domingo, 24 de julho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Memórias...(o texto)

…remetem-me para a casa dos meus avós, algo semelhante à das imagens, e que fotografei numa minúscula aldeia da beira interior.

A dos pais dos meus pais, também ela fazendo parte de uma pequena povoação situada nos contrafortes da Guardunha, foi construída pelas mãos grandes e ossudas do meu avô e alguns dos seus amigos, pedra sobre pedra, encaixadas de forma estranha para nós, habituados à exactidão do tijolo e do cimento, mas de uma beleza crua, primordial. O meu avô era como a terra que o rodeava, rude, rijo. Pequeno de altura, mas grande de alma, de vontade, de força. E foi à custa dessa sua força, que a casa de xisto foi erguida.

Não vivia miseravelmente como grande parte dos vizinhos- poder-se-ia dizer que tinha uma vida razoável, fruto do muito que trabalhara em novo – pelo que a construiu segundo os cânones da aldeia, mas um pouco maior que o habitual, o que a fazia sobressair no fim da rua onde se erguia, um pouco acima das outras.

A arquitectura era rudimentar e a distribuição das divisões fazia-se ignorando as questões estéticas, mas de forma funcional, segundo as prioridades da forma como na altura ali se vivia.

A casa tinha dois andares. O rés do chão, de pé muito alto, era dividido em duas partes: à frente, uma enorme despensa, que dava para a rua e onde se entrava por uma porta larga de dois batentes – a que se chamava “loja” – e onde se guardavam alguns utensílios de lavoura e todas as provisões da casa, desde os presuntos enterrados numa barrica cheia de sal, ao pão de centeio - feito uma vez por semana no grande forno que o meu avô erguera num canto do grande quintal, e que funcionava mais ou menos como forno comunitário devido à generosidade da minha avó – enfiado em sacos de pano que por sua vez, eram metidos no meio dos grãos de centeio e milho, guardados em duas grandes arcas de madeira. Do outro lado, a casa dos porcos – a furda – que se situava estrategicamente (já irão saber porquê) por debaixo da grande cozinha.

Para a parte habitável propriamente dita, no 1º andar,entrava-se por umas escadas laterais, já dentro do quintal, à frente do qual se erguia um muro de pedra, alto e tosco. Chegados ao cimo das escadas, seguindo em frente, a porta da cozinha e à esquerda a porta que dava acesso à sala e quartos.

Na cozinha destacavam-se logo duas coisas: as vigas nuas do tecto de telha vã, escurecidas pela fuligem do fumeiro, e a grande lareira de pedra e respectiva chaminé, precisamente a meio da parede esquerda, e onde fervilhavam quase sempre duas ou três pesadas panelas de ferro negras, de tripé e tamanhos diferentes. Na parede em frente à porta, uma grande janela, com vista para o pinhal da encosta em frente e para as faldas da serra. A um canto, uma mesa tosca e vários “mochos” – bancos de madeira, com assento de palha entrançada – onde se comia, e onde luzia sempre um cestinho com um pão, ao lado do qual repousava uma queijeira com queijo, amarelo ou picante, conforme a ocasião. A um dos cantos da cozinha, o pormenor mais insólito: um alçapão! Este, com o qual os adultos tinham sempre muito cuidado quando se encontravam crianças, dava para a furda dos porcos e estava colocado mesmo por cima da pia da comida dos suínos e por onde eram atirados os restos que podiam servir para lhes complementar a dieta: batatas, melancia, melão e mais o que os animais pudessem comer.

A outra parte da casa, estava dividida rudimentarmente, como era ali hábito: uma grande sala – tão grande que ali se chegou a servir o copo-de-água do casamento de um dos meus tios paternos – ao fundo da qual se situavam quatro quartos divididos por tabiques de madeira, três deles tão exíguos, que só lá cabiam as camas, uma cadeira e uma pequena banqueta onde se pousavam os castiçais com vela, que nessa altura, a eletricidade não passava de uma quimera. O outro quarto , o dos donos da casa, que generosamente o cediam a um dos filhos que por lá pernoitasse com a respectiva mulher, já era um pouco maior, e tinha, além da cama, cadeira e banqueta, um grande guarda-roupa. No lado direito da sala, um outro tabique a todo o comprimento, que escondia uma escada que dava para um sótão, onde o meu avô guardava uma variedade considerável de artefactos: de chocalhos para as cabras, ovelhas e vacas, aos magníficos safões de pele de cabra que ele usava quando ia para o mato, passando por guarda-chuvas antigos e cangas para juntas de bois, e muitas outras coisas que não consigo enumerar. Era o meu sítio preferido da casa e onde me perdia horas a brincar com o que calhava ou estendido a descansar e a olhar para o telhado, onde, por entre as telhas arredondadas e esverdeadas pelo musgo, o sol se esgueirava por entre alguns pequenos espaços que se abriam entre elas, ferindo, aqui e ali a penumbra, e a pensar já nem sei em quê, mas penso que em coisas muitos prosaicas, como é normal num rapaz de nove ou dez anos.

