sábado, 31 de março de 2012

Vistos e Revistos - Ao fim de semana um filme

Vertigem Azul - Luc Besson

O filme de hoje, talvez desconhecido de muitos, é, provavelmente a obra da vida do realizador francês, Luc Besson, de quem sou um indefectível. A maior parte do filme, de 1988, passa-se debaixo de água, a grandes profundidades, característica que empresta ao filme uma beleza extraordinária e selvagem. Penso que, para os apaixonados pelo mar, será sempre um filme a ver e rever. A história relata a rivalidade entre dois mergulhadores - um francês, Jacques Mayol (Jean Marc Barr) e Enzo Maiorca(Jean Reno) - campeões de mergulho livre, isto é, mergulho praticado sem a ajuda de garrafas de oxigénio. Tal rivalidade, que vem desde a juventude de ambos, estende-se através do tempo e atinge limites pouco prudentes, e mesmo atentatórios da vida dos dois homens. Pelo meio, a disputa pelo amor de uma mulher (Rosanna Arquette).
Um filme muito belo, com banda sonora de Eric Serra.

Nota - O filme baseia-se em factos verídicos, embora romanceados, e os dois principais intervenientes retratam dois homens que efectivamente disputaram o título de campeão mundial de mergulho livre durante alguns anos.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Night' Music (8)


Ryan Adams - Come pick me up

Dúvida Existêncial (8)

Alguém me esclareça: se sempre é verdade que Deus existe e tudo ao cimo da terra é obra dele, será que passou umas horas na adega a provar tintos reserva  imediatamente antes de conceber o José Castelo-Branco?

Miami Nunca Mais

Desde sempre que se debate a justiça, a legislação parece nunca estar perfeita, pelo que há sempre leis novas e outras que são erradicadas ou alteradas.
Um dos países mais originais na criação de legislação são os Estados Unidos, até porque os diversos estados, ou mesmo condados, são livres de criar as suas próprias leis, dando origem a autênticos abortos legislativos.
Desde já uma declaração de princípios: este que vos fala, não tem qualquer ligação com a área em apreço, nem sequer formação mínima que seja em Direito, falando assim a linguagem do leigo, o que poderá ocasionar o proferir de algum disparate, facto pelo qual pede antecipadamente desculpa, a ocorrer.
Todo este arrazoado que vocês leram até agora com toda a atenção, vem a propósito de um dos tais disparates legislativos, criado recentemente no estado americano da Flórida.
Pois os decisores decidiram de modo arbitrário proibir um dos mais interessantes desportos alguma vez visto naquelas paragens: o arremesso de anões.
Foi aliás um campeonato desse encantador desporto que me fez deslocar a Miami, onde não penso voltar, uma vez que é uma região desagradável, onde proliferam aligatores, mosquitos e o Horatio Cane [embora a presença deste, seja de alguma forma compensada com a presença da Eva LaRue (principalmente da cintura para cima)]
Disse anteriormente que a decisão teria sido arbitrária e há uma ponderosa razão para o ter feito: os próprios anões se manifestaram contra tal lei, não se entendendo, portanto, o porquê de se acabar com um desporto tão interessante e divertido.
Jà agora, e para os interessados, os campeonatos de arremesso do anão era compostos de duas modalidades: numa, os anões eram arremessados à distância para cima de colchões (refira-se que os anões vestiam fatos amortecedores que lhes evitavam quaisquerlesões). Na outra modalidade, os anões vestiam fatos de velcro e eram arremessados contra paredes também estofadas com velcro, onde era suposto os anões ficarem colados. Tudo inofensivo, como se verifica. Portanto, está decidido, a Miami não volto. Não se deve frequentar um sítio onde se aprovam leis iníquas que lesam os interesses do cidadão comum e cumpridor, que apenas gosta de se divertir.

NOTA IMPORTANTE: Soube-se já depois da feitura deste artigo, que um deputado estadual da Florida, propôs uma lei que voltasse a permitir tão salutar desporto como é o do lançamento de anões. Aguardemos pois, que, desta vez, o bom senso impere.

quinta-feira, 29 de março de 2012

From Venus to Mars (3)




Rita Hayworth (Gilda)

Dúvida Existêncial (7)

Desta vez são duas, mas relacionadas:
Alguém me consegue explicar como é que com a miserável programação que exibe, a TVI consegue ser líder de audiências?
Alguém me consegue confirmar se a GfK,empresa recém-contratada (não por ser a melhor, mas a mais barata das que foi a concurso) para medir audièncias televisivas, e que tem apresentado resultados absolutamente hilariantes, é ou não a arma escolhida para descredibilizar  RTP, facilitando assim a sua venda ao desbarato e o mais rápido possível
?

O Alfredão

O Alfredão chama-se Alfredo mas quer-se superlativo.
O Alfredão tem, mais ou menos, 1,90m
O Alfredão passa no ginásio 4 horas por dia, sete dias por semana, com um personal trainer
O Alfredão passa uma hora no solário.
O Alfredão, quando acaba a sessão de musculação e o solário, passa meia hora frente ao espelho da casa de banho a fazer poses e a passear nu pelo balneário, sem objectivo aparente e por vezez dobra-se e mexe nos pés como se algo aí o incomodasse.
O Alfredão tem uns biceps que são, pelo menos, o dobro dos meus.
O Alfredão, depois das poses, da exibição e do banho, faz a barba e passa duas mãos cheias de Denim pela cara.
O Alfredão cheira que tresanda.
O Alfredão usa gel efeito molhado e pinta as unhas com verniz transparente.
O Alfredão fez depilação total convencido pelo seu personal trainer.
O Alfredão usa sempre camisas brancas muito justas, com 4 botões abertos.
O Alfredão, usa sempre calças também muito justas, que lhe modelam o rabo e se lhe enfiam entre as nádegas.
O Alfredão usa uns casacos 2 números abaixo do que deveria usar.
O Alfredão usa, à volta do pescoço, uma corrente de prata com 1 cm de largura
O Alfredão usa palavrões mesmo quando não vêm nada a propósito.
O Alfredão tem uma entoação de voz estranha
O Alfredão, olha sempre as mulheres com um ar de superioridade e fala-lhes da mesma forma.
O Alfredão repete à exaustão que é muito macho.
O Alfredão, quando sai do ginásio, anda da mesma forma que uma modelo desfila na passerelle, e olha os outros com olhos de carneiro mal morto.
O Alfredão estaciona o carro SEMPRE de traseira.
O Alfredo, um dia destes, vai acabar por sair do armário

quarta-feira, 28 de março de 2012

From Venus to Mars (2)



Charlize Theron

Dúvida Existencial (6)

Hoje fui obrigado a teclar, entre outros, os seguintes pares de palavras para ser autorizado a responder a alguns blogues: requaque jusits; tionus rnsigh; stryin secitand; eaddl ndiced; yaoullef grrotin; sulfat cecrissa;linftoc yawoll. Não gosto nada de escrever coisas de que não saiba o significado pelo receio de estar a ofender alguém.
Quem me informa que porra de língua é esta, para poder verificar no babelfish o que estou realmente a escrever
?

(e não se pode acabar com elas?)

Flato - A Má Reputação (Imerecida)

Que não se pense que este será um panfleto de exaltação do flato. Não! Trata-se tão somente de uma tentativa de correcção de uma injustiça que dura há dezenas de anos, praticada sobre um acto tão natural para o ser humano como o rir, o espirrar, o dormir ou o comer.
Ninguém é criticado por espirrar em público. Já se soltar um flato , Ai! Jesus! que coisa porca, indecente, ordinária. Outros adjectivos depreciativos serão usados e o “prevaricador” olhado de tal forma que se censura matasse….enfim.
Mas, e eis a hipocrisia da situação, tal só se verifica se o acto for praticado em ambiente misto de homens e mulheres (é uma situação limite em que o pretenso "transgressor" não colhe a solidariedade dos seus pares, que se encolhem cobardemente na presença do sexo oposto). Porque o principal inquisidor, o Torquemada deste caso é precisamente o sexo feminino.
Sabe-se desde sempre, que um dos principais passatempos a que os homens se entregam quando estão em grupo - para jogar a peladinha semanal, no emprego ou mesmo em jantares de confraternização - é soltar o flato, uma libertação afinal natural de uma inocente mistura de nitrogénio e dióxido de carbono absorvido do ar, com dióxido de carbono, hidrogénio e metano produzido pelo próprio corpo. (geralmente estes concursos são feitos em função da extensão temporal e da intensidade sonora do gás libertado).
Sabe-se também, que as senhoras, quando em jantares públicos ou outras manifestações em sociedade, se deslocam aos pares ao wc por quatro razões: compor a maquilhagem, criticarem o vestido de uma das outras convivas, soltarem o excesso de gases do champanhe ou da água gaseificada através de sonoros flatos, e rirem-se muito no fim. Em público, criticam asperamente quem responde assertivamente ao apelo da natureza.
Está provado cientificamente que o corpo humano, sem distinção de sexo, produz diariamente um litro de flato. Está também provado cientificamente que o flato, quando reprimido, volta aos intestinos, sendo libertado mais tarde. Isto é, o flato reprimido não é absorvido ou perdido: é adiado. Pelo que mais tarde ou mais cedo as senhoras tão prontas a criticar, terão que soltar o seu próprio litro de gás reprimido. E fazem-no. Seja em público ou em privado.
O mais curioso é que o flato através da história, nunca foi tão abominado como a partir do século XX, tendo actualmente tais manifestações sonoras, quase passado à clandestinidade. As sociedades anteriores, revelaram-se afinal mais razoáveis e tolerantes que a nossa. Recorde-se que o nosso rei D. João V organizava saraus em que o ponto alto era a soltura de flatos, arte em que o soberano era exímio e de que se orgulhava tanto, como da edificação do Convento de Mafra, ou da concepção de filhos bastardos. É também reconhecido por especialistas, um “Concerto para Berimbau e Flato” de compositor brasileiro anónimo do século XVIII, o que prova que a manifestação natural agora repudiada publicamente, já foi popular e até alvo de lisonja.
Esperemos pois, que este libelo ajude a dignificar uma função do nosso corpo tão nobre como qualquer outra (e bem mais divertida que, por exemplo, um espirro) e tão vilipendiada nos dias de hoje.
Ah! E que as senhoras metam a mão na consciência, em vez de apontarem o dedo acusador!

*(na foto, D. João V, o grande mentor do soltar do flato em Portugal)
**(quem estava à espera de vir para aqui ler sobre traques e bufas bem se lixou)

terça-feira, 27 de março de 2012

Duvida Existencial (5)

Alguém me pode dizer se são crimes limpos os de colarinho branco?

