segunda-feira, 30 de abril de 2012

As notícias do meu desaparecimento foram...

...manifestamente exageradas.
Entretanto, comemorei (comemoraram-me, é mais correcto) mais uma aniversário. E não, não estou de ressaca.

Mais daqui a pouco volto de maneira mais condigna.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Night' Music (16) - Mason Williams/Classical Gas

Mason Williams/Classical Gas



E para quem tem pretensões a algum dia saber tocar guitarra, a versão de Tommy Emmanuel

O Mário e o Clero

O Mário Latas era duro como a serra onde vivia. O que já quer dizer alguma coisa, se acrescentar que se tratava de um garoto como eu.
O Mário Latas era diferente de todos. Só estava com ele durante os meses da torreira, mas não me via a correr pelos caminhos velhos, sem ele ao lado, descalço como sempre. O pai dele não era tão pobre como a maioria, era latoeiro, mas aquilo era parte da sua personalidade, a rebeldia que ardia dentro ele: mal saía de casa, descalçava as sandálias de tiras que a mãe o obrigava a calçar e deixava-as escondidas num canto do alpendre, e voltava a calçá-las quando regressava.
E assim, corria sobre terras ou seixos, ou silvas espinhosas quando queria apanhar as amoras mais negras e grossas, pés nus que pareciam cascos e me faziam inveja. Nunca consegui ter os pés como os do Mário mas corria com ele. E divertia-me. Como naquele dia em que ele quis apalpar as mamas à Marília e ela lhe deu um estalo nas fuças que ecoou pela serra. E o Mário a fugir-lhe e a rir-se com aquela boca cheia de dentes, parecia um burro. Tão grandes, aqueles dentes.
Quando terminou a 4ª classe, tinha já catorze anos. Não era estúpido, mas, dizia, detestava a D. Vina, a professora. E fugia das aulas. Bem podia o pai dar-lhe sovas.
Depois, e debaixo da sotaina do padrinho, o padre Alves, foi para o seminário. Mas o Mário não era animal de jaula. Nunca soube o que verdadeiramente por lá se passou, ele nunca quis contar em nenhuma das poucas vezes que nos encontrámos desde então, mas foi expulso ao fim de dois anos. E vinha com uma raiva aos padres que nunca lhe conhecera antes - até essa altura eram-lhe mais ou menos indiferentes, para desgosto da mãe, uma católica convicta - tanta, que nem o padrinho lhe escapava à sanha.
Contou-me ele que uma vez deu 100$00 a um rapazote para ir entregar um recado ao padre Alves. Nele escrevera a pedir ao vigário que se deslocasse a casa do Zé Moleiro, que vivia a 5 km, porque o homem estava a morrer e queria receber a extrema-unção. Escondeu-se a uma esquina, e mal viu o homem arrancar na sua Famel, esgueirou-se pela sacristia - por sorte não dera de caras com nenhuma das beatas - e foi pela igreja arrombando as caixas de esmolas. Sabia que deviam estar quase vazias, o padre esvaziava-as quase todas as noites, mas era “Para ele saber como é “, disse-me ele. Detectei nas suas palavras uma animosidade que até então me era desconhecida. Curioso para mim, foi que o vigário nunca conseguiu sacar ao miúdo o nome do mandante do recado.
Anos mais tarde, soube que o Mário tinha sido preso, apanhado a roubar um cruzeiro que havia na estrada a 2 km da povoação, e que não devia ter mais que meia dúzia de moedas.
As nossas vidas divergiram muito, e chegou a altura em que deixei de ver o Mário Latas, o seu riso desavergonhado e os pés descalços. Nunca mais roubámos uvas nem ameixas nos quintais de beira de estrada. Não mais voltei à serra e nem ele nunca me explicou do seu anti-clericalismo quase militante.
Mas provavelmente, algumas notícias dos últimos tempos, poderão ajudar a entender alguma coisa, sabendo contudo, o risco que corro de não estar a ser completamente justo no meu juízo.

domingo, 22 de abril de 2012

Não gosto de blogs...

...depressivos.
Não gosto daqueles blogs em que só se lê poesia depressiva, prosa depressiva e só se ouve música depressiva.
Eu gosto do Stuart Staples, mas tudo tem os seus limites e ouço-o de vez em quando. Que diabo, se o ouvisse um dia inteiro seguido, acho que à noite cortava os pulsos.
Não acredito num estado de felicidade competa. Creio que cada um de nós tem os seus momentos felizes, mas a vida não é um mar de rosas, e desculpem lá o lugar comum.
Mas também não me parece que uma pessoa normal (e quero dizer mesmo normal e não normalizada) - a não ser que lhe aconteça uma desgaça enorme e se for esse o caso não vai ter sequer paciência para manter um blog - que por aqui escreva, viva num estado de depressão permanente. Nem consigo entender como se pode viver dessa maneira semanas, meses a fio.
Na minha óptica, este estilo de blog é cultivado, ou por alguém a necessitar de cuidados psicológicos e a querer chamar a si alguma atenção - e creio haver alguns casos desses - ou então trata-se de uma artificialidade, de pessoas que acham, como direi?, muito in manter esse perfil de sofredor, supondo que tal lhe emprestará face a quem as lê, uma aura de intelectual miserabilista.
O que mais me surpreende, é que na maior parte dos casos que se me têm deparado, pelo estilo dos escritos, tratam-se de blogs cujos autores/as pertencem a classes etárias normalmente jovens. Se alguém se sente permanentemente infeliz enquanto jovem, não lhe auguro um futuro muito risonho.
Para mim, blogs das desgraçadinhas/os, nem pó!

Porque hoje é...

...dia da Terra (embora eu não me canse de dizer que esta coisa dos dias...havia de ser todos os dias)


Tom Waits - All The World is Green

Vistos e revistos - Ao fim de semana, um filme (7) - O Leopardo

O Leopardo - Luchino Visconti


Uma frase que quase todos nós já ouvimos, geralmente de forma depreciativa, e em relação à acção de alguns políticos é a de que "tem que se mudar alguma coisa, para tudo ficar na mesma". Alguns não saberão no entanto que a frase é da autoria de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de "Il Gattopardo", obra em que se baseia um dos mais imponentes filmes do século XX.
O filme, realizado em 1963 por Luchino Visconti, relata a uma parte da história do Príncipe de Salina, Don Fabrízio de Corbera (Burt Lancaster), um nobre da Sícilia do século XIX, quando este é apanhado pela guerra que alastra por Itália na perspectiva da implantação e solidificação da democracia, movimento então liderado por Garibaldi. Don Fabrízio vê no movimento uma séria ameaça à sua influencia e poder, mas começa a ter consciência que é impossível travar a revolução. Essa percepção força-o a decidir entre a tradição e o aceitar o declínio da influência da sua família. A frase a que me refiro no início, é proferida pelo príncipe precisamente quando conclui que o melhor a fazer é aceitar a situação, tentando no entanto, que tal provoque o mínimo dano possível no seu stato-quo.
Em paralelo à história de Salina, o filme relata vários outros episódios demonstrativos da decadência moral entre as várias classes sociais italianas.
O filme é pois um extraordinário fresco sobre o Risorgimento, interpretado magistralmente por Burt Lancastre, num dos seus maiores papéis, muito bem secundado por Alain Delon e Cláudia Cardinal.
Uma nota para referir a sumptuosa cena do baile, que quem já viu o filme, jamais
esquecerá.

sábado, 21 de abril de 2012

Night' Music (16) - Yann Tiersen/Comptine d´un autre été: l´après midi

Yann Tiersen/Comptine d´un autre été: l´après midi



Walking the Dog



A vigiar um perigoso felino

E a gozar o merecido descanso

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Night' Music(15)/Travis - Why Does It Always Rain On Me

