Má Reputação (Imerecida)

Que não se pense que este será um panfleto de exaltação do flato. Não! Trata-se tão somente de uma tentativa de correcção de uma injustiça que dura há dezenas de anos, praticada sobre um acto tão natural para o ser humano como o rir, o espirrar, o dormir ou o comer.
Ninguém é criticado por espirrar em público. Já se soltar um flato , Ai! Jesus! que coisa porca, indecente, ordinária. Outros adjectivos depreciativos serão usados e o “prevaricador” olhado de tal forma que se censura matasse….enfim.
Mas, e eis a hipocrisia da situação, tal só se verifica se o acto for praticado em ambiente misto de homens e mulheres (é uma situação limite em que o pretenso "transgressor" não colhe a solidariedade dos seus pares, que se encolhem cobardemente na presença do sexo oposto). Porque o principal inquisidor, o Torquemada deste caso é precisamente o sexo feminino.
Sabe-se desde sempre, que um dos principais passatempos a que os homens se entregam quando estão em grupo - para jogar a peladinha semanal, no emprego ou mesmo em jantares de confraternização - é soltar o flato, uma libertação afinal natural de uma inocente mistura de nitrogénio e dióxido de carbono absorvido do ar, com dióxido de carbono, hidrogénio e metano produzido pelo próprio corpo. (geralmente estes concursos são feitos em função da extensão temporal e da intensidade sonora do gás libertado).
Sabe-se também, que as senhoras, quando em jantares públicos ou outras manifestações em sociedade, se deslocam aos pares ao wc por quatro razões: compor a maquilhagem, criticarem o vestido de uma das outras convivas, soltarem o excesso de gases do champanhe ou da água gaseificada através de sonoros flatos, e rirem-se muito no fim. Em público, criticam asperamente quem responde assertivamente ao apelo da natureza.
Está provado cientificamente que o corpo humano, sem distinção de sexo, produz diariamente um litro de flato. Está também provado cientificamente que o flato, quando reprimido, volta aos intestinos, sendo libertado mais tarde. Isto é, o flato reprimido não é absorvido ou perdido: é adiado. Pelo que mais tarde ou mais cedo as senhoras tão prontas a criticar, terão que soltar o seu próprio litro de gás reprimido. E fazem-no. Seja em público ou em privado.
O mais curioso é que o flato através da história, nunca foi tão abominado como a partir do século XX, tendo actualmente tais manifestações sonoras, quase passado à clandestinidade. As sociedades anteriores, revelaram-se afinal mais razoáveis e tolerantes que a nossa. Recorde-se que o nosso rei D. João V organizava saraus em que o ponto alto era a soltura de flatos, arte em que o soberano era exímio e de que se orgulhava tanto, como da edificação do Convento de Mafra, ou da concepção de filhos bastardos. É também reconhecido por especialistas, um “Concerto para Berimbau e Flato” de compositor brasileiro anónimo do século XVIII, o que prova que a manifestação natural agora repudiada publicamente, já foi popular e até alvo de lisonja.
Esperemos pois, que este libelo ajude a dignificar uma função do nosso corpo tão nobre como qualquer outra (e bem mais divertida que, por exemplo, um espirro) e tão vilipendiada nos dias de hoje.
Ah! E que as senhoras metam a mão na consciência, em vez de apontarem o dedo acusador!

*(na foto, D. João V, o grande mentor do soltar do flato em Portugal)
**(quem estava à espera de vir para aqui ler sobre traques e bufas bem se lixou)