(é que pelo que se tem visto, quase nunca vemos um desses alegados criminosos ser condenados)

From Venus to Mars (1)



Lauren Bacall

O Filho

Ontem reencontrei Q. Apesar da idade, continua com o mesmo aspecto robusto de sempre, o olhar directo, franco. Gostei de o rever,
Conheci Q há uns anos quando ocupei um lugar de alguma responsabilidade num sector da empresa em que ambos trabalhávamos. Não sendo um tipo retraído, era, no entanto, reservado em relação à família em relação à qual se referia apenas o indispensável.
Aos poucos, e talvez por ter que falar mais comigo, fui-lhe conhecendo retalhos do passado. Nascera na Beira Alta, numa aldeia cravada nos socalcos da serra e a infância tinha sido passada entre a escola onde aprendeu as letras à pressa e os pastos para onde levava as ovelhas e cabras. Todos os 7 dias da semana, ao nascer do sol, com regresso marcado para o anoitecer. No saco de pano surrado, um pedaço de pão e um naco de toucinho que lhe haveria de dar para o dia todo. Nos pés, um par de socas de madeira, fosse verão ou inverno rigoroso, a neve a cobrir os caminhos velhos por onde levava os animais.
Mais tarde, a tropa, a guerra colonial em Moçambique. Quando partiu, deixou namorada. Grávida. E decidiu não voltar. Nunca me disse porquê, mas pelo que lhe conheço, deve ter havido forte motivo.
Ficou por Moçambique, na Beira, tinha tirado a carta de condução na tropa, tornou-se taxista. Até que alguém que então era influente na empresa para onde muito mais tarde eu viria a entrar, o convidou a mudar de profissão. Largou o táxi para se tornar chefe dos contínuos - todos negros - no novo emprego. Entretanto, casara e tivera 2 filhas.
Quando chegou o 25 de Abril, regressou como tantos outros, mas com divórcio já em andamento. Chegado, conheceu então o filho da ex-namorada. Ao que parece, o comportamento do rapaz desagradou-lhe desde o início, era quesilento, preguiçoso, faltava frequentemente à verdade, e a relação entre eles nunca foi exemplar.
Um parêntesis para referir que Q - e tive que o avaliar profissionalmente algumas vezes, embora já na recta final da sua carreira - me pareceu sempre um tipo correcto, um pouco intolerante em relação a determinados comportamentos, mas afável no trato, extremamente organizado e honesto, e embora fosse pouco flexível em relação a ritmos de trabalho - tinha o seu e dele não se afastava - era trabalhador.
Entretanto, o filho envolveu-se em drogas, e em casa começaram as mentiras, os pequenos furtos, sempre acobertados pela mãe, com quem o rapaz vivia. Ao pai, só aparecia para pedir dinheiro, e Q já sabia para quê. Recusava sempre. Recusava contribuir para a sua destruição. Quando viu que as coisas tinham chegado longe de mais, chegou mesmo a cortar relações com o filho. No entanto, este aparecia esporadicamente até na empresa e sempre com o mesmo fito.
Depois, o filho deixou de dar sinal de vida, mas ele sabia que vivia na rua, que continuava na pequena marginalidade, a drogar-se, e que a própria mãe passava grandes períodos de tempo sem saber dele.
Nos anos 90, altura em que trabalhei com ele e fui sabendo da história, Q quando se referia aos filhos, só mencionava as 2 raparigas, era como se o filho não existisse. Percebi que o assunto lhe era doloroso, e nunca lho referia.
Um dia, recebeu um telefonema e pediu para sair.
Regressou 5 dias depois. Soube então que o telefonema era da polícia, e que lhe solicitavam a presença na morgue a fim de reconhecer um corpo.
Era o filho e morrera 3 dias antes de overdose.
A estranheza dos colegas perante a sua ausência - logo ele, que nunca faltava - levou-o a relatar o episódio, o que tendo em vista a sua habitual reserva em relação à sua vida pessoal, até me espantou um pouco, mas obviamente, não me pronunciei. E ainda me admirei mais com a postura aparentemente serena com que relatou os factos.
No fim, todos ficámos como que sem saber o que dizer. Na verdade, em tais circunstâncias há muito pouco, ou mesmo nada a dizer. Contudo, houve um colega seu - que não primava pela polidez no trato - que se virou para ele e disse:
- Se calhar, foi o melhor para todos. Para ele que já estava condenado. Para ti, que é um problema que te sai das costas
Q encarou-o, e acho que foi a primeira e única vez que o vi com os olhos orvalhados. Respondeu lhe:
-Estás completamente enganado. Não, não foi o melhor, foi o pior. Não percebes? Ele era meu filho.
Até hoje nunca mais me esqueci daquelas palavras e do rosto de Q, que nesses dias parecia ter envelhecido 10 anos. E de cada vez que reencontro Q, recordo-me sempre daquele momento.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Night' Music(7) - Travelling Wilburys

Traveling Wilburys - Handle With Care


Duvida existencial (4)

Será que com a crise quando os namorados românticos levam as namoradas românticas a um jantar romântico, vão insistir em rachar a conta ou vão continuar a deixar que sejam elas a pagar tudo?

Da problemática das relações cliente/empregado de mesa de restaurante ou similar


É sabido que ao longo dos tempos, a relação cliente/empregado de mesa de restaurante ou similar, tem sido não raras vezes tensa. Sabe-se também que tal tensão, é em grande parte causada pelo modo como o cliente interpela o empregado de mesa.
Analisemos as várias formas habitualmente usadas pelo cliente e reacção do empregado:
- Acena e diz “Ei!”. Esta é uma forma pouco elegante de se dirigir ao empregado: faz demasiado alarde, o empregado não gosta e faz de conta que não ouviu.
- Acena e diz “Oi!”. Esta é uma maneira arrogante do cliente se manifestar, e ainda pior que a anterior. Dela irá resultar que o cliente irá ser o último a ser servido.
- Acena, diz “Oi! e acrescenta “Criado”: "Oi! Criado!". Uma das piores. Ninguém gosta de ser chamado de criado - até as sopeiras já são “empregadas domésticas” - e assisti a, pelo menos uma cena inopinada, provocada por este tipo de chamamento, numa casa de pasto na Rua dos Correeiros, quando um alarve de 120 kilos a utilizou para chamar o empregado. Este respondeu-lhe “Vai chamar criado à p$%a da tua mãe, oh c%&%ão!” (como se verifica, o empregado nem sequer cuidou da sintaxe), e voltou-lhe as costas. O badocha levantou-se e foi por detrás dele e deu-lhe um calduço. É óbvio que a confusão estava estabelecida e a única coisa positiva que resultou do incidente, foi eu ter saído de lá sem pagar o jantar.
- Há ainda o vulgar “Pssst”, que em restaurantes grandes não surte qualquer efeito, uma vez que não é audível. Só o aceno, é igual, e ainda por cima, se todos decidirem recorrer ao mesmo sistema, o restaurante fica a parecer uma estação de comboios de província, com a família toda a despedir-se do pobre rapaz que vem à procura de trabalho em Lisboa. Dois apelos à atenção do empregado absolutamente inúteis, portanto.
Tem-se procurado resolver o problema. Houve já a ideia do “bater de palmas”, à semelhança do que se pratica em alguns locais para chamar do exterior, as pessoas que eventualmente possam estar dentro de uma casa, tendo mesmo alguns restaurantes chegado a exibir á porta um cartaz com os dizeres: “Para chamar o seu empregado de mesa, bata palmas. Será atendido de imediato”. A ideia foi rapidamente posta de parte: os restaurantes começaram a ficar demasiado barulhentos e a parecer salas de prática de flamenco, mas sem ciganos nem sapateado.
Ora bem, penso que encontrei solução para este transcendente problema civilizacional: usarem-se umas bandeirinhas mais ou menos do tamanho daquelas que em alguns países são distribuídas às criancinhas e aos rústicos para eles agitarem quando são visitados por chefes de estado estrangeiros. As bandeirinhas terão várias cores e serão usadas conforme o que o cliente no momento desejar.
Exemplificando: o cliente chega, senta-se, empunha a bandeira vermelha durante 10 segundos - tempo calculado suficiente para um dos empregados de mesa se aperceber da sinalética do cliente - e em seguida, metê-la-á erecta num suporte apropriado localizado no centro da mesa, e aí permanecerá até ser atendido. O empregado chegará à mesa com o sorriso habitual, entregará a carta, fará uma ou outra sugestão sobre o prato aconselhado pelo chefe e o vinho apropriado, e retirar-se-á, dirigindo-se com o pedido à cozinha. A bandeirola vermelha será substituída por uma de cor amarela - símbolo da fome - se a refeição demorar muito a chegar à mesa. Quando tudo estiver a andar, a mesa ostentará uma bandeira azul, sinal que tudo está a decorrer bem. Substitui-la-á mais tarde, por uma cor de laranja que significa estar já à espera da carta das sobremesas. Na altura em que o empregado chegar com a mesma, convém só deixá-lo ausentar com o pedido já em sua posse. Finalizada a sobremesa, o cliente acenará uma bandeira castanha, o que significa que deseja café. O empregado virá perguntar se deseja algum digestivo para acompanhar, e retirar-se-á a fim de satisfazer o pedido.
E pronto, refeição finalizada. É nesta altura que o cliente acenará com a bandeira verde - sinal de esperança que a conta não seja excessiva - a qual irá substituir a castanha no centro da mesa.
Enfim, e chegada a conta, o cliente terá duas bandeirolas á sua disposição: a negra, que significará que achou que a conta era um roubo (adeus gorjeta, pensará de imediato o empregado), ou uma branca, sinal de que o cliente está satisfeito, e que o empregado poderá contar com uma generosa gorjeta de pelo menos 1€. De qualquer dos modos, o empregado virá à mesa cobrar.
Como se verifica, é um sistema prático, intuitivo e silencioso, que fará dos restaurantes, locais mais pacíficos e com o serviço mais eficiente.
Um aviso: a patente do sistemajá se encontra convenientemente registada.

Nota: - Cheguei a pôr a hipótese de substituir as bandeirinhas por uma espécie de candeeiro - cilíndrico com aproximadamente 5cm de raio e 30 cm de altura, cuja ponta superior seria ligeiramente arredondada - colocado no centro da mesa, e com vários interruptores cada um fazendo acender uma lâmpada de cor diferente (tal como as bandeiras), na extremidade superior do candeeiro, mais ou menos como acontecia com a ponta do dedo do ET. Porém, receei que esta versão do meu sistema pudesse dar lugar a comentários menos próprios, especialmente quando o cliente acendesse a luz vermelha, e acabei por desistir, optando pelas bandeirinhas.

domingo, 25 de março de 2012

Dúvida Existencial (3)

É preconceito meu, ou aquela de marmanjos de 30 e tal anos vestidos de escuteiros, de calçõezinhos e meínha pelo joelho, a renarem aos acampamentos, é mesmo uma cena um bocado panisgas?