Travis - Why Does It Always Rain On Me

Boing, Boing, Boing, Boing

Passei outra noite daquelas, de modo que acordei mais tarde e não deu para preparar nenhum post para de manhã
Mas posso só dizer que as coisas aqueceram logo depois do jantar, com um telefonema do Marcelino a perguntar-me se eu queria entrar num negocio de importação de abacaxi descascado. Como é óbvio, tentou engrupir-me dizendo que era um negócio do catano mas eu teria que ser o sócio da massa. O caraças! Acontecia-me o mesmo que com as tshirts "artesanais chinesas pintadas à mão" que debotaram à 1ª lavagem: ele ia sendo linchado pelos vizinhos em fúria, e eu fiquei sem o taco.
E depois, foi a discussão nas escadas. Estava a pegar no sono depois de ter enfiado dois xanax quando ouvi um grande alarido. Levantei-me não fosse um incêndio ou coisa assim, e era a D. Ermelinda do 1º andar uma velhota que deve ter uns 100 anos e consta que guarda dinheiro até debaixo do colchão - entrei na casa dela uma vez por causa de uma rotura num cano, e aquilo parecia um museu, em que a coisa mais nova era mesmo a velha - a mandar vir com a italiana do 3º.
A italiana é vizinha há pouco tempo - ainda nem tive tempo de me pôr bem nela - é cantora lírica e tem uma peitaça daquelas. Até aqui nada de mais. O pior é que ela começou na semana passada a ter aulas de canto domiciliárias. O professor é um tipo pequeno e careca, um bocado seboso, e consta que é o mecenas dela. Não sei se será mais alguma coisa, mas acho que não, aquilo é muita areia para a camioneta dele. Ora o gajo chega, mete- se ao piano e ela começa a fazer vocalizes. Aquilo de janela aberta, claro. Ouve-se em todo o prédio. O pior é quando ela começa a cantar mesmo: os vidros das minhas janelas tremem mais do que quando foi do último tremor de terra.
Parece que a discussão foi originada por um incidente que aconteceu na tarde de ontem: pelos vistos, a italiana - chama-se Federica - exagerou nos agudos e partiu três copos de cristal à D. Ermelinda e ela estava então a querer que a italiana lhos pagasse, e a pedir uma pipa de massa.
Claro que, já que não me deixavam dormir, não resisti a entreabrir a porta, e à cautela, fui assistindo àquilo por uma pequena nesga não fosse ainda tocar-me alguma coisa. As coisas estavam complicadas porque elas não se entendiam, a italiana percebe pouco de português e a velha falava muito depressa. No meio daquilo, o professor de canto - também, não percebo o que fazia ele em casa da Federica àquela hora da noite, de certeza que não lhe estava a massajar as cordas vocais - é que estava a tentar amainar as coisas, mas às tantas estava a ver que a velha ainda lhe enfiava uma bengalada. Mas ele, e já eram para aí umas 3 da manhã, lá lhe conseguiu dizer no meio da algazarra:
- Oh minha senhora, tenha calma. La dona não capisca nada do que a senhora diz. Vamos com calma-
E ela responde:
- Aí não? não capisca nada? Então diga lá você a essa putana que tem que me pagar os miei cristais, se não dou-lhe umas bengaladas pelo toutiço abaixo que ela fica duas semanas sem piar.
Bom, a italiana deve ter percebido alguma coisa do que a velhota disse porque ficou muito vermelha e começou a correr pelas escadas abaixo a dizer: "Putana? Putana, io?" e a querer atirar-se à mulher. Mas o meu olhar estava era hipnotizado pela visão dos peitos dela a saltarem conforme ela ia descendo rapidamente os degraus: pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima, pra baixo, só estava à espera que algum dos marmelos saltasse para fora do roupão. Foi nessa altura que faltou a luz.
Calaram-se as duas e parece que acabou a discussão de repente. Fechei a porta, mas não me saía da cabeça aquela cena dos marmelos a saltitarem e a ameaçarem ter vontade própria e a saltarem cá para fora (sacana do professor de canto, há gajos com sorte). Era uma visão diabólica, fiquei cheio de suores frios e só passados mais de 3 quartos de hora é que os xanax levaram a sua avante.
O problema é que aquilo faz dormir mas não evita os pesadelos!

Wishful Thinking

Ver o PPC à porta do Metro da Pontinha a cantar o "O Sole Mio", com o Vitor Gaspar a acompanhá-lo a serrote

Fruta - Os Marmelos


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Night' Music (14)/ The Sacrifice - Michael Nyman

The Sacrifice - Michael Nyman



Pressentimento

Acho que brevemente, a minha prima Quitéria, terá problemas com a justiça.

(O seu novo namorado chama-se Lelo)

La Lys e os meus genes

Foi há quase 100 anos, mas a minha vida ficou indelevelmente marcada por um dos mais trágicos episódios que afectou as forças armadas portuguesas: a batalha de La Lys. Em poucas horas, durante essa batalha, foi dizimado o designado Corpo Expedicionário Português, o esforço de guerra nacional na 1.ª Guerra Mundial. Estava-se em 1918.
Do CEP fazia parte um homem nascido em Castro Daire chamado Anthero Pereira d'Oliveira e seria, postumamente, meu avô materno. Ao contrário de muitos dos seus companheiros, não pereceu em La Lys mas voltou, diziam, com sequelas deixadas pelo terrível gás mostarda usado pelas tropas alemãs, também por todos os episódios terríveis porque terão passado os sobreviventes do massacre.
Passados 3 anos conheceu uma professora primária também beirã, Cristina d'Almeida, e casaram, união da qual nasceram 2 filhas com diferença de dois anos. A mais nova seria muitos anos mais tarde minha mãe.
No entanto, a eventual felicidade da família duraria pouco. A onda de tuberculose que então varria a Europa levou a minha avó, e tal facto e uma provável desonestidade de um sócio que desfalcou a firma que com ele tinha, fugindo a seguir para o Brasil, levou o viúvo sobrevivente de La Lys ao suicídio, deixando uma filha de 4 anos e outra de 2 abandonadas à sua sorte.
Nunca conheci portanto, o meu avô. Sei de certeza segura da sua estada no CEF e do seu suicídio (deste, porque está comigo a sua certidão de óbito datada de 1927, da qual consta que o motivo da sua morte terá sido uma ferida dilacerante de bala no peito). Sei também que a infância da minha mãe e da minha tia - especialmente a desta - não foi das mais felizes.
Estes são os factos de que tenho certeza. O resto, o sócio, o desgosto pela morte da mulher, o motivo do suicídio, sei-o pelo que me foi contado pela minha mãe. Que na altura da morte do pai tinha 2 anos, e que, portanto, tudo o que me contou ter-lhe-á sido passado por terceiros. Vale o que vale. Empresta uma aura mais trágico-romântica à história, mas não a torna mais verdadeira.
Mas o que quero referir, é que quando comecei a ter algum conhecimento dos factos da vida, receei ter herdado os genes do meu avô. Os genes que levam um homem ao suicídio. Lembro-me de há anos ter lido sobre isso e me ter impressionado. Hereditário, li eu.
Fisicamente, não tenho nada a ver com aquela parte da família, fui buscar tudo ao ramo paterno. Mas o resto...desconfiei durante muito tempo.
Hoje, todos esses medos desapareceram. Sou um tipo comum, sem nada que me recomende especialmente, não sou alto e espadaúdo, bonito, herói de banda desenhada, mas nos últimos tempos a vida pôs-me à prova e lutei por ela. E mais que uma vez. Duramente. Quem me conhece sabe disso.
E essa luta deu-me a certeza que não herdei os genes suicidas do meu avô.
Na minha cabeça, não faz sentido nenhum lutar-se pela vida, para depois acabar voluntariamente com ela.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Crocodile Rocks!

Gatos - Menina ou Menino


What's new, Pussy Cat?