A casa era rodeada por um grande quintal. Não havia flores, a minha avó era muito pragmática - a família era numerosa, o espaço tinha que ser todo aproveitado de forma útil e, dizia ela, não tinha tempo para regar flores. Mas não faltavam aromas que perfumavam o ar e chegavam até à casa, especialmente o que subia de um pessegueiro largo, que na altura devida, se enchia de frutos sumarentos, tão pesados que lhe dobravam os ramos até quase baterem nochão, árvore que era o orgulho do meu avô, juntamente com o caramanchão por onde serpenteava uma videira que produzia as mais doces uvas ferral com que eu alguma vez me deliciei durante toda a vida.

Depois, havia as mantas de trapos que a minha avó fazia, e estendia durante o verão a meio de uma das leiras do quintal, e onde espalhava figos e uvas de várias qualidades, que, depois de apanharem a quantidade de sol apropriada, se transformavam em deliciosas passas. Havia ainda, lá muito ao fundo – o quintal teria uns 300 metros de comprimento, talvez mais, era em socalcos, no último dos quais o meu avô abrira um poço, de onde, com uma nora artesanal, retirava a água necessária aos legumes que ele cultivava nesse ultimo degrau do terreno e que chegavam para o sustento da casa, e por vezes ainda sobravam para algum vizinho menos abonado pela sorte e com filhos para sustentar – um muro que delimitava a propriedade, e que era debruado por uma gigantesca silva, que produzia umas suculentas amoras silvestres, quase do tamanho de ameixas - pode ser exagero, mas sabe-se que, quando crianças tudo nos parece grande, e todos os adultos nos parecem velhos – e que, excesso de gula, me provocaram certa vez, problemas intestinais tão intensos, que me serviram de aviso para o futuro.

As cabras à solta pelo quintal, o cheiro intenso que vinha da “corte” onde descansava a mula e o macho, os dias da matança, a colheita da azeitona, tarefa árdua mas compensadora, os dias de vindima sempre com a família em alegre confraternização à volta da mesa farta…tantas memórias que nem saberia por onde começar.

Ah! pois! Não havia casa de banho...


sábado, 16 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Canções de Vida (1) - Fever/Peggy Lee


"Fever", original de Little Willie John, foi imortalizado por Peggy Lee, numa versão da qual o mínimo que se poderá dizer é que é esplêndida. À perfeição do minimalismo instrumental une-se uma voz única, uma voz que se poderá comparar a uma boa cerveja: se o sabor desta deve preencher voluptuosamente todos os pontos mais recônditos da nossa boca para nos dar o máximo prazer, aquela, pelo seu timbre inigualável, enche-nos todos os sentidos através da audição, provocando o verdadeiro êxtase.
Por estes dias, em que Esperanza Spalding ocupa todas as revistas com retratos da artistas sublinhados com os mais diversos elogios, imagino-a numa versão de "Fever" na qual exibisse as suas duas artes (do canto e de contrabaixista). Mas duvido muito que, na vertente vocal, alguém se possa comparar à potência e intensidade com que Peggy Lee "pegou" no tema.

Renascendo...

O renascer - deste sítio - se eu cumprisse com o que prometo a mim próprio, deveria ter tido lugar na passada 4ª feira, dia 6. Pelo exemplo se vê que procrastino até, naquilo que comigo prometo cumprir. Mas, como proclama o povo que "vale mais tarde que nunca " (máxima demonstrativa que nem sempre a voz do povo é lá muito acertada), cá estamos, mesmo sabendo que tal decisão não vai afectar o destino de ninguém.


As razões da ausência foram ponderosas - e poderosas - mas visto pertencerem à minha esfera íntima, eximo-me de as expor. Importante mesmo - para mim, pelo menos - é sentir-me novamente pronto a regressar.

Vamos ver se por muito tempo, e com assiduidade aceitável...