Esclarecendo equívocos (1)




Manuel Maria
Barbosa du Bocage
não foi, como alguns pensam,
um tipo que contava anedotas
e de vez em quando tecia uns sonetos.
Não, Manuel Maria
Barbosa du Bocage
foi um poeta
que de vez em quando
dizia uma anedota



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades.

Eis Bocage, em quem luz algum talento.
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento
.

sábado, 24 de março de 2012

Vistos e Revistos - Ao domingo, um filme (4)

(esta semana, ao sábado)
Beckett - Peter Glenville

O filme de hoje, "Beckett", é eleito por mim, principalmente pela excelência da interpretação de um dos actores principais, Peter O'Toole (Henry II). Na vida tenho algumas convicções. Certezas? Poucas. Uma das que mantenho há muito tempo é a de que Peter é o melhor actor que jamais vi no cinema. E não me esqueço do ar cool de Steve McQueen em "A grande evasão" ou Bullit, da afirmação de De Niro em "O Touro Enraivecido" ou "Era uma vez na América", da sobriedade de Burt Lancaster n"O Leopardo", ou do "louco" Nicholson em "Voando sobre um ninho de cucos". E muitos, muitos outros: sir Lawrence Olivier, Brando, Hoffman, isto só para falar dos "clássicos".
Mas O'Toole...Na tarde em que vi "Beckett" pela primeira vez, aconteceu-me algo inédito: no final, permaneci no meu lugar, com vontade de o rever imediatamente, de ficar para a sessão seguinte. A sua interpretação é de tal modo avassaladora que ofusca por completo o outro enorme actor que com ele contracena, Richard Burton (Beckett) e que tem, ele também, um desempenho irrepreensível.
O filme é, todo ele, um verdadeiro tratado de representação.
Hoje portanto, e acima de tudo, falo mais do actor do que propriamente do filme. O actor que me faz não me entusiasmar muito pela anual celebração dos Óscares, visto ter sido sempre esquecido pela Academia - se bem que nomeado algumas vezes - quando tem no seu CV filmes como "Lawrence da Arábia","Lord Jim" ou "O Leão no Inverno" ou mesmo "Venus".
O meu maior lamento vai para o facto de não ter O'Toole recusado o Óscar Honorário que lhe foi conferido em 2003. Um actor da sua envergadura não se podia ter contentado com um prémio de consolação, nem tal veio acrescentar nada à sua obra.
Como curiosidade, as nomeações que O'Toole recebeu para Óscar de melhor actor:
- Lawrence da Arábia -1963
- Beckett - 1965 (juntamente com Richard Burton)
- O Leão no Inverno - 1969
- Goodbye Mr. Chips - 1970
- A classe Dominante - 1973
- The Stunt Man - 1981
- My Favourite year - 1983
- Venus - 2007


King Henry II - Não receies, Bispo. Não procuro absolvição. Na consciência tenho algo mais grave que um pecado: um erro!

Canções da Vida (10)- George Harrison (Beatles)- While my guitar gently weeps


Os Beatles eram uma banda - a melhor de todos os tempos, digo eu, porque além da hiper qualidade da sua obra, deles nasceu todo um movimento musical que ainda hoje perdura e continua a influenciar uma larga percentagem dos músicos actuais - idolatrada em todo o mundo, e vista como um todo. Simpatizava-se com Lennon como com Ringo ou McCartney ou Harrison. De quem se gostava a sério, era dos Beatles, desse grupo de 4 rapazes que ofereciam ao Mundo uma música incomparável. Contudo, e dadas as idiossincrasias dos 4 e a contribuição que davam para o grupo em termos de criação, Harrison e Starr eram os menos considerados.
Lennon e MacCartney eram criadores geniais e extrovertidos. Ao contrário, Harrison era um rapaz low-profile e ao princípio atreveu-se pouco na criação. Aos poucos foi perdendo a timidez, e a partir de 1965, começou a tornar-se cada vez mais interveniente nos álbuns do grupo.
A canção aqui apresentada, faz parte do fabuloso White Album, de 1968, e uma das melhores daquele que terá sido, provavelmente, a obra mais completa do grupo. De uma sensibilidade e de um brilhantismo instrumental incomparável, é uma das músicas maiores da década de oiro da música popular anglo-saxónica.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Dúvida Existencial

Quem é que me sabe informar sobre quando é que a SIC volta a apresentar o Nutícias?

(não se entende! se o Miguel Sousa Tavares tem lá cabidela a comentar, porque não a Paula Coelho ou outra do mesmo nível a apresentar?)

Night' Music(6)

Morphine - The Night


Maravilhas da Natureza

O local foi escolhido meticulosamente, com mão de mestre, não aqui que não tem ângulo, ali também não que bate o sol a partir das 10. Nem acolá, que tem muito tojo e carqueja e sai-se de lá todo picado.
Escolheu um sítio onde o muro de xisto fazia um recanto com uma oliveira, foi erguendo uns ramos de pinheiro que estavam por ali caídos, e o casinhoto que nos iria servir de abrigo e camuflagem, foi tomando forma.
- Hum...parece-me bem. Não vão dar por nós. - disse. E mandou-me entrar, seguindo-me. Depois, com mais uns ramos de oliveira, tapou a entrada. Estávamos completamente escondidos, mas aquilo era apertado. Ao fim de 5 minutos comecei-me a mexer, incomodado.
- Está quieto, que eles são muito ariscos e dão conta de todos os movimentos,
Doíam-me os joelhos.
- Claro, estás de cócoras. Põe-te como eu, de joelhos e apoia o rabo nos pés. Ou então, senta-te. - Optei pela 2ª posição aconselhada e assim fiquei.
Os raios de sol começavam a iluminar o pomar, e a penetrar pelas frestas deixadas pelos ramos que nos escondiam. Estavamos situados num pequeno morro, o que nos dava uma vista abrangente sobre todo o pomar. Era na verdade esplêndido, as várias árvores misturadas, as frutas de várias cores e o sol a bater-lhes fazia aquele pedaço de terra parecer uma tela àlacre. E aromática. Os cheiros frutados misturavam-se e inundavam-nos as narinas de forma avassaladora. E mesmo á nossa frente, as três imponentes cerejeiras, batidas em cheio pelo sol que reflectia nos magníficos frutos, enormes, quase do tamanho de pequenas ameixas. Eram realmente belas cerejas, vermelhonas, suculentas. Mesmo á medida do apetite dos vários casais de melros que de repente apareceram do nada, e se puseram a depenicar nos frutos, saltando de ramo em ramo, deixando atrás, das cerejas devoradas, só caroços.
Reparei então na beleza dos pássaros, a sua plumagem negra e lustrosa, o bico amarelo, um contraste extraordinário. Eram animais muito bonitos, cuja beleza só era propocional à sua voracidade.
Estava naquela espécie de enlevo, quando senti a meu lado um ruído seco seguido de um silvo. Ao mesmo tempo, lá fora, ouvi um baque e vi os melros, como que impelidos por uma mola, levantarem voo em grande velocidade.
Ele então afastou os ramos da entrada, desatou a correr para a cerejeira mais próxima e agachou-se.
- Pimba, mêmo na tola - exclamou triunfante, ao mesmo tempo que se erguia segurando numa mão um dos melros, e na outra, a espingarda de pressão de ar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Dúvida Existencial

Alguém me explica o que é um "blog fofo"?

Alegadamente, escrevi isto

Muito corrente no discurso do meu avô era aquele “ninguém alguma vez viu o dia de amanhã “. Comum, como o meu avô, a frase resumia a incerteza no futuro.
Eu entendia-o, e sabia que a expressão, contendo em si uma fatalidade, não encerrava nada de excessivamente trágico, tratando-se meramente de uma generalidade.Sabia que, apesar de tudo, no dia seguinte o céu e a terra permaneceriam no mesmo lugar. Até um dia…
Porém, os tempos agora são outros, de incertezas muito mais latas, e não se poderá garantir que o que hoje é obstinadamente branco, amanhã não será por decreto, garantidamente preto. Hoje, nada se pode afirmar com absoluta certeza. Ou para ser preciso, hoje, nada se pode afirmar. Hoje, por exemplo, creio que Pereira não afirmaria.
E é assim que recentemente e irresistíveis, os termos derivados do verbo “alegar”, surgem a dominar o nosso léxico e o nosso dia-a-dia. Como exemplo, título de uma notícia de um jornal: “A polícia apanhou os “alegados” ladrões em flagrante delito, durante um assalto a uma bomba de gasolina em Freixo de Espingarda às Costas”. Perguntar-se-á porque é que, tendo sido os gatunos apanhados em flagrante, o jornalista teve o cuidado de os adjectivar de “alegados”. A explicação é simples: provavelmente, na manhã seguinte, quando forem presentes ao juiz, este, “alegadamente”, deixá-los-á sair em liberdade.
Este enriquecimento discursivo, herdado naturalmente dos livros de Direito, para quem noticia e que antes estava sujeito a ser contradito, surgiu como um alívio, como o acessório perfeito para poder noticiar sem correr o perigo de ser levado à barra por editar notícias “não exactas”.
Sou, eu próprio, um apoiante sem reservas da utilização destes abençoados termos, que, para além de enriquecerem o estilo, enobrecem o discurso, porque salvaguardam a exactidão das afirmações, e não raro, dou por mim a utilizá-los.
Eis uma lista de algumas das minhas mais recentes afirmações, nas quais tenho recorrido aos alegados termos:
- Alegadamente, o Vale e Azevedo poderá um dia ser extraditado.
- A Scarlett Johannsen e a Charlize Theron estão, alegadamente, cada vez mais …
- Alegadamente, o "Governo Sombra" é protagonizado por um moderador, um humorista, um intelectual e um rapaz com pretensões a humorista e intelectual
- Alegadamente, o Miguel Sousa Tavares, tem noites.
- Alegadamente, os casacos do Goucha são cada vez mais másculos.
- Alegadamente, à nossa conta, a conta do Markl vai engordando


- Alegadamente, o “House” sem a Jennifer Morrison e a Olívia Wilde, é como uma jarra sem flores.