Intermitências da sorte

Breves notas extraídas do meu diário durante a semana passada:
3ª feira - A semana começa bem: ontem à noite ganhámos aos lampiões e hoje vou cravar uma feijoada a casa da Quitéria. A feijoada estava uma categoria. A minha prima tem mão para o tempero.
Boa! Acertei em 3 números e duas estrelas no Euromilhões.
4ª feira - Não devia ter falado tão cêdo do almoço de ontem: ainda não é meio-dia e já tive que ir 4 vezes à casa de banho. Isto é da feijoada da Quitéria. Ou abusei do picante ou ela pôs-lhe alguma coisa que me embrulhou os intestinos. Telefonou a tia Albina. Disse-me que eu estava com uma voz estranha, e eu contei-lhe da feijoada. Ela disse de lá: "Ah! Estás de caganeira? Isso passa." Não sei com que tipo de pessoas é que ela se dá no Centro de Dia para agora ela ter aquela linguagem.
5ª feira - O Marcelino anda-me outra vez a rondar a porta. Não deve ser boa coisa. A vizinha do 161 esta manhã sorriu-me de modo cativante, mas enrubesceu. Ainda se deve lembrar do espalhanço do outro dia. Trazia uma mini-saia ainda mais curta que dessa vez,e uns sapatos de salto ainda mais alto que os outros, só que desta não tive tanta sorte. Mas acho que ela se anda a candidatar. O Queiroz pagou-me o almoço que me devia há 3 meses. Parece que é o meu dia de sorte.
6ª feira - Parece que sou bruxo, o Marcelino veio-me cravar mais 50€. Já me deve uma conta calada. Encontrei o Henrique: com o frio que estava, vinha com uma t-shirt branca com os dizeres: "Men come in 4 sizes: small, medium, large and Oh! My God", e disse-me:
"Já viste esta pinta de t-shirt? É pás gaijas verem". Respondi-lhe que sim. E que era muito fina.
Sábado - Estou outra vez com tenda montada no wc. Estou a ver que cada vez que almoço à pala, os meus intestinos revoltam-se. Vou passar o sábado a chá e torradas.
Domingo - Hoje estou convidado para um almoço em casa da tia Gertrudes. Até estou com medo das consequências. Mas nem pensar em faltar: vai lá estar o Júlio, que me vai pagar os 300€ que me deve há mais de um ano.
Afinal o Júlio deu uma desculpa esfarrapada à tia Gertrudes e não apareceu, O almoço foram favas. Detesto favas! Agora só me resta aguardar por amanhã para saber se os meus intestinos se vão portar bem.
Mas não me cheira. Bem.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Arco-Íris

Night' Music(14)/Coldplay - yellow

Coldplay - yellow



Como perder uma herança, fazendo esforço!

Esta história já tem uns tempos e já a contei anteriormente, mas não aqui. E como penso pode ser um alerta para pessoas na mesma situação em queme encontrei na altura, achei por bem voltar a contá-la.
A minha tia Almerinda é uma senhora de idade - velha, vá - bastante sovina que à conta da sua maneira de ser, amealhou, uma conta calada no banco. O seu pecúlio terá começado a engordar há uns anos, quando o marido, o sr. Torcato da loja de penhores faleceu e lhe deixou uns largos milhares de contos de réis, uns andares dos quais recebe renda e a loja, que ela passou logo a patacos.
A esta fortuna, vai juntando mensalmente a pensão do falecido.
Além disso tem hábitos curiosos. Por exemplo: quando aparece de surpresa na casa de um qualquer familiar, é certo que esta irá coincidir com a hora de uma das refeições. Raramente sai de casa - a não ser no caso das visitas surpresa - e recebe as mercearias e o pão, através de um cesto que dependura da janela e onde o merceeiro coloca os víveres suficientes para as frugais refeições que faz.
Para verem bem o estilo da minha tia, aqui há tempos disse-me muito entusiasmada:
- Já leste isto? Uma gaja em Inglaterra chamada Mary inventou a mini-saia. Isto é bom, já viste o que vamos poupar em tecido?
Fiquei um bocado sem reacção, mas depois peguei no jornal que ela tinha a mão e disse-lhe:
- Tia, anda a ler jornais de 1964?
- Que diferença faz? As notícias são sempre as mesmas! Ia agora gastar dinheiro em jornais novos. (Já para não falar que não tem televisão, e vai ver as novelas a casa da vizinha do lado).
Bom, claro que nem lhe referi que a mini-saia não lhe ficaria muito bem. Estão já a ver que toda a família está à espera que a velha bata a bota para deitar a luva à herança, e até têm um bocado de inveja de mim, porque sou o familiar mais chegado. O que me obriga a aturar-lhe uma série de madurezas, ou corro o risco de ser deserdado.
Ora aqui há uns tempos, a tia chama-me lá a casa e diz:
- Estás a ver isto? É uma alcatifa que comprei ao preço da uva mijona naquela loja ali da esquina que fechou.
- Oh tia, há anos que não se usam alcatifas! Está provado que fazem mal à saúde.
- Qual quê! O que me dá cabo da saúde são as facturas da electricidade. Não dá para ter o aquecedor ligado! Portanto, como o meu quarto é muito frio e essa peça era mesmo à medida, comprei-a. Não me digas que não me vais aplicar isto?
Claro que não lhe ia dizer que não. E nem lhe disse que era trabalho que nunca tinha feito. Combinámos para o fim de semana seguinte.
Cheguei à hora combinada, tirei o casaco e já ia preparado com umas calças velhas. Deitei-me ao trabalho, já tinha visto fazer aquilo, e pensei que não iria ficar mal. A alcatifa tinha uma cor castanha muito pindérica e pêlo alto tipo carpélio. Enfim, um horror. Estendi-a muito bem, apliquei a cola, fui esticando aquilo. Ao fim de uma hora tinha o trabalho quase pronto. Levantei-me junto à porta para ter uma panorâmica geral, para ver se não havia falhas. Hum...estava perfeito, só faltava mesmo aquele cantinho onde estava. Mas de repente, os meus olhos depararam com um pequeno alto no canto oposto. Que raio seria aquilo? Apalpei os bolsos das calças e pensei:"É capaz de ser o maço de tabaco (infelizmente na altura era fumador). Só tinha para aí um cigarro,e devo-me ter esquecido dele ali. Agora também não vou arrancar tudo para o tirar de lá".
Então, cheguei lá e dei um murro na saliência. Ouviu-se um silvo e calculei que fosse o ar que se soltava do maço, e continuei a pressionar aquilo, até ficar nivelado. Não ficou perfeito, mas como o pêlo era alto, aquilo disfarçava bem. Acabei o trabalho e chamei a tia.
- Então que tal?
- Está lindo, filho. Obrigado e que Deus te pague. Sempre foste o meu sobrinho favorito!
Claro, nem estava à espera de que ela me pagasse alguma coisa. Despedi-me dela, vesti o casaco e saí. Ao descer as escadas, e maquinalmente levei a mão ao bolso interior do casaco. Surpresa! lá estava o maço de tabaco. Então mas que raio seria aquilo debaixo da alcatifa? Ia eu a caminho do carro, e ligeiramente intrigado com o caso, quando a minha tia aparece à janela e me grita lá de cima algo que me deixa completamente paralisado:

- Olha lá! Tu não viste o meu periquito?
P.S.- As minhas relações com o sacana do periquito não eram as melhores. Cada vez que lá ia a casa, o safado saltava-me para os ombros e debicava-me furiosamente as orelhas. A minha tia achava muita graça e dizia:”É tão brincalhão, o Xandinho! Não sei como é que não gostas dele”. E eu com um sorriso amarelo e as orelhas a sangrar:”Pois!” Agora está mesmo visto que vou ser responsabilizado pela infelicidade do bicho, e lá se vai a herança!

Colpo Grosso


A programação da TVI é abaixo de cão, mas a da SIC não tem estado muito melhor. Basta ver a apresentadora da tarde para se verificar da falta de critério que preside às escolhas que por lá se fazem, questão agora agravada com a selecção do júri dos Ídolos.
A Bárbara Guimarães não tem qualificações para um júri daquele género? Não. Mas pior que a sua presença é a do inefável Toni Carreira. Como é que alguém que faz músicas do nível das que ele faz - ainda por cima, não passando algumas delas de descarados plágios - tem capacidade ou sequer autoridade para julgar as capacidades musicais dealguém? A não ser que a SIC ande à procura de um ídolo à semelhança do Toni (já agora e a ser assim, que se não olvide o capachinho).
Mas porque é que eu venho agora com isto? Porque de repente me lembrei dos princípios do canal do Balsemão, e recordei um memorável programa que foi um dos responsáveis pela subida de audiências do canal: o espectacular Colpo Grosso (Água na Boca, em português).
Quem não se lembra da figura sebentolas do apresentador Umberto Smaila?
Quem não se lembra também dos strips das anónimas, algumas delas invocando mesmo a sua condição de donas de dasa, que se apresentavam o concurso?
Quem não se lembra da emoção de ver a roleta rodar, e esperar ansiosamente pelo fruto que iria determinar o decorrer da sessão e dos strips que se iriam realizar. A tômbola a girar e a testosterona a subir.
Isso sim, eram noites memoráveis e que mereciam da nossa parte o sacrifício de ficar acordados até tarde só para assistir àquela frescura toda: mirtillo, limone, arancia, mellone, mandarino, fragola...
Ah! Quantas cassetes VHS eu gastei a gravar o magnificamente kitsch Colpo Grosso!
E por onde andarão elas agora?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Dúvida Existencial (12)

Que forma arranjarão as filhas de Luciana Abreu e yanick Djaló, para se vingarem dos pais pelos nomes com que as baptizaram?