- Alegadamente, ter-se-á descoberto que, alguns dos concorrentes da Casa dos Segredos, possuíam resíduos de cerébro.
- Alegadamente, e a avaliar pela qualidade do juri, esta irá ser a mais exigente edição do "Ídolos"
- Alegadamente, o Rui Santos é o ser humano que utiliza mais palavras para expor uma simples ideia (nem sempre muito bem explicada).
- Alegadamente, e ao contrário do que alegadamente afirmam alguns benfiquistas, Pinto da Costa não nasceu em Palermo e sim no Porto.
- Alegadamente, e quando as coisas vão de mal a pior, o Governo sodomiza intelectualmente o povo, quando todos os dias repete que trabalha para a nossa felicidade.

* escrevi isto há uns tempos. com uns pequenos retoques, penso que se mantém perfeitamente actual

Vic

quarta-feira, 21 de março de 2012

Night' Music (5)

The Kills - Love is a deserter

Porque hoje é dia de poesia

No teu corpo descubro rios em fúria
Que percorrem o meu à desfilada
Em golfadas de sangue negro e ardente de paixão
No teu corpo descubro míriades de estrelas
E o mar enorme em convulsão
Desbravo montanhas e sonho auroras-boreais
rasgo florestas, desperto a imaginação

Em noites de pecado e de cetim
No teu corpo, encontro terra e lua e o Universo
e no teu corpo, até me encontro a mim

O Acidente

Relato este episódio, absolutamente verídico, porque, numa sociedade ainda muito cheia de preconceitos de todo o tipo que nos transforma no povo triste que somos, o achei quase surreal.
Zé, (nome fictício) trabalhou na mesma empresa que eu durante alguns anos. Era - suponho que ainda é - um tipo extrovertido, muito bem educado, divertido e que se apresentava sempre impecavelmente. Além disso, era gay. E não fazia da sua opção sexual qualquer segredo, isto apesar da estrutura da empresa não ver com muito bons olhos esse tipo de questões publicitadas, para mais, trabalhando o Zé no Marketing e portanto, com constantes contactos com o público.
Um dia, soube que M. teria tido um grave acidente de automóvel. Imaginei que tivesse sido em serviço, uma vez que estávamos a meio da semana. Liguei para o seu serviço e indaguei sobre o que acontecera e só me souberam dizer que tinha sido na noite anterior, e que teria sido realmente grave, encontrando-se ele em coma. Nos dias seguintes foram surgindo notícias que davam conta de que o acidente teria contornos algo insólitos, mas ninguém sabia contar o que realmente se passara. No fim da semana seguinte, foi-me comunicado que Zé saíra de coma e que estava em recuperação. Fiquei mais descansado e passado uns dias quase nao me lembrava dele, sabendo só de quando em vez que ele estava a melhorar, mas que ainda iria demorar até voltar a trabalhar.
Passados sensivelmente 6 meses, encontrei-o na sede da empresa, já completamente recuperado, e de posse da sua habitual boa disposição. Cumprimentou-me com a exuberância natural nele, perguntei-lhe se estava restabelecido e sem perder tempo - a curiosidade é uma coisa lixada - perguntei-lhe:
- Ouve, soube que o teu acidente foi um bocado estranho. Conta- me lá, o que se passou? - ele riu- se e respondeu:
- Bem, foi realmente invulgar. Ia para casa, e quando passei por debaixo de um viaduto ali
em Benfica, um tipo que ia a passar por cima, despistou-se e caiu com o carro em cima do meu. Isto contaram-me depois, claro, que eu só senti o impacto, nao me lembro de mais nada. O meu carro ficou parecia uma bolacha e eu, com umas quantas fracturas. Os médicos dizem que foi um milagre ter sobrevivido.
- Acredito. Mas que coisa tão estranha, Zé.
- Pois foi. Mas no meio daquilo tudo houve uma coisa gira - disse-me ele a rir.
Coisa gira? Num acidente com aquela gravidade? Estranhei mas como já lhe conhecia as
originalidades, fiquei a espera do que ali viria.
- Sabes? já me caíram alguns homens em cima, mas enlatado foi o primeiro!

terça-feira, 20 de março de 2012

Night' Music (4)

Otis Redding - Sittin' on the dock of the bay

As virtudes da Isometria

O episódio que hoje relato e o seu desenlace, pode transmitir a ideia de que sou um individuo rancoroso ou vingativo.
Nada mais errado. Sou complacente, perdoo com muita facilidade, relevo até por vezes o que não devia. Há mesmo agravos que esqueço ou tento esquecer, mas como se sabe, e não se sofrendo de uma doença degenerativa, a nossa memória parece um buraco que não conseguimos nunca tapar por completo. E de vez em quando, lá vêm episódios que pensávamos definitiuvamente enterrados ao de cima.
O Abílio é um tipo com alguma piada e diverte-se muito a deixar os outros em situações embaraçosas. Umas vezes a coisa até sai divertida, outras nem por isso. Eu já fui vítima algumas vezes, mas como não sou tapado de todo, de vez em quando sinto-as vir e safo-me.
Bom, mas aqui há dias, estava eu no 33, o café da esquina a beber uma bica e a ler um livro, e ele chega e senta-se à minha mesa e diz:
- Ando a querer preparar-me para o verão, p'rás garinas, tás a ver? Fui saber os preços do ginásio, àquele, sabes? o não sei quê Place, ali das Amoreiras e aquilo é caro cumó caraças.
- Holmes.
- O quê?
- Holmes!
- Estás outra vez a ler o Sherlock?
- Não, pá. Holmes! Holmes Place, é como aquilo se chama. O ginásio, porra!
- Ah! Ou isso.
Ora eu tinha lido recentemente um livro do Bill Bryson (um dos meus escritores favoritos) em que ele mencionava a Isometria, referindo que o conceito da mesma é "a utilização de um objecto imóvel, como uma parede ou uma árvore, por exemplo, contra o qual exercemos toda a nossa força, em várias posições, para tonificar e fortalecer diferentes grupos de músculos". Por acaso, a Isometria não é só isso. Trata-se de uum termo também usado em Geometria e na Axonometria, mas essas vertentes para aqui não interessam nada. Lembrei-me disso e disse-lhe:
- Porque não experimentas a Isometria? Saía-te de borla.
- O que é isso? - lá lhe expliquei o conceito, e ele, depois de pensar um bocado, respondeu:
- Pá, pode ser uma boa ideia. Os gajos da câmara há uns tempos meteram umas máquinas de ginástica ali no Jardim da Estrela, e eu podia fazer todos os dias um bocado daquilo tudo e praticar essa coisa de que falas. Não tens lá uns alteres que me emprestes, para também fazer uns pesos?
Tinha e emprestei-lhos. No dia seguinte, aparece-me de fato de treino verde alface e uns ténis roxos fluorescentes, tão fluorescentes que aquilo até encadeava.
- Fui ontem à feira de Carcavelos! Vou agora para o Jardim! Estou bem, não estou?
- Estás! Maravilha! Vais fazer um vistão.
E lá foi. Ao que parece, todas as manhãs vai fazer os seus exercícios, porque no sábado passado, impante no seu fato de treino verde alface e nos seus ténis fluorescentes, disse-me:
- Já me sinto outro. Os teus alteres têm feito maravilhas. Estou cá com uns biceps! - admirei-me porque os alteres só têm 5 kilos cada um, mas enfim. - E os exercício são porreiros. Aqueles da Iso dão mesmo resultado. Vou agora para o jardim. Porque é que não vens comigo?
A princípio recusei, mas o Abílio é muito insistente, e como não tinha grande coisa para fazer e tinha alguma curiosidade em assistir a uma sessão da ginástica dele, lá fui.
Chegados, já lá estavam umas pessoas, a maior parte de idade avançada, a fazer os seus exercícios. Fila para um aparelho, fila para o outro, sai um, entra outro, tudo muito ordenado e sem atropelos. O Abílio viu que todos os aparelhos estavam tomados e decidiu-se: "Vou começar pela Isoqualquercoisa". Eu assenti, e vi-o a encostar-se a uma árvore larga mesmo ao lado do aparelho de pedalar, e encostou-se a ela com as mãos, fazendo força e flectindo ao mesmo tempo. Eu estava impressionado com o seu esforço.
Lá foi fazendo mais uns exercícios, até que me disse:
- Agora, vamos às pernas! - notei que ele estava orgulhoso de si próprio, e não era caso para mesmo, porque até já se tinham juntado meia dúzia de adeptos da ginástica para o observar
Deitou-se no chão, encostou o rabo à base da árvore, e fincou os pés a meio do tronco, e começou a fazer força com ambas as partes da anatomia, até ficar vermelho. E até que soou um ruído tonitruante e familiar que o paralisou. Vi o sangue afluir-lhe á cara. De vergonha, claro. Como é claro que eu podia disfarçar, fazer de conta que não acontecera nada. Mas vi aquelas pessoas a olhar para ele, umas com ar de dúvida, outras já com uma certa censura estampada nas faces, e lembrei-me de algumas das vergonhas que ele já me fizera passar. E não hesitei:
- Tens a certeza esse exercício é apropriado para os músculos das pernas. É que até agora, a única coisa que deu sinal de estar a ser exercitada foram os intestinos!
O resto, vocês podem imaginar: a vergonha, a fuga...

P.S.- E o cheiro, meu Deus, e o cheiro!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Night' Music (3)

Neil Young - After The Gold Rush

Isto é para verem que não é aldrabice....

...e que realmente passeio a cadela, e assisto aos episódios que descrevo. Eis pois a minha companhia (e testemunha) nas deambulações pelo bairro

Aqui, a passear comigo (prova documental, portanto)

E aqui, já neste fim de semana, depois de vir da tosquia. A mariquice na cabeça não foi ideia minha, ok?


Vic

Idiossincrasias

Uma das minhas características mais notadas é ser bastante distraído. Acontece-me frequentemente passar por vizinhos e não os cumprimentar. Então se vou passear a minha cadela e de auriculares, é fatal que vai haver alguém a dirigir-se a mim e não receber resposta. Mas neste caso até se trata de um misto de distração/atenção. Estranho? Nem por isso. Eu explico: é verdade que o uso dos auriculares agudiza a minha proverbial distração. Mas também é verdade que vou bem atento ao chão que piso, uma vez que a zona onde moro está mais minada com trampa de cão que a zona de guerra mais perigosa do Afeganistão.
Esta idiossincrasia custou-me alguns puxões de orelhas das pessoas mais chegadas, que me chamavam repetidamente a atenção: que a minha distração passa por falta de educação, e assim. Vocês percebem.
Até que há uns tempos decidi levar em conta o que eles me diziam. E fui mais longe. Para provar que andava atento, fui tomando nota das coisas estranhas com que me deparava nas minhas voltas. Arranjei um pequeno moleskine com um lápis encaixado de lado e zás: qualquer facto insólito, tomava nota.
Quando considerei ter já anotado um razoável número de peculiaridades alheias, decidi publicitar alguns dos factos testemunhados, e que me tinham despertado mais curiosidade - por insólitos - num dia em que se tinha juntado cá em casa alguma da família mais chegada.
- Ouçam só: esta semana, na esplanada da Tentadora, vi pelo menos dois tipos a usar meias diferentes. Um quase que passava: uma das meias era preta a outra, azul clara. Mas no outro caso, uma era cinzenta e a outra de fantasia. Agora interrogo-me: estes tipos são mais distraídos que eu, desmazelados ou acham mesmo que usar meias desirmanadas lhes empresta um pouco de nonchalance? Na mesma categoria, encontrei uma velhota com duas pantufas diferentes e um tipo a passear de pijama e roupão em pleno dia, e numa das ruas mais movimentadas do bairro.
Seguinte: a filha da vizinha do 47, sabem quem é? Aquela baixinha e morena que trabalha no Colombo e anda sempre com umas saias muito justas? Não a via aí desde o princípio de Dezembro, altura em que mal se lhe notava peito e revi-a na semana passada. Pois bem, em três meses, a medida do soutien dela aumentou pelo menos 4 tamanhos! Deve ter sido prenda do Menino Jesus!
Mas há mais. Aquela fuinha que mora na esquina do 61, que vai todos os dias à igreja ajudar o padre, que se gaba de comungar diariamente (e ser uma "mulher muito séria, e não uma doidivanas como umas e outras") e anda sempre a cortar na casaca de toda a gente, vive sozinha desde que lhe morreu o marido há 2 anos, não é? Pois há mais de 2 meses que todas as semanas tem 3 ou 4 pares de cuecas de homem penduradas para secar, juntamente com a roupa dela. E só por curiosidade, coincidentemente, ela deixou de usar aquelas cuecas de gola alta. Agora são todas da Women’ Secret.
- Opá, mas tu agora deste em reparar nessas coisas? Isso é quase invasão de privacidade! – diz-me a Augusta, a minha prima que é advogada
- Claro. Vocês andavam-me sempre a chatear por causa de eu andar distraído na rua, e agora criticam por andar atento? È que ainda por cima, há coisas que não dá para ignorar. Como por exemplo o que se passou com a fanchona loura do 164 1º esquerdo.
- Que foi? - perguntou a Augusta.
- Bem a nossa rua é como vocês sabem. Aqui nesta parte de cima, então, uma pessoa parece que vai a subir uma parede, e para baixo, se não metemos travões a fundo, vamos em 5ª velocidade até Santos-o-Velho. Pois eu ia a subir e ela vinha a descer. Eu esbaforido e ela a fazer uma ginástica do caraças para se equilibrar em cima daqueles saltos agulha de 15 cm que ela costuma usar. Às tantas, estava aí a uns 6 ou 7 metros de mim, começa a esbracejar, a esbracejar, parecia que queria levantar voo. E voou:a malinha da Louis Vuitton. E ela ainda se aguentou uns centésimos de segundo em suspenso, mas acabou por também dar um espalhanço de fazer levantar um estádio. Com aquele espalhafato todo, e com a mini saia que ela trazia e que não tinha mais que a largura de um cinto, como é que eu não havia de reparar que ela não só não trazia cuecas, como tinha feito uma depilação à brasileira?

P.S. – Não fiquem preocupados que felizmente, a moça não se aleijou muito (também, com aquele sumptuoso par de nalgas a amortecer a queda - nunca percebi bem porquê, mas de cada vez que a vejo de trás, só me apetece comer uma talhada de melancia - não era de esperar que algum osso fosse molestado). Só umas esfoladelazitas e eu fui muito solícito a ajudá-la a levantar e ela até agradeceu, embora estivesse um pouco combalida e eu não soubesse bem onde estava a meter as mãos. Estava também muito vermelhona, mas deve ter sido da comoção do trambolhão. Espero que não desconfie do que descobri das suas intimidades.

domingo, 18 de março de 2012

Vistos e revistos - Ao domingo, um filme (3)

O Quarto do Filho, de Nanni Moretti


"O Quarto do Filho", relata fielmente aquela que será uma das maiores tragédias que pode atingir uma família: a perda de um filho.
Uma familia comum: pai(protagonizado pelo próprio Nanni), mãe e dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos adolescentes. O pai é um psicanalista que trata dos seus doentes como se de família se tratasse, ela, uma mulher segura e realizada com o seu trabalho, editora de livros, e os dois jovens, absolutamente normais, saudáveis, felizes.
Até que num fim de semana programado para ser "fim de semana de família", o pai é chamado de urgência para atender um doente. A sua dedicação à profissão fá-lo deixar os seus, e o filho, uma vez "o fim de semana de família" adiado, decide ir com amigos fazer mergulho, o seu passatempo favorito. E é durante um dos mergulhos que o rapaz acaba por morrer no mar, devido a uma embolia.
A partir dessa altura, assiste-se ao drama pungente da família, das suas tentativas aparentemente vãs de seguirem com a sua vida, mas com a dor a prevalecer sempre. E assiste-se ao desmoronar emocional de todos e cada um dos membros da família, impotentes para aceitar a fatalidade que naquele dia os atingiu.
É, como disse, um dos mais apaixonantes, ternos, doloridos filmes a que já assisti, de tal forma intenso que aquela dor me tocou como se eu também fizesse parte daquela família.
Classificar de algum modo o filme, parecer-me-ia de todo descabido.

sábado, 17 de março de 2012

Canções da Vida (9) - Leonard Cohen - Dance me to the end of love


Esta nem será nada difícil de ter uma aceitação generalizada. Cohen é um génio da composição, um poeta do outro mundo, embora as suas líricas sejam muitas vezes francamente herméticas ou enigmáticas: Embora com alguns interregnos, a carreira de Cohen, que se iniciou em fins dos anos 60 do século passado, segue fulgurante apesar dos seus mais de 70 anos, e cada novo álbum é uma descoberta.
Esta, é uma canção de amor inolvidável, sem falhas - letra, música, orquestração, coros, e claro, a voz inconfundível do mestre - que faz parte de um dos seus melhores álbuns, Various Positions, de 1985. Vinte sete anos passados, a canção mantem-se imaculada.

Guernica e a dificuldade de responder a perguntas sobre mim

Foi-me passado pela Patrícia do blog O Poder da Ironia o pesado fardo de responder a uma série de 11 perguntas sobre mim, logo eu que pretendo ser o mais anónimo possível. Não sou nada a favor destas coisas, e desta respondo abrindo uma excepção. Fica portanto a indicação: não me mandem mais nenhum, porque não haverá nova excepção, ok?
1- Tens alguma tatuagem? - Não, a não ser que uma cicatriz que me vai desde a parte inferior da mama esquerda até à orelha do mesmo lado possa ser incluída nessa categoria
2- Se pudesses escolher outro planeta para viver, qual escolherias? Porquê? - A Lua. Para me poder sentir sempre leve (apesar de mesmo na Terra o ser.Mas lá ainda seria mais)
3- Qual foi o pior comentário que já ouviste/leste sobre ti? - Não sei. Essas coisas são o lado para onde durmo melhor.
4- Se te oferecessem um bilhete só de ida, que destino escolherias? - Nenhum, porque é aqui que tenho os meus amores. Mas gostava de viver entre Lisboa e Paris (6 meses em cada lado)
5- Tens algum ídolo/modelo? - Não. Mas há pessoas que admiro, umas mortas: Churchill, Ghandi, Martin Luther King; outras vivas: Nelson Mandela, Michael Jordan, Charlize Theron, Scarlet Johanson e a minha mulher (e mais 4 pessoas não identificáveis).
6- Refere um livro, quadro ou música que tenha marcado um período da tua vida. - Ah! não dá como escolher. Gosto dos livros da Sophia de M. B. Anderson, do Pablo Neruda, do Fernando Pessoa, dos discos dos Beatles, dos Kills, do Frank Zappa, do Damien Rice, do Jeff Buckley,dos filmes do Nanni Moretti. E do Guernica, um quadro ao qual só visto podemos admirar a verdadeira dimensão, tal como toda a obra de Van Gogh. Mas nada disso alguma vez marcou decisivamente a minha vida.
7- Se pudesses mudar alguma coisa no Mundo, o que mudarias? - Não tenho essas pretensões. Se os outros não conseguem...Mas se calhar tentaria acabar com todo o tipo de discriminações
8- Que dia Internacional ou Mundial erradicavas do calendário? Porquê? - Todos. Porque acho que não deveria ser necessário haver dia para isto ou aquilo. Devíamos antes ter uma consciência colectiva positiva.
9- Se pudesses criar um programa para qualquer canal de televisão, que programa seria? - Já criaram: o Herman Enciclopédia
10- Qual é o teu número favorito? Porquê? - Tenho 2: o 1 e o 28. Prefiro não dizer porquê, pode ser?
11- O que gostarias de dizer a alguém e nunca tiveste a oportunidade de dizer? - Não é um lugar comum dizermos que nunca dizemos suficientes vezes: "Amo-te", aos que amamos? Talvez seja isso.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Night' Music (2)