(eu, com aqueles nomes, propunha que ambas se naturalizassem brasileiras)

Coisas que gostava de fazer, mas penso nunca fazer

Coisas que eu gostava de fazer, mas penso nunca vou fazer:
1- Atravessar a Europa de balão - Motivo: sofro de vertigens
2- Ir de uma ponta à outra da Route 66 - Motivo: com a minha dose de sorte, ainda alugava um quarto de um motel propriedade de um serial killer.
3- Mandar fazer sapatos por medida - Motivo: ficam caros, demoram 6 meses e eu não tenho paciência para esperar tanto tempo. Esta minha boutade, prende-se, é claro, com o facto de não termos os dois pés iguais, e geralmente, quando compro sapatos, o esquerdo lá tem que ir para a forma (esta de ir para a forma agora, não sei porquê, sugeriu-me aquela história do rei tirano e que festejava o seu aniversário, altura em que ordenou aos súbditos que cada um deles lhe fizesse uma oferta. Sobrecarregados pelos impostos, aos desgraçados nada mais restava que oferecer frutos, de modo que se alinharam todos para entregar as suas oferendas - frutas diversas - ao soberano, que insatisfeito com a qualidade das prendas, ia ordenando aos súbditos, para enfiar os frutos, num sítio da anatomia em que não dá jeito nenhum enfiar nada e no fim da fila estava um dos pobres todo satisfeito porque só levava na mão uma pequena ameixa, e que sussurrava mais ou menos a mesma coisa que o hipopótamo disse ao crocodilo naquela história passada na selva que metia bocas grandes, e que vocês todos devem conhecer, ao seu companheiro de trás, que para sua desgraça, era portador de um melão)
4- Fazer a barba à navalha - Motivo: com o jeitinho de mãos que tenho, acabava na morgue
5- Festejar de novo, o título de campeão nacional de futebol do Sporting - Motivo: pelo andar da carruagem...
Coisas que eu não gostaria de fazer e nunca farei:
1- Ter que atravessar o Canal da Mancha a nadar - Motivo: não sei nadar.
2- Fazer o Tour de France - Motivo: já expliquei num post anterior as minhas dificuldades na prática do ciclismo.
3- Andar de mota - Motivo: cagúfa
4- Andar de mota com um gajo atrás - Motivo: o da alínea anterior e mais o facto de desconfiar de gajos atrás de mim.
5- Nunca me debruçar para apanhar o sabonete no duche do ginásio, se o balneário não for individual - Motivo: é mesmo preciso explicar?

domingo, 15 de abril de 2012

Carreirismo

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, o seu pai admoestou- o.
Depois de ter roubado a caixa do sr. Esteves da mercearia da esquina, o seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chaufer fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.

(Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tónico)

Canções da vida (13) - Traveling Wilburys/Handle with Care

Desta vez a música escolhida, significa mais pelo álbum no seu todo.Explicando.
George Harrison sempre foi uma figura querida no panorama musical mundial, tendo feito no meio, inúmeras amizades. Em 1988, tencionando gravar o principal single de um novo álbum, George reuniu os seus amigos Roy Orbinson, Bob Dylan, Jeff Lynne (ex-leader da Electric Light Orchestra) e Tom Petty - curiosamente, representantes de 3 gerações do rock anglo-americano - para o ajudarem no B-side deste "Handle with Care" (que eu já aqui tinha editado na Night Music). Só que a química que se estabeleceu entre os cinco foi tal, que, do que era para ser um B-side de um single acabou por sair um fabuloso álbum no qual as distintas personalidades tão díspares dos 5 cúmplices vêm à tona, sem que a obra perca a sua, não diria homogeneidade - o estilo musical de Roy, por exemplo, não tinha muito a ver com o folk-rock de Dylan - mas qualidade. Isto é, trata-se de uma conjunto de 10 canções excelentes, não se encontrando entre elas um ponto mais fraco. Decidiram entre os 5 então editá-lo, não já como um álbum de Gerge Harrison, mas de um grupo que denomiram de The Traveling Wilburys. E o àlbum fez grande sucesso, ensombrado somente pela morte de Orbison, semanas após o seu lançamento. Dois anos depois, os remanescentes membros do grupo reuniram-se para um segundo álbum, curiosamente - ou inexplicavelmente - titulado The Traveling Wilburys vol.3, que sendo ele também de elevada qualidade, não atingiu, no entanto, o nível do Vol.1. Porque o álbum passou, ao que me parece, um pouco desapercebido por cá, deixo mais duas canções onde estão bem patentes as participações quer de Orbison, quer de Dylan.

Náo gosto de blogs...

…que não permitem comentários!
What’s the point? Para que é que alguém tem um blog onde quem lê não pode comentar o que lê? “Ah! Os stalkers e tal”. O caraças! Todos os blogs têm moderação de comentários (não aprecio muito o conceito - censura - mas compreendo perfeitamente, aceito e usá-lo-ei se alguma vez se verificar necessário).
Então, porquê? Ter um blog onde ninguém pode comentar, não é mais ou menos a mesma coisa que escrever um livro e avisar antecipadamente que não se aceitam opiniões dos críticos literários? Ou de quaisquer outros críticos? O que me parece sempre, é que os autores desses blogs se querem colocar numa posição de superioridade intelectual e moral em relação aos seus leitores, ao povaréu que se ajoelha face à grandeza do ungido autor. E é por isso, que já não leio esses blogs: quando me aparece algum, passo logo à frente.
Ah! Não é bem assim, aquilo são simples desabafos, coisas pessoais!” Eh pá, sendo assim, não as tornem publicas. A quem é que interessam os desabafos de um gajo/a qualquer que depois não quer saber da opinião dos outros em relação ao assunto? É pessoal? Eh pá, então comprem um moleskine ou uma sebenta, escrevam lá os pensamentos íntimos. É a melhor maneira de os manter mesmo isso: íntimos. Acerca dos quais mais ninguém a não ser os próprios tem algo a dizer!

sábado, 14 de abril de 2012

Night' Music (13)/Iggy Pop- The Passenger

Iggy Pop - The Passenger

Vistos e Revistos - Ao fim de semana, um filme

Anatomia de um Crime - Otto Preminger (1960)

Este filme de 1960 de Otto Preminger, reúne um dos mais míticos e talentosos actores do seu tempo, James Stewart, com um dos mais bmaravilhosos pares de olhos de sempre de Hollywood, os de Lee Remick, tão bela como talentosa, e que infelizmete partiu cedo, deixando a cidade do cinema mais pobre. O filme, candidato a muitos prémios, relata um caso de tribunal, complicado: um militar (Ben Gazzara) é acusado de ter assassinado um homem que supostamente lhe terá violado a mulher (Lee Remick). A verdade, contudo, não é tão simples e desperta o interesse do advogado Biegler (Jimmy Stewart), que a princípio se mostra renitente em aceitar o caso. É pois um filme passado na sua maior parte na sala de tribunal, onde os vários personagens se vão enfrentando, dirigidos pela mão de mestre Preminger. Impressionante principalmente, o enfrentamente do todo poderoso Procurador Geral (George C. Scott) e o obscuro advogado de província (Stewart) e o seu auxiliar, um alcoólico em recuperação. Pelo meio, a belíssima Lee Remick. Para quem aprecia filmes de tribunal, do melhor que se pode ver. Duas referências: filme a preto e branco, o que se adequa perfeitamente ao ambiente, e a música de Duke Ellington