Tindersticks - Another night in

Trabalhos Manuais


Como toda a gente, tenho as minhas simpatias e antipatias naturais. A ver se me faço entender: olha-se para alguém que nos é apresentada, e simpatiza-se ou antipatiza-se com ela na hora. Penso que isso acontece com todos nós, em maior ou menor grau.
Mas há uma classe de tipos que me são particularmente antipáticos. Quem são? Os gajos que têm jeito para trabalhos manuais, aqueles a quem geralmente a família diz sempre que "Ele é muito jeitoso de mãos". Eh pá, jeitosas de mão são as senhoras que fazem muito bem tricot, renda e florzinhas e animais fofinhos com linhas às cores em panos esticados numas pandeiretas. Para o resto, existem os trabalhadores especializados. Aquilo até é um bocado insultuoso para o visado, porque dizer que ele é jeitoso de mãos, é dar a entender que o sujeito é um bocado abichanado! "Ai! sou muito jeitoso de mãos" Oh pá, mas que é isto?
E é por isso que detesto comprar coisas em peças no IKEA. Já sei que me toca a mim tentar montá-lo, e normalmente aquilo acaba mal. Para dar uma ideia da minha perícia, cada vez que vou ao posto de enfermagem aqui da área, o enfermeiro começa a sorrir com ar de safado e pergunta logo:"Então? que dedinho foi desta vez?" Já sabe que estive a tentar a espetar um prego na parede para dependurar um quadro."Ena, a unha ficou em mau estado, como é que você fez isto?" Eu ali, pálido, a esvair-me em sangue, a necessitar de tratamento urgente, e o tipo ainda me pede para lhe descrever o filme?
Mas voltando às invenções suecas do IKEA, a última que me obrigaram a trazer de lá foi um móvel onde pudesse arrumar os cd's que estão espalhados pela casa toda. Estendi as folhas explicativas no chão, e comecei a tentar fazer alguma coisa daquelas peças todas. E rejubilei quando verifiquei que não ia ter que martelar. Entretanto, a minha tia Ermelinda que tinha cá vindo mamar mais um lanchinho á conta do otário, passou e perguntou-me:
- Que é isso?,
Respondi-lhe ao mesmo tempo que tentava encaixar duas peças:
- Vai ser um móvel para cd's"
- Olha, não parece nada! - grande lata a dela.E o pior é que puxou uma cadeira e ficou ali a observar. É claro que pensei logo que ela ia ficar ali a fazer tempo, para também asilar um jantar. E então acelerei aquilo, de que resultou que a chave de parafusos escapasse 3 ou 4 vezes e me esfacelasse as maõs, o que, além das dores, ainda me fez antecipar a cara de gozo do enfermeiro quando eu chegasse ao posto
A muito custo, cheguei à fase de acabamento, e com efeito não parecia nada um móvel de cd's. Bem, lá dei os toques finais e afastei-me um bocadinho para ver o aspecto geral da minha obra e achei que tinha ficado bonita. Cheguei até a sentir uma ponta de orgulho. Nessa altura, a minha tia Ermelinda gritou:
- Mas isso parece é uma sapateira! Mesmo o que eu estava a precisar!
E não é que a velha tinha razão? Caiu-me tudo!
Mas onde é que me teria enganado? Fui verificar as instruções e foi então que reparei que tinha posto a folha 6 no lugar da 4 e a 7 no lugar da 5 e vice-versa.
É o que eu digo: detesto gajos com jeito para trabalhos manuais!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Night' Music (1)



Andrew Bird - A nervous tic motion of the head to the left

Amanhã vou ver Chicago

(o médico garantiu-me que estes comprimidos para a prisão de ventre actuavam em menos de 24 horas)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Um dia peculiar

Ontem foi um dia peculiar.
Levantei-me normalmente, tomei um duche, aprontei-me - uma roupa já mais leve, que, ao que parece, a primavera antecipou a chegada - e fui até ao café aqui da esquina para um pequeno almoço frugal: um café e um pão com manteiga. Ao balcão.
A meu lado, um tipo que não conhecia. Baixo, atarracado, um pouco desleixado e de cabelo oleoso. Sou até um pouco distraído, mas reparei nele pelo tom excessivamente alto com que pediu ao empregado o que queria:"Uma mine e uma sande de presunto, faxavor", de mão direita esticada. A mão era grossa e as unhas roídas, excepto a do dedo mindinho que sobressaía das outras pelo tamanho pouco habitual. Devia estar nervoso, porque enquanto esperava, desatou a roer desatinadamente uma das unhas, enquanto mantinha a esquerda na algibeira.
Até que chegou o pedido, e ele atirou-se á "sande". De repente largou-a, enfiou a mão na parte de trás das calças até atingir o ponto certo (muito íntimo, acrescento eu), começando então a coçar furiosamente. Passadas as comichões, retirou a mão e, calmamente agarrou o resto da sande e devorou-a em três dentadas.
Nessa altura, já não me estava a saber muito bem o pão com manteiga. Mas desisti mesmo quando o homem, ao mesmo tempo que pedia para pagar acenando com uma nota de 5€ na mão esquerda, enfiou a mão direita - sim, a mesma que segurara a "sande" e se coçara nas partes íntimas - na boca, e com aquela unha enorme do dedo mindinho começou a palitar os dentes.


Depois de uma tarde pouco interessante, e pelas 5 da tarde, saí de casa para cumprir o doloroso dever de ir ao funeral da avó do Luís.
Quando cheguei, estava ele encostado a uma parede, auscultadores do mp3 nos ouvidos enquanto que meneava a cabeça cadenciadamente.
Toquei-lhe num braço ao que ele se virou para mim e disse:
- Green Onions!
Abanei-o outra vez até que ele tirou os auscultadores dos ouvidos e inquiriu:
- Que foi, pá?
- Então mas tu estás no funeral da tua avó e com isso ligado?
- Que se lixe! É para ver se isto anima um bocado!
O Luís é um fanático do jazz, especialmente do tradicional. Ao que parece, também curte funerais animados.
Pelos vistos, para ele, New Orleans será o paraíso na terra.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ainda 3 episódios sobre o tema do post de ontem

- O Marcelino é um tipo muito radical. Há uns tempos teve uma discussão com um padre por causa de um lugar de estacionamento:
- O lugar estava vago, e eu meti lá o meu.
- Mas parece que o homem já estava à espera que o outro saísse. Portanto, tinha prioridade.
- Não tinha nada. Ele era mas era um grande tótó a conduzir, e eu desenrasquei-me melhor. Depois começou a mandar vir comigo em voz baixa. A chamar-me "Meu filho" e a dizer que eu tinha cometido um pecado. Eu dou-lhe o pecado. Armado em anjinho! Sabes o que vou fazer? Escrever um panfleto a deitá-los abaixo?
- A quem?
- Aos padres, claro. E às balelas que impingem. E já sei como lhe vou chamar: "Textículos Satânicos". Podia-se chamar Versículos Satânicos, mas não tenho queda para a poesia.
- Além de que poderias ser acusado de plágio, claro.
*****

2 - A minha vizinha do 2º andar é brasileira, chama-se Florzinha, e é casada com o Douglão. A mulher deve ser muito religiosa, porque todos os dias das 11 à meia-noite, passa o tempo a rezar e a dizer em voz muito alta: "Meu Deus, ai Meu Deus", "Meu Deus, ai Meu Deus", e de vez em quando "Deus é grande", embora a entoação pareça ser "Deus, é grande". Não sei que religião é a dela, os brasileiros têm a IURD e mais umas quantas igrejas diferentes, sei é que as rezas são acompanhadas de uns barulhos estranhos. Deve ser do género dos arekrishna com as campainhas.
Sei é que a religião a deve preencher plenamente, porque ela anda sempre com um ar muito feliz.
*****




3 - O Marcelino - outra vez ele - foi à Foz do Arelho no fim de semana, e trouxe-me uma recordação das Caldas: um Frade que pôs em cima da minha televisão da sala. Não percebi a ideia, a decoração da minha casa não é naif, nem tem nada de folclórica. Enfim, ideias do Marcelino.
Ainda tenho que ver para que serve o raio do fio que sai debaixo do pedestal do frade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Deus me livre de acreditar em ti, Deus

A minha relação com a fé, assemelha-se muito à luz de um farol: ora se vê, ora não se vê. Ao caso, ora existe, ora não existe.
Por exemplo: às 3ªs e 6ºas, dias em que anda a tômbola do Euromilhões, eu sou um devoto cheio de fezada. Já nos outros dias, tenho muitas dúvidas, sendo que ao sábado e à quarta, sou mesmo um descrente absoluto.
É como os pasteis de massa tenra da minha tia Etelvina: umas vezes são fofos e saborosos, outras, saiem encarquilhados e duros e se atirados à cabeça de alguém, partem-na de certeza.
Desde já, uma declaração de intenções: uso o nome "Deus" por uma questão de comodidade - até porque a maioria dos portugueses são cristãos - e de modo algum desejo melindrar devotos de outras religiões, pelo que, onde se lê essa palavra, qualquer um é livre de a substituir por Allah, ou Jeova, ou Buda ou o que quiserem.
Dito isto: naturalmente fui desde novo instruido nesta religião por uma questão de tradição, e porque a chibata com que a minha madrinha - beata de todas as horas - zurzia todos os que fossem contra as suas crenças, era bastante convincente. E comecei a frequentar a catequese aos 6 anos, onde uma senhora anafada e de buço me ensaiava e a mais uns 4 ou 5 para a 1ª comunhão. Esta senhora, também tinha uma chibata.
Mas passados uns tempos, teria eu uns 7 anos, a fé em algo de transcendente que me pretendiam incutir, sofreu um rude golpe: descobri que o Pai Natal era o meu pai. Ora eu sempre me convencera que o Pai Natal era um reformado que arranjara um biscate como moço de recados do Menino Jesus, que lhe fornecia umas roupas patuscas, um trenó com renas, e uns sacos com brinquedos e doces para distribuir pelos meninos.
Afinal, o Menino Jesus era um explorador dos oprimidos, neste caso, do meu pai que, coitado, já tinha 2 empregos e não precisava de mais um part-time não remunerado. Para cúmulo, descobri que era da algibeira do meu pai que saía o dinheiro dispendido na compra dos presentes que me apareciam no sapatinho, o que fazia do Menino Jesus um capitalista sem escrúpulos. Esse foi o primeiro dia em que pensei em mudar de religião, mas quando a minha mãe me disse que nas outras religiões não havia Natal e, consequentemente prendas, tive que relevar aquela aldrabice. Além disso, a minha madrinha ainda manuseava bem a chibata.
Ainda fiz a 1ª comunhão, felizmente sem o fatinho branco - o meu pai, que nunca foi muito de religiosidades, disse logo que comunhão ainda vá lá, mas não queria panasquices - e depois de uma confissão em que omiti umas quantas coisas. Entretanto o meu padrinho reformou-se e a minha madrinha foi para a terra com ele, pelo que me afastei um pouco da religião.
No liceu, porém, a ruptura foi definitiva no dia em que o meu professor de Religião e Moral, me marcou uma falta de castigo só porque adormeci naquela parte em que ele contava a aldrabice do Mar Vermelho se abrir ao meio. Foi então que decidi ser ateu. Até por uma questão de estatuto.
Como referi, quando apareceu o Euromilhões - aquando do totoloto, já a coisa tremelicara - passei de ateu a agnóstico, mesmo com tendência para optar por uma religião. Só que a coisa é difícil: gosto dos sapatos do Papa, o que é um ponto a favor da religião católica. Mas ao mesmo tempo, nunca esperei que os padres, especialmente os irlandeses. levassem até tão à letra a tirada atribuida a Jesus "deixai vir a mim as criancinhas". Mas também gosto de ver os fatos do Amid Karzai e a perspetiva de vir a ter várias mulheres, o que me faz vacilar. Porém, e para complicar, gosto da cor laranja, cânticos e campainhas, pelo que não digo não a me tornar arekrishna, embora me sinta um bocado desconfortável com a salada à solta. Portanto, lá está, encontro-me em mais um dilema.
Mas é só decidir um caminho, porque ontem reflecti e cheguei à conclusão que tem que ter havido alguém superior a criar-nos. Não sou um evolucionista - o Toni Ramos não é o bastante para me convenvcer que descendemos dos macacos - e só preciso de uma luz, até porque a perspectiva de arder no inferno não é nada agradável. Tenho que me render à mente superior de um deus qualquer. Um deus que em tudo pensou. Até nas orelhas. Claro nos podia ter criado com dois pequenos orifícios, um de cada lado da cabeça, mas depois onde é nós pendurávamos os óculos?
É preciso ter vistas largas


*- A imagem que escolhi hoje é um tanto ou quanto efeminada, não é?

domingo, 11 de março de 2012

Vistos e revistos - Ao domingo, um filme (2)

High Fidelity, de Stephen Frears

Este filme de Stephen Frears e baseado no livro homónimo de Nick Hornby, proporcionou-me um prazer quase juvenil quando o vi pela primeira vez. Talvez porque o protagonista - interpretado pelo John Cusack, actor pelo qual nutro especial estima - tenha o emprego de sonho que eu nunca tive. Bom, não será bem um emprego: Rob é um melómano especializado em rock, dono de uma discoteca "Championship Vinyl", à beira da falência, e que tem ao seu serviço outros dois loucos por rock, Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black).
O conhecimento enciclopédico sobre rock que Rob e os seus parceiros detêm é impressionante, e o seu primeiro passatempo é elaborar playlists e top-fives, vendendo de vez em quando, um ou outro disco, até porque qualquer deles encara a ignorância musical de muitos dos seus potenciais clientes, com um gozo e sobranceria quase inacreditável, e tentando sempre guiá-los de forma a pô~los no "caminho certo".
Tal como a sua inabilidade para gerir o negócio, também a vida amorosa de Rob decorre desastradamente, sucedendo-se os fiascos até ao caso presente, periclitante, com Laura(Iben Hjejle), que ele tenta a todo o custo que não acabe como os anteriores. É então que Rob decide fazer uma retrospectiva da sua vida amorosa e um top-five dos seus desaires sentimentais. Curiosamente, até aí ele estabelece paralelo entre os seus casos e eventos musicais.
O filme é divertidíssimo, tem um cast que inclui além dos citados, Catherina Zeta-Jones e Tim Robbins, e tem uma banda sonora espectacular, que vai de Tommy James (Crimson and Clover) aos Queen (We are the champions), passando por Peter Frampton (Baby, I love your way).
Sem dúvida um dos meus filmes cinco estrelas.

sábado, 10 de março de 2012

Canções da Vida (8) - The Walker Brothers - The sun ain't gonna shine anymore



The Walker Brothers - The sun ain't gonna shine anymore(1966)

Quem goste de música popular - especialmente da de língua inglesa - e se dê ao trabalho de querer saber o que afinal se passou na tão cantada década dos Beatles, os 60's, irá verificar que os Walker Brothers são, a par de P.J. Proby, casos especiais: enquanto as grandes bandas inglesas tomavam de assalto o enorme (e de difícil penetração) mercado norte-americano, dando origem à chamada British Invasion, eles fizeram o percurso inverso, emigrando dos EUA para a swinging London, onde acabariam por ter um sucesso assinalável, embora de não muito longa duração (de 1965 a 1967 tiveram várias canções no top inglês, separando-se logo a seguir)
Adiante-se que o grupo, um trio, não era realmente constituido por irmãos e curiosamente, nenhum deles tinha o sobrenome de Walker. Tratou-se, portanto, que uma questão de marketing.
Quando da separação, e inevitavelmente, a grande voz do grupo, Scott Engel, foi dos três o único a ter sucesso a solo, embora o seu low-profile - evitava até estar em eventos onde as suas obras constavam das candidatas a prémios - não lhe tivesse proporcionado a projecção que a sua qualidade merecia.
Não me vou estender muito em pormenores - na net encontra-se informação de sobejo sobre Scott Walker (ele manteve o sobrenome na sua carreira a solo) ou mesmo sobre os Brothers - mas diria que a sua classe como cantor, o bom gosto que sempre demonstrou na escolha meticulosa dos temas que aceitou cantar, permitiram-lhe o assentimento de Jacques Brel para que editasse um álbum, "Scott sings Brel", com temas do grande autor belga transpostos para inglês pelo próprio Scott. Foi aliás a qualidade das versões que levou Brel a aquiescer.
Fica aqui também, uma amostra da qualidade desse álbum:

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dilema

Hoje estou num impasse. Ou melhor, num dilema.
Uma das coisas que exige mais da minha concentração e atenção é a escolha de sapatos. Aliás, parece que isso já tinha ficado claro aqui no blog. Que me perdoem as senhoras (seguindo o decretado agora em França, proibo-me mencionar as raparigas - ou moças - não vá ferir susceptibilidades), mas essa preocupação não pode ser só exclusiva delas.
Nem qualquer sapato me serve, sou esquisito, e dou sempre importância, quer à estética, quer a qualidade do sapato a comprar.
Pois bem - e agora cá vai então o dilema - estou na fase de escolher sapatos e depois de muito procurar, surgiram-me os dois pares seguintes:


Os 1ºs são uns loafers de Louboutin (pois é, minhas senhoras, o Louboutin já não desenha sapatinhos de sola vermelha só para vós)
Os 2ºs são uns brogues (escuso-me de enunciar a marca, está bem à vista)
E agora, estou na dúvida sobre que par irá melhor com o meu tom de pele (caucasiano, cabelo castanho claro, embora já a tender para o acinzentado)

Any suggestions? Please?

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dos amores de verão, Dos aromas do campo à Madeleine, com poesia presente

Vinham-me ás narinas cheiros mesclados, do tojo, do pó molhado pela ligeira poalha que tinha caído há menos de uma hora, até odores cítricos de um laranjal por colher, mesmo ali ao lado.
Mas era sobretudo o cheiro do seu pescoço, o habitual odor a alfazema de lavado de fresco, que se impregnava em mim quase com a força de um vício.
Tinha uma quase veneração por aquele cheiro. Por aquele e por outros dois, o dela tão característico, de fêmea e o dos dois, do amor acabado de fazer. Sempre pensei que se pudesse guardar aquelas fragrâncias juntas num pequeno frasco, este não mais me abandonaria e seria o aroma perfeito.
Abri os olhos e olhei-a. Estávamos deitados num pequeno relvado que se tinha formado naturalmente por baixo de um salgueiro cujas ramagens densas quase roçavam o chão, mesmo junto ao ribeiro, de que ouvíamos o rumorejar, o saltitar irrequieto de fraga em fraga. Tinhamo-nos ali recolhido do chuvisco e não resistíramos à ocasião. Eu hesitara, mas ela cantou-me Brassens:"Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants, Ne crois pas au cimetière, Il faut nous aimer avant, Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants. Tu sors pas du monastère, Moi, je sors pas du couvent". A verdade, é que eu estava ansioso por me deixar convencer.
Ela tinha os olhos fechados e estava virada para mim, o braço direito passava-me pelo peito e massajava-me suavemente o lóbulo da orelha, friccionando-o suavemente entre o polegar e o indicador, deixando-me arrepiado. Sentia o morno da sua coxa morena deitada em ãngulo recto sobre as minhas pernas. Não resisti a uma carícia e senti na ponta dos dedos aquela penugem incipiente que lhe emergia da pele fina. Abriu os olhos, aqueles olhos que pareciam sempre espantar-se com o mundo, e sorriu. Nunca a tinha visto sorrir assim. Nunca mais esqueceria aquele sorriso.
- Já sentiste este cheiro, Marília? Não sentes a sua falta em Paris?
- Vou todos os dias a pé de Montmartre até à Madeleine só para sentir o cheiro das flores no ar. Quando posso, vou aos Jardins do Luxembourg. Mas não é a mesma coisa, disse com uma voz quase triste. Vou ser eternamente rústica
.
Tinha mudado muito. Pouco ultrapassara a instrução básica, mas era uma auto-didacta e tinha conversas surpreendentes.
- Gostas de poesia? perguntou - Na verdade, na altura era pouco dado a lirismos, estava vocacionado para interesses mais mundanos.- Lá, num café ao pé da casa onde moro, às 2ªs feiras lê-se poesia. É uma coisa fora do vulgar. Sinto-me diferente, livre, quando os ouço.-
- É isso que te dá o sentido de liberdade de que agora dás mostras? Ou é a vida de lá que é menos convencional?

- É tudo isso. Também não conheces a musiquinha do Brassens em que ele conta a história da menina que vai tomar banho à nascente, e à qual o vento atira a roupa para longe, e que então, à vista do homem que a observa, se faz muito envergonhada? Não? Depois acaba assim:"Le jeu dut plaire à l'ingénue, Car, à la fontaine souvent, Ell' s'alla baigner toute nue, En priant Dieu qu'il fit du vent, Qu'il fit du vent..." E riu-se. Com aquele riso descarado e cristalino, inconfundível, que me deixava rendido.
- Sabes? já não és tão desajeitado. Ao princípio eras mesmo principiante nestas coisas.- E voltou a rir-se. Corei, envergonhado.- O mal das pessoas é a hipocrisia com que encaram coisas simples da vida, como o amor e o sexo. Eu nunca o farei, o meu sentido de liberdade como lhe chamas, é assim que se expressa.
- Adoro-te
- creio que foi a primeira vez que disse tal coisa a alguém.- Vou-te adorar sempre.
- Avec le temps...avec le temps, va, tout s'en va, on oublie le visage et l'on oublie la voix, le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien. Avec le temps on n'aime plus. É do Ferré. Nunca te esqueças do que ele diz.

Mas eu esqueci. Ou quis esquecer. Nunca quis acreditar que não pudesse haver amores eternos.
É verdade que com o tempo, com a distância cavada entre nós, deixei que aquele sentimento tão forte por Marília se fosse esbatendo. Foi-se transformando num imenso carinho, numa recordação extraordinariamente bela. Ficaram-me episódios, gravados fundo na minha alma, todos ternos, excepto o da partida. Mas desse não vou falar agora.

Agora só falo daquela tarde que acabou em versos ditos de cor, misturados com beijos molhados e ávidos, como ávido era o nosso desejo adolescente, que nos fazia suar, pele com pele, quase violentamente, como se nos quiséssemos fundir um no outro.
Acabou com a roupa amarrotada e suja pelo amor ansioso e, na chegada a casa, com justificações adoidadas para o desatino.
Acabou com o cheiro dela a tomar conta de mim de maneira tão intensa que nessa noite, apesar de não estar nada asseado, disse não ao banho, só para ter o consolo de a ter mais um pouco comigo, de poder assim dormir com ela.