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Night' Music(12) / Jim Morrison - An American Prayer

Jim Morrison - An American Prayer

O Heinkell do Pai do Raúl

Um dia destes, ouvi num programa de rádio em que era entrevistado o Júlio Isidro, este afirmar que num dos seus programas dos anos 80, O Passeio dos Alegres, se tinham conseguido enfiar 27 pessoas num Mini, o que, na altura constituiu recorde para oGuiness. Lembro perfeitamente o episódio, mas o mais importante é que a evocação me relembrou o Raul, meu amigo de infância, e o Heinkel do pai dele, que era um senhor de bigode do qual eu nunca soube a profissão (a verdade é quando somos crianças, não damos muita importância a esses pormenores).
A única coisa que me interessava do pai do Raúl, o sr. Raimundo, eram as sandes mistas que a mulher dele fazia para o nosso lanche, e as voltas que me proporcionava a bordo do seu bólide. A minha excursão favorita era quando íamos à Bobadela, onde o pai do Raúl ia mudar o óleo ou fazer a revisão ao carro. Aquilo era quase uma excursão. Ia o sr. Raimundo, claro, com o seu boné à inglesa, como ele lhe chamava, e os seus Ray Ban, a mulher, (os dois nos assentos da frente), o Raúl, a irmã do Raúl, eu, e por vezes mais uma ou outra pessoa cá atrás. E enquanto o carrinho ficava na oficina de um gajo com mau aspecto, nós íamos ao Pesudo comer bacalhau assado e febras na brasa.
Até hoje, estou para entender como por vezes se conseguia meter tanta gente naquele ovo de 3 rodas, porque de vez em quando a avó do Raúl, sogra do sr. Raimundo claro, queria ir, e ele com má cara, insistia sempre em a querer pôr entre o banquinho de trás, onde nós os 3 íamos apertadinhos, e o motor, de maneira que a velhota ia lá atrás toda amarrotada, e chegava sempre a suar por todos os lados, e com o pó de arroz a escorrer-lhe pelas bochechas.
Uma vez, também o Silvino, que era um anão que morava no rés-do-chão, soube que íamos à Bobadela e pediu boleia. O sr. Raimundo disse que sim, mas como o espaço onde costumava ir a sogra estava ocupado com um saco de batatas, ele disse ao Silvino, que só se ele fosse deitado debaixo dos bancos da frente. E lá foi o anão, coitado, todo encolhido, e o Raúl que não o gramava porque ele lhe tinha rasgado uma bola que tinha ido parar ao quintal do Silvino, ainda lhe assentou dois ou três pontapés nas costas, e pedindo-lhe sempre desculpa e dizendo que tinha sido sem querer, que era por ir um bocado apertado. Coitado, o anão chegou à Bobadela todo amachucado, e para cá já não quis boleia, veio na Camioneta dos Capristanos.
Mas havia outra coisa que me intrigava no carro: a porta era a parte da frente do carro, de modo que o carro não tinha porta-luvas. Mas do lado do sr.Raimundo, aquilo tinha uma espécie de bolsa, de onde de vez em quando ele tirava uma coisa. Aliás, acho que nunca vi ninguém tirar tanta coisa de uma bolsa tão pequena, aquilo parecia a gruta do Ali-Bábá.
Ora, houve um dia em que o sr. Raimundo se esqueceu do carro aberto, e eu decidi que era altura de saber o que realmente havia na bolsa. E descobri: uma pistola de 9mm (esta já sábia que lá estava, porque o sr. Raimundo, quando passávamos em sítios ermos e com árvores, parava o carrinho, sacava da pistola, e desatava aos tiros aos pássaros que conseguia ver), meio pacote de bolacha Maria a cheirar a mofo, dois cotonetes usados, duas revistas  da Playboy, um rolo de papel higiénico, meia carcassa com marmelada, um chave inglesa, uma garrafa de cerveja Sagres vazia e três fraldas de pano (acho que eram da sogra do sr.Raimundo).
Enfim, velhos tempos. Gostava de andar no Heinkel do pai do Raúl. Só não gostei do dia em que lhe faltou gasolina em Sacavém e eu, mais o Raúl, a irmã e a mãe dele tivemos que empurrar o carro mais de um quilómetro e sempre a subir, enquanto o sr. Raimundo ia todo repimpado ao volante, e só gritava: "Força! Estamos lá quase!"
Essa foi mesmo para esquecer!

Fruta - Frutos Indeiscentes



Frutos indeiscentes - São aqueles que não se abrem quando maduros. Os grãos de milho, arroz e trigo, a avelã e a noz são exemplos de frutos indeiscentes. O pepino e os tomates também

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Night' Music(10)

Status Quo - In My Chair

Dúvida Existêncial (11)

Será que o Pacheco Pereira não aderiu ao novo acordo ortográfico porque, a fazê-lo, teria que chamar ao seu blog "Abruto" (com pronúncia brasileira Ábruto)?

Fruta - A melancia

*




* - Kim Kardashian

Shaken, Not Stirred

Os sonhos são uma chatice: uns porque não acabam quando deviam - os pesadelos - os outros porque acabam antes do que deviam. Ainda esta noite, por exemplo, não acabou antes de eu cair nas cataratas - logo eu, que além de não saber andar de bicicleta, tenho horror a alturas e nado pouco - e terminou na altura em que estava para ser apresentado à Kate Beckinsale, que estava lá ao fundo da sala a galar-me descaradamente há mais de meia hora. Entretanto já tinha emborcado quatro martinis "Shaken, not stirred", armado em James Bond, e as minhas pernas estavam como as pestanas da Kate a piscarem para mim - a tremelicar - e também como os seus lábios - entreabertas (sempre é mais decente dizer que eram as minhas pernas a estar entreabertas do que as da Kate). O mais trágico é que, se ao princípio eu nem sabia onde estava, depois dos cinco martinis "Shaken, not stirred", ainda pior. E as conversas não ajudaram. Como aquela do Al Pacino ir rodar um filme romântico com a Silvia Saint  ( ou Sylvia Saint, ou assim)  e se é verdade, desta é que dá um avc ao desgraçado do Pacino, embora me pareça que a matéria de que os sonhos são feitos não sejam muito de confiar, além de que é reconhecida a falta de talento da Silvia Saint, quer para o inglês, quer para o diálogo, a não ser que, à semelhança d' O Artista, se trate de um filme mudo (oxalá não seja a preto e branco, porque tal seria um atentado especialmente à imagem do Al Pacino).
Também não gosto de romãs. Nunca gostei de romãs: dão muito trabalho a descascar, e aquilo mesmo depois de descascado, passa-se o tempo a cuspir grainhas. E vieram-me bichanar ao ouvido - um gajo com um tipo abichando - se não queria uma já descascada - romã sublinhe-se, não a Kate nem a a Silvia - sugestão que recusei liminarmente. Que diabo? Romãs? Ali?
E o tempo a passar, o já quase frenético bater de pestanas da Kate, e eu a engolir martinis. "Shaken, not stirred". Nesta altura, dirige-se a mim o anfitrião com uma campainha de mesa na mão - pensei "é agora que ele me vai apresentar à Kate“, que nessa altura fizera emergir uma perna bem torneada (de sonho, como convinha à situação), e a abanava sensualmente através da racha do vestido comprido (a racha também era) verde-esmeralda. O homem, chegado ao pé de mim, levanta a mão, e faz soar a campainha estridentemente.
Foi quando acordei e era a campainha da porta. Levantei-me estremunhado, compus o cabelo e o pijama e abri a porta: não era a Kate, era o empregado da EDP a contar a luz.
Olhei para as horas quando o tipo saiu: tardíssimo. A culpa era do sacana do anfitrião, que se demorara tanto, que da Kate nem pó, só de longe, e ainda por cima me fizera engolir pelo menos seis martinis "Shaken, not stirred". Tomei banho, lavei os dentes - a boca ainda me sabia a papel de música - e vesti-me. Pelo sim, pelo não, uma borrifadela de Eau de Cologne.
Saio de casa, e à esquina da rua apanho um táxi. Rádio sintonizado as notícias. "Uma mulher brasileira de 22 anos, deu à luz a caminho da maternidade de Aparecida. Registou-o sob o nome de Ambulâncio da Aparecida".
Ah! se toda a gente fosse tão prática como a brasileirinha!
E o tipo do táxi:
"Vai aqui um cheiro esquisito, não vai, amigo? Acho que foi daquele mariconço que eu levei à esquina onde o apanhei a si"
Olha o sacana do fogareiro! Seria indirecta?
E eu:
 "Olhe, eu fico mesmo já aqui, se faz favor!".
Definitivamente, mais valia ter passado a noite em claro!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Night' Music