P.S.- Há aromas persistentes. Os daquele dia duraram anos...


quarta-feira, 7 de março de 2012

O Mar de Sophia


O que mais admiro nos poetas, é a sua capacidade de, com poucas palavras, conseguirem dizer mais do que eu diria num extenso texto

Mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua


(Sophia de Mello Breyner Andersen)

terça-feira, 6 de março de 2012

Da problemática da roupa íntima aos pequenos dramas familiares

Sobretudo nos últimos 2 séculos, a roupa interior tem ganho importância primordial na indumentária quer feminina, quer masculina.
Em relação á mulher e durante os séculos anteriores, a roupa íntima resumia-se aos inestéticos culotes até ao joelho e aos tenebrosos espartilhos, que definiam a cintura de vespa e causavam graves problemas de saúde. Os homens, desconheço que usassem qualquer tipo de roupa com essa função até ao século XIX, quando passaram, também eles a usar cuecas até ao joelho (mais tarde conhecidas como boxers), ou ceroulas.
No século XX houve uma grande evolução, as cuecas de ambos os sexos foram diminuindo de tamanho - embora em relação aos homens, os boxers tenham mantido uma razoável cota de mercado - e no caso da mulher, o espartilho foi sendo substituído pelo soutien, uma peça que tem também ela diminuído e apertado (no caso do wonder-bra) os seios de forma a oferecer à mulher uma figura mais sensual.
Penso que acima de tudo, a roupa íntima deve ser o mais cómoda possível. Todos os homens sabem as terríveis dores de cabeça que umas cuecas demasiado apertadas podem causar, pelo que prefiro os boxers. Já as mulheres parece terem-se rendido ao fio dental.
Vem isto a propósito da autêntica guerra de marcas (principalmente de lingerie feminina) a que tenho assistido na televisão, com spots publicitários que são por si só, pequenos filmes eróticos. Vejam os spots da Intimissimi ou da Calzedonia e verifiquem se não é verdade.
Um pormenor que acho curioso nesta interessante problemática da lingerie feminina, é o facto de as mulheres muitas vezes as escolherem cuidadosamente com o fito de aparecerem mais sensuais aos olhos do parceiro, sabendo de antemão que, quanto mais sensuais parecerem, menos tempo ficarão com a lingerie vestida e muitas vezes sujeita a sofrer danos irreparáveis.
A lingerie é, na verdade, muito importante. Muitas vezes, a chave de pequenos dramas domésticos, como o de um amigo meu, sempre muito divertido, e que há uns tempos atrás foi aparecendo macambúzio, cabisbaixo, durante alguns dias. Até que não resisti a perguntar-lhe o que se passava, e a muito custo lá me revelou que andava angustiado, porque suspeitava que a mulher o traía. Inquiri sobre os motivos que o levavam a pensar tal, e ele foi dizendo que de há 2 ou 3 meses a essa parte, quando iam para a cama, ela alegava sempre dores de cabeça ou que estava muito cansada. “é normal, é a desculpa recorrente quando não querem nada connosco nesse dia, mas 3 meses seguidos, todos os dias?”; parece que um dia quando achou que aquilo já era demais, meteu um dia de férias no trabalho, mas de manhã saiu de casa como todos os dias e ficou à esquina a ver o que a mulher iria fazer; teve que aguentar até às 2 da tarde, que foi quando ela saiu; seguiu-a discretamente até ao Marquês de Pombal, onde a viu encontrar-se com um tipo que ele não conhecia, a quem ela beijou na boca, o que - disse ele - lhe pareceu um bocado abusivo; seguiu-os até eles entrarem numa pensão ali ao Conde Redondo; chegado à porta, ouviu-os pedir um quarto; pagaram e seguiram; foi aí que ele avançou e falou com o homem que estava ao pequeno balcão, e lhe perguntou para que quarto eles tinham ido, informação que só lhe foi dada a troco de uma nota de 20 euros; sorrateiramente, chegou-se à porta do quarto visado, e espreitou pelo buraco da fechadura; disse ele que o par se despia apressadamente, ao mesmo tempo que ia trocando beijos demasiado efusivos - na óptica dele, mais uma vez - até que o insólito aconteceu: a mulher despiu as cuecas - pretas e rendadas - e atirou-as pelo ar, direitas à porta, ficando inopinadamente penduradas no que ele supôs ser a maçaneta e tapando assim o buraco da fechadura, e, consequentemente, a visão. E terminou a descrição com: “e agora, aqui estou eu nesta incerteza”.
Assim se prova a importâcia de um mero par de cuecas que conseguiu impedir que o azarado homem se cetificasse da infidelidade da mulher

segunda-feira, 5 de março de 2012

Canções da Vida (7) - Tom Waits - Christmas card from a hooker in Minneapolis


Tom Waits é uma lenda e a sua obra esmagadora. À primeira vista, a quem gosta da sua música, seria dificílimo de escolher uma preferida. No entanto, esta canção emocionou-me desde a primeira vez que a ouvi. Pensei que não seria possível a alguém tão "duro" como Waits escrever algo tão lírico, tão pungente. A canção - quase dita por Tom, pouco cantada - é um apelo lancinante escrito por uma mulher que atingiu o último degrau da decadência. Um retrato, ao mesmo tempo terno e cruel da América profunda, proibida.
A canção faz parte do álbum "Blue Valentine", de 1978, que inclui, entre outras, a magnífica "Romeo is bleeding" ou uma versão muito peculiar de "Somewhere"*.

*"Somewhere" faz parte do libreto da ópera "Porgy and Bess", Gershwin e Heyward

domingo, 4 de março de 2012

A treta dos sonhos

Se há coisa de que não gosto é de sonhar. Pode parecer estranho, poderia dizer que detesto pesadelos. Mas não, não gosto de sonhar tout court.
A minha filosofia de vida passa por pretender que cada coisa esteja no seu devido lugar - infelizmente trata-se somente de uma boutade, uma vez que sou desarrumado por natureza, até nos pensamentos - pelo que, quando me enfio na cama o meu desejo é dormir as 8 horinhas sem qualquer tipo de interrupção, seja para atender telemóvel - religiosamente desligado antes de me deitar - seja para o aperto de bexiga das 6 da manhã. Portanto, muito menos aprecio uns tipos que me entram pelo sono dentro sem serem convidados, qualquer que seja o motivo ou objectivo. E se os pesadelos são fáceis de justificar - não é agradável cair de um sítio alto e muito menos desembarcar numa ilha de canibais e passar a noite a fugir á frente deles - os sonhos não são melhores. A mijadela das 6 só acontece ou por me ter descuidado na quantidade de líquidos ingerido antes de deitar, ou, sabe-se lá, porque a próstata quer avisar que a idade não perdoa (e o que eu gosto de frases feitas). Qualquer que seja o motivo, é natural e no 1º caso, ate se me podem assacar culpas.
Agora sonhos? Não me interessa nada sonhar com os números do Euromilhões, até porque de manhã não me lembro deles e acabo por ficar lixado comigo mesmo, e se me lembrasse, com a sorte que eu tenho, eram os números da semana anterior. Muito menos quero ter daqueles sonos que dão origem às tão faladas poluções nocturnas - felizmente que estas com a idade vão rareando - e a outras situações embaraçosas. É por isso que evito ver filmes mais sugestivos a partir das 9 da noite.
E sei do que falo: é que ainda há dias, como o sono tardava, caí na tentação de, já na cama, sintonizar a televisão no AXN Black. Estava a começar um episódio de uma série australiana, “Satisfaction”, que fala do ofício e relações - em sentido lato - de quatro ou cinco prostitutas de um bordel de luxo. Ali pelo meio meteram-se umas cenas mais ousadas, como era de esperar, e como também era de esperar, o sono, além de demorar ainda mais, foi agitado. E o acordar não foi melhor. Às oito da manhã, ainda naquele meio dormido, meio acordado, dei 2 ou 3 voltas na cama, apalpei à direita e à esquerda e nada.
Foi mesmo uma noite da treta e razão tenho eu em detestar sonhos.

É que é uma chatice um tipo acordar de tenda armada, e depois não ter ninguém que o ajude a desarmá-la.

Vistos e revistos - Ao domingo, um filme (I)

Posso dizer que nasci e fui criado (literalmente) num cinema. Daqueles à antiga, que exibiam filmes em reposição. Cadeiras pouco confortáveis, sem ar condicionado… Até determinada altura da minha vida, fui um consumidor desregrado: tudo o que aparecia eu via, fossem pretendentes a óscares ou filmes de 3ª categoria. E nunca saí a meio de um filme. Mesmo nas férias de Verão nas beiras, não perdia um serão de 2ª feira no salão de festas da aldeia, onde o sr. Abílio, um amante de cinema e projeccionista á moda antiga, que na sua carcomida Volkswagen pão de forma, percorria as terrinhas das redondezas com a velha projectora e as enormes latas de filmes para que nem daquelas recônditas partes a magia do cinema estivesse ausente, providenciava para que tivéssemos uma soirée diferente.
Talvez por isso, ao contrário do que acontece a muitos cinéfilos a quem é difícil eleger o seu filme de vida, para mim é extremamente fácil: Cinema Paraíso, de mestre Tornatore.
Talvez porque a minha relação de encantamento com o cinema se assemelhe de certo modo à que Totó com ele mantinha. E também porque tive a sorte de ter também eu, um Alfredo na minha vida.
Depois, Alfredo era interpretado por esse génio da representação que era Philippe Noiret e o filme uma pérola rara, sem mácula, retrato de uma sociedade italiana dos anos 40/50 mas que se podia perfeitamente adequar á nossa situação: a censura moralista e castradora, o poder da igreja, a indiferença do "progresso" face às relíquias do passado…
Curiosamente, e depois de décadas de bom cinema que a Itália nos trouxe, após Cinema Paradiso - realizado por Tornatore para simbolizar a “morte” das grandes salas de cinema - o filme transalpino parece ter caído em estagnação, da qual se salvam o supremo Nanni Moretti, os irmãos Taviani ou mais esporadicamente Begnigni, e a Cinecittà após a sua privatização em inícios dos 90s, serve mais o cinema estrangeiro e a televisão, do que propriamente aquilo para que foi criado: o grande cinema italiano.
Eu sei eu é recorrente para os cinéfilos falar-se em Cinema Paradiso. Toda a gente já viu Cinema Paradiso. Mas eu não podia iniciar uma rubrica dominical sobre cinema, sem o invocar pela milésima vez