Crowded House - Fall at your feet


Hoje já estou no dia de amanhã

Hoje não estou cá.
Estou num lado qualquer do meu cérebro, mas não estou cá.
Queria estar numa praia cheia de sol, o mar a molhar-me os pés, mas não estou. Mas também não estou cá. Hoje, já estou no dia de amanhã. Porque amanhã é aquele dia por que espero há uns meses. E se durante estas 12 ou 14 semanas passadas, o tentei obliterar da minha cabeça, hoje não consigo, falta demasiado pouco tempo, o amanhã é já ali à esquina, e nele se desenhará como serão os meus dias futuros. Pelo menos, até à próxima vez em que eu cá não estarei e sim no dia imediatamente a seguir.
E assim sucessivamente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SPOOOOORTIIIIING!!!!!

Fruta - A Pêra

As maravilhas do Ciclo-Turismo

Havia um segredo na minha vida que guardei até há bem pouco tempo.
Eu sei que é vergonhoso num homem da minha idade, mas não sabia andar de bicicleta. Bom, para ser totalmente sincero, ainda não sei bem. Vou a direito, dou curvas - com um certo cuidado - mas não me consigo levantar do selim, o que me dificulta muito as subidas.
Bom, mas porque é que hoje venho com isto? No fim logo verão, como verão se tenho ou não razão em dizer que há coisas que só me acontecem a mim.
O Marcelino, que nunca desconfiou que eu era um excluído na arte de dominar a bicicleta (e ainda bem), aqui há tempos decidiu formar uma espécie de grupo de ciclo-turismo.
Quando me falou disso pela primeira vez, vi logo que ia ser um dos felizes contemplados com um convite para fazer parte do grupo. Ora sabendo da minha falha na coisa, tentei dissuadi-lo, invocando várias razões para não ir com aquilo para a frente: que as bicicletas são caras e a maior parte da malta que ele conhece é uma cambada de tesos, que também é preciso equipamento, que a nossa zona é muito acidentada, etc. Mas o gajo arranja resposta para tudo: disse que para o equipamento e para as biclas se podiam arranjar umas rifas, que se levariam as bicicletas até à beira-rio à mão e nos primeiros tempos treinaríamos aí, e só depois se iniciariam os percursos mais complicados, e por aí fora. "E tu vais ser o 1º convidado para a equipa" disse ele. Pois! tinha que ser!
Bom, vi que não me ia escapar e tratei de ver se conseguia arranjar forma de aprender. Uma coisa que não poderia acontecer era o Marcelino saber que eu era um biciclo-excluído, porque ele tem a língua solta e ia logo espalhar a notícia por todo o lado, especialmente na tasca do Mão de Ferro, e ainda ia gozar comigo à frente de toda a gente. Nunca me esqueço do que ele fez com o antigo dono da tasca, o Arlindo, que coitado, era corcunda, e ele só o tratava por marreco. Uma vez o Arlindo estava de mau humor e respondeu-lhe: Eu não me chamo marreco! Chamo-me Pombo! Arlindo Pombo! E o Marcelino, que só sabia que ele se chamava Arlindo, respondeu-lhe: Pombo? Eh pá, é a primeira vez que vejo um pombo com o papo nesse sítio!.
Portanto, já estão a ver o estilo do artista e ao que eu me sujeitava. De modo que fui ter com um tipo que sabe daquilo, e pedi-lhe se não se importava de me ajudar. Umas notas de 20€ fizeram o milagre, claro. Escolhemos uma bicicleta das mais simples - conselho do professor - mas mesmo assim a 1ª aula foi um desastre. Caí para aí umas 70 vezes. Ele bem me dizia para olhar em frente mas eu só olhava para o guiador ou como raio se chama aquilo, ou, quando muito para a roda da frente, e fui para casa cheio de arranhões, apesar das joelheiras, cotoveleiras e sei lá que mais eu levava vestido. A 2ª não foi muito melhor: consegui dar umas pedaladas seguidas, mas ao tentar dar uma curva, fui em cheio com um ombro contra uma parede, de maneira que ainda não estava curado dos arranhões e já estava com uma rotura muscular que me obrigou a andar 15 dias de braço ao peito. E o Marcelino de volta de mim, a querer tirar nabos da púcaro: "Eh pá, o que é que andas para aí a fazer, que estás todo roto? Andas-me a querer boicotar o projecto do ciclo- turismo, ou quê? Assim nunca mais começamos!" Não fiquei nada satisfeito com aquela do roto, mas também não quis adiantar conversa, que ainda era capaz de me descair. Quando fiquei melhor da rotura, lá recomecei com as lições, e aquilo lá foi evoluindo. O pior são mesmo as subidas, porque não consigo levantar o rabo de selim, e não me entendo com as mudanças.
Resumindo, fui adiando a inauguração da época do ciclo-turismo do Marcelino o mais que pude, mas no último fim de semana de Fevereiro, solarengo, não deu mais, que ele não parava de me chatear. E lá fomos para a beira-rio. "Ainda bem que isto não tem subidas" - pensei eu. "Assim o gajo não vai desconfiar muito que eu sou um bocado nabo nesta treta".
Andei sempre nas calmas na cauda do pequeno pelotão, até começar a sentir uma dor esquisita na nalga esquerda, e o pior é que não conseguia levantar o rabo do selim. Quando aquilo acabou foi um alívio, mas a nalga continuava a doer-me e cada vez mais.
Cheguei a casa despi-me e fui-me pôr ao espelho, a ver se conseguia descobrir a razão do incómodo. Dei umas voltas e lá consegui descobrir o que me pareceu ser uma enorme e vermelha borbulha. Tomei banho, comi qualquer coisa - em pé - e deitei-me (de lado).
Ora no outro dia, aquilo doía à brava e estava ainda maior, parecia uma ilha vulcânica no meio do Pacífico, e eu só me conseguia sentar de lado. Aquilo não era normal! Decidi ir ao Posto de Saúde. Quando o médico me perguntou de que me queixava, fiquei um bocado embaraçado mas lá acabei por lhe dizer o que se passava. "Mostre lá isso!" um bocado embatucado, lá fui baixando as calças devagar e ele exclamou: "Eh pá! Você tem aí um belo furúnculo! E pelo que estou a ver, vêm mais dois a caminho".
Fiquei para morrer! Sacana do médico: belo furúnculo??? E vinham lá mais dois???
"Mas eu nunca tive um furúnculo na vida. Não me diga que foi por causa do selim?!?!". E ele: "Ah você faz ciclismo?" e eu contei- lhe. E vai ele: "Então está justificado, há muita gente a quem crescem essas coisas quando fazem ciclismo" e explicou-me que aquilo se iria repetir, e que o conselho dele, era não voltar à bicicleta. E receitou-me uma pomada.
Bom, aquilo doía a valer, além do problema de só me poder sentar numa das nalgas. Mas ao mesmo tempo tinha um lado positivo: fornecia-me um pretexto para me ver livre das excursões ciclo-turísticas do Marcelino.
Agora alguém me explique como lhe vou dizer que não posso fazer mais aquilo, sem ter que lhe dizer que os culpados são uns furúnculos que me andam a crescer nas nalgas como cogumelos, sem correr o risco de ser achincalhado por ele, e através dele, pelo bairro inteiro!

domingo, 8 de abril de 2012

ATENÇÂO! Aì vem chumbo grosso sobre a língua portuguesa!

O Jorge Jesus vai botar faladura!!

Hoje não se perdoa tudo?

Pois então, e como estamos num dia de Páscoa com sol, a chamar a Primavera, atrevi-me a deixar aqui escarrapachadas umas quadras feitas a martelo, mas que até mete anjos, portanto, e acho eu, não muito forado espírito da época. Claro que os poetas me vão chamar nomes, mas como essa é uma das tais coisas que não me chateiam nada, aí vai:


Há um anjo que me acompanha tempo inteiro
Salta-me para os ombros, fala-me, sorri
Olha p'ró lado quando faço asneira
E com ar de sacana ainda se ri

Temos conversas sobre tudo e sobre nada
Falamos alto, baixo ou em sussurro
E muitas vezes discutimos tanto
Que me apetece acabar aquilo a murro


Não sei o que faz quando adormeço
mas acho que me brinca com os sapatos
Tenho que me pôr alerta com o safado
Ou uma noite inda m'espanta os gatos

Mas há dois dias que estou preocupado
Calou-se, desapareceu sem dizer nada
Vou ter que sair para o procurar
Não vá ele estar metido numa alhada

É que com esta coisa das misturas
Entre o tipo terreno e o divino
Já não se sabe bem quem é que é quem
E a qual dos dois afinal cabe ter tino

sábado, 7 de abril de 2012

Night' Music (8)

Divine Comedy - Tonight We fly



Dúvida Existêncial (10)

Alguém é capaz de me explicar a razão desta moda que agora há de chamar boutique a todas as lojas, mesmo as mais improváveis?
(Só aqui na minha zona existem: Boutique do Pão; Boutique do Café; Boutique Doce.
Tendo em conta o facto, um vizinho meu que tem uma loja de bacalhau na Rua do Arsenal, ontem veio-me perguntar o que é que eu pensava de ele mudar o nome da loja para "Boutique do Bacalhau & Pichelim". Só falta mesmo a Alzira baptizar a "pedra" que tem no Mercado da Ribeira com o nome de "Boutique do Safio e do Charrouco")

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Verdade ou Consequência - Guilty Pleasures

O Menino De Sua Mãe lançou um cross-posting "Verdade ou Consequência", ao qual aderi, e que no seu lançamento tem como tema os nossos "Guilty Pleasures". Levei tempo, porque, sinceramente tenho vários. No entanto, este de que falo até poderá constituir o desbravar de um terreno interessante, e para alguns, desconhecido.
Tem a ver com cinema. Cinema erótico italiano dos anos 80.
Até determinada altura, o cinema foi consumido pelo cinéfilo quase exclusivamente como um passatempo, apesar de um mínimo de exigência de qualidade, ter estado quase sempre presente desde os primórdios. Os Cahiers du Cinema, vieram a impor uma nova ordem especialmente do público europeu mais informado, e a exigência tornou-se maior, apesar de Hollywood continuar a dominar os circuitos comerciais.
Em Portugal, a partir de meados dos anos 60, uma certa intelectualidade seguidora fiel das teses dos Cahiers, impôs um paradigma quase radical sobre o que se via, o qual se veio a aprofundar com o 25 de Abril. Nessa altura e durante os anos seguintes, os cinemas toleráveis para quem queria aparecer como progressista junto do seu núcleo, eram alguns "estúdios", o Quarteto e o Nimas, que exibiam obras de "vanguarda", cinema da nouvelle vague francesa, de pequenos produtores independentes, ou clássicos de Murnau ou Eisenstein (sempre achei Eisenstein uma seca, mas lá tive que gramar uma vez o Couraçado Potemkin).
Por aí, portanto. Creio que se não fosse o aparecimento dessa corrente, e a obra de Manuel de Oliveira se resumiria hoje ao aniki-bóbó.
Porém, e confessando já aqui o meu gosto pela coisa chã, pelo instinto básico, muitas vezes pelo kitsch, nos anos oitenta, eu que já gostava especialmente do realismo italiano, fui apanhado completamente pela onda dos filmes italianos, muitos deles eróticos, produzidos por Salvatore Samperi, Dino Risí, Monicelli ou Etore Scola. Nunca percebi como não se poderia gostar igualmente de "O Leopardo" ou do "Malízia", do "Morte em Veneza" e do "Novos Monstros". Muitas vezes, tentar discutir sequer filmes como Malízia, uma obra-prima do erotismo mundial, parecia uma blasfémia. "Não, isso é abaixo de cão. Vamos falar de Godard".
E não era abaixo de cão. Era a vida tal qual ela era, com sentimentos básicos, fortes, telúricos até. Levassem a minha avó a ver um filme de Godard e ela sairia do cinema a perguntar-me "Mas que raio se passou ali?". Em contrapartida, se a levasse a ver os "Novos Monstros" ela perceberia muito bem que um dia poderia estar sujeita a acontecer-lhe o mesmo que à mãe de Alberto Sórdi no filme: ser internada num hospício por algum familiar tão falho de escrúpulos como Alberto.
De modo que, a certa altura, comecei a omitir dentro do meu círculo de amigos e conhecidos que ia ver filmes tão "básicos" como esses. Mas que eu apreciava e de que maneira. E foi com eles que conheci grande parte da obra de Risí ou Ferreri, ou actrizes maravilhosas - em todos os sentidos - como a já referida Antonelli, Edwige Fenech ou Ornella Mutti - essa mesmo que em 1994 foi considerada a mas bela mulher do mundo - ou actores monstruosos, como Sordi, Vittorio Gassman, Giancarlo Gianini, Ugo Tognazzi ou Massimo Ranieri.
Recordo mesmo cenas inteiras de alguns desses filmes, apesar de há muito não os ver. Com pena minha, que bem gostaria de rever alguns.
Este é pois, um Guilty Pleasure que está longe de me envergonhar.

Canções da Vida (12) - Damien Rice - The Blower's Daughter


A canção de hoje é uma daquelas escolhidas não só, porque é realmente uma das minhas preferidas, mas mais que isso, representa aquele que é para mim um dos melhores, se não o melhor álbum de musica popular da primeira década do século XXI, "O".
Na verdade, e mais que esta canção, magistralmente interpretada por Damien, com uma orquestração quase minimalista de um lirismo a roçar o etéreo, o álbum é um daqueles dos quais nos é difícil destacar uma só canção, tão boas elas todas são.
A finalizar: a música ficou mais conhecida por servir de banda a sonora a um filme. E quem ficou a ganhar foi o filme, porque a música é a melhor coisa que o filme tem.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pay Day

Eh pá, comecei a escrever um post, e a pimeira coisa que fiz foi dar-lhe nome.
E não é que isto logo de princípio não me soa bem?
Hum....acho que fico por aqui!

Assumam-se!...e as Coelhinhas da Páscoa existem!

Em garoto - desde para aí os 6 anos - tinha certas reservas em relação aos adultos
A primeira opinião negativa que tive foi sobre a sua crueldade, e quando vi pela 1ª vez, o Bambi.
Aquela cena da morte da mãe do veadinho (atenção leitores brasileiros, falo de um animalzinho e não de um tipo com opções diferentes das minhas) era escusada, e marcou-me para toda a vida. Ainda hoje penso que o indivíduo que teve aquela ideia, deveria ter sido atado a uma árvore e sido sodomizado à bruta e à fartazana.
Logo no ano a seguir, e por causa do Pai Natal - descobri que afinal era o meu pai vestido com um fato de cor ridícula e com umas barbas de milho - verifiquei que, além de cruéis, nos mentiam.
E que, além do mais, batiam nos mais pequenos. Lembro-me perfeitamente ds levar alguns pares de lapadas: era a minha mãe, quando lhe ia às bolachas, foi uma vez o meu pai quando lhe pus o cócó do cão nas pantufas e ele as calçou sem sequer olhar para elas, era a professora que me dava com uma chibata nas orelhas quando eu puxava para cima as saias da Alicinha, que tinha a carteira mesmo à frente da minha. Enfim, era quando lhes apetecia. Para eles aquela frase "bate em alguém do teu tamanho" era muito bonita, mas só aplicada aos outros.
Mas as minhas recordações nesse aspecto não ficaram por aqui. Por exemplo, a minha mãe era doméstica (esta denominação é muito engraçada, eu sempre achei que os homens achassem a designação "domesticada" muito mais adequada e conforme com a sua - deles - vontade) e era ela que me acompanhava nas leituras. Um dia, tinha para aí uns 8 anos, perguntei-lhe:
- Mãe, porque é que o Donald namora há tanto tempo com a Margarida e nunca mais se casa?
E ela ficou uns tempos em silêncio, e depois respondeu:
- Sei lá! Isso é um disparate! Não vês que são só bonecos animados? Olha, se calhar é porque gostam de namoros compridos.
- E quem são os pais dos 3 sobrinhos dele?
- Sei lá! Tens cada uma. Para que queres saber isso?
Bom, aquilo tudo me pareceu suspeito. Então, mas alguém normal conta uma história em que os intervenientes aparecem assim do nada, como os três sobrinhos?
Claro que agora que sou adulto, já tenho resposta para muita coisa, Tenho a certeza que o Donald é pederasta, que o namoro é uma simples cortina de fumo sobre a sua condição, e que os três sobrinhos são mais ou menos o correspondente à Almerinda, que é a afilhada do senhor padre Mateus, que vive em casa dele há mais de 20 anos e lhe trata das lides da casa e de outras que se murmuram, mas ninguém diz em voz alta. Uma nota para referir que a Almerinda é mãe do Jerónimo, que tem 15 anos e de quem nunca se conheceu o pai. Dizem.
A seguir, chegou a idade em que eu lia as aventuras do Tintin. Que também é uma figura curiosa. Não sei se alguém já reparou que a única mulher que aparece mais assiduamente, é a Castafiore. Isto é, o Tintin só se dá com um marinheiro que anda sempre grosso, um cientista lunático, e dois detectives idiotas. Ora um jornalista que calcorreia o mundo, não arranja uma namorada decente? Perdoe-se tudo a Hergé - dizia-se que era racista, xenófobo, amigo de nazis, etc), mas que, antes de morrer, tivesse assumido que o Tintin é como o Donald.
Depois, veio o Astérix. E que dizer de Astérix? que só gosta de matulões como o Óbelix?
Enfim, sobre o assunto, muito haveria a dizer (expliquem-me lá porque é que o Batman tem como o parceiro o Robin e não a sensual Catwoman ou mesmo a encantadora SuperMulher?)
As histórias infantis estão repletas de situações de carácter sexual muito duvidoso ( 7 anões a viverem sózinhos na floresta, e quando lhes aparece uma brasa como a Branca de Neve tratam-na como se fosse um deles, em vez de aproveitarem para fazer umas coisas mais divertidas? Hum....), e a banda desenhada, pejada de heróis musculosos cheios de super poderes, mas quando se chega àquilo que realmente interessa, népia. Fazem-me lembrar uma carga enorme de dinamite, mas sem rastilho.
Portanto, as minhas convicções de criança sobre alguns adultos só se têm reforçado com o decorrer do tempo: são cruéis, aldrabões e dissimulados!
Opá! Assumam-se e deixem de enganar as ciancinhas! Aproveitem a época festiva e mostrem-lhes que pelo menos nas Coelhinhas da Páscoa vale a pena acreditar.

E sob as tuas cuequinhas de seda, negras e perfumadas...

...lá estavam as minhas boxers estampadas com coelhinhas de Páscoa, que eu julgava perdidas!

(estou a ver que tenho que começar a ser eu a arrumar as gavetas)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Night' Music

Peter Murphy - Cuts You Up

Evitem comprar óculos de sol Ray Ban a...

...indivíduos muito morenos, de bigode e vestidos de preto!

Hoje não há post matinal porque...

1º não me apetece escrever nada
2º porque o dia está como o Castelo Branco: não sei bem o que sou, não sei se chova, não sei se faça sol.
3º porque ontem o Marcelino pediu-me mais 50€ emprestados.
4º porque encontrei a minha vizinha do 161 e passei a noite toda a sonhar que um par de meloas assassinas me perseguia.
5º porque acordei todo despenteado - o que detesto, alguém me indique onde posso comprar uma rede para o cabelo - o que indicia que passei uma noite agitada (as culpadas devem ter sido as meloas).
6º porque acordei para o meu lado direito, o pior. Sei, porque uma vez fui ao fotógrafo e ele disse-me que o lado esquerdo me favorecia mais
7º porque me deitei mais cedo que o habitual, e afinal dormi as mesmas horas, porque também acordei mais cedo.
8º porque a meio da noite acordei sobressaltado com uma valente trovoada, mas depois cheguei à conclusão que era outra coisa quando ouvi o autoclismo do vizinho que mora mesmo por cima de mim.
9º porque acordei cansado e tive logo que me sentar uns minutos na cadeira que tenho ao lado da cama para ocasiões destas.
10º porque há que tempos que não vejo o padeiro (esta razão não é mimha, é da minha cadela que me está a ladrar porque há 3 dias que não lhe dou um osso para roer ao pequeno almoço)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Night' Music (10)

GooGoo Dolls - Iris

Da lógica das estatísticas


Ouvi há pouco que, numa sondagem de rua em determinada zona de Lisboa, falando-se de pão, os portugueses preferem o "saloio". Pelas vozes dos inquiridos e pelas razões apontadas, "Porque parecem um belo par de mamas", "Não pá, parece é uma peidola", o inquérito foi efectuado somente junto do sexo masculino.
Pela mesma ordem de razões, posso então concluir que se o inquérito incluísse representantes do sexo feminino, a primazia seria rijamente disputada entre a baguete francesa e o cacete rústico.

O dia em que fui ver o filme que não vi

Há dias que nunca se esquecem. Aquele em que decidi ir ver um filme ao Colombo é um deles. Como tinha um almoço marcado no shopping com um amigo, e estava muito interessado em ver um filme que corria numa das salas, fui comprar bilhete, mas já só havia para uma sessão perto das 5. Paciência. Queria para uma das últimas filas e calhou-me a penúltima. Fomos almoçar, e como tinha que fazer, o meu amigo safou-se mal acabámos. Fui então dar uma volta pelo centro comercial, e às tantas começo a ver uns tipos com adereços do Benfica (quando fui à tabacaria comprar o jornal verifiquei que havia jogo perto das 8). Sentei-me num sofá a ler e a fazer horas para o cinema. Até que às tantas, já com o jornal lido, fui dar mais uma volta e desentorpecer as pernas. Bom, aquilo já estava infestado por tipos com as cores dos lampiões e havia indumentárias para todos os gostos, e os chapéus eram na maior parte (99,9% dos casos)especialmemente ridículos. Foi então que aconteceu: aparece-me pela frente uma das mais bizarras figuras que eu jamais vi. O homem era pequeno e gordo, rotundo, digamos. A barriga proeminente, afastava- lhe as calças da camisola - vermelha e branca, obviamente - pelo menos uns 10 cm que deixavam ver o bojo peludo. A cara era vermelhusca, barba por fazer, e o acentuado prognatismo dava- lhe ar de bulldog. Para compor a imagem, o indispensável cachecol e um barrete vermelho e branco de bobo da corte, com uns bicos enormes. Não sei o que me passou pela cabeça, mas comecei a rir que nem um parvo e em altas gargalhadas. Ainda tentei disfarçar, mas nem conseguia deixar de olhar para a figura, que também já olhava para mim com uns olhos porcinos e zangados. Corri para o wc, lavei a cara, mas não conseguia conter o riso. Bom, lá acalmei e como estava quase a hora fui para a sala. Sentei-me, puxei do jornal e entretive-me a dar mais uma volta nas notícias. Até que um vulto parado frente a mim na fila à frente, me fez levantar os olhos: era ele. Olhava- me com um olhar velhaco e um esgar que deveria ser um sorriso. De seguida fez o que eu temia, sentou-se à minha frente. Começa o filme, e o chapéu enorme não me deixava ver nada. Bem me mexia para um lado e para o outro mas era impossível. Ainda por cima, os tipos da fila de trás começaram a mandar vir comigo, que eu os estava a incomodar. A meu lado estava um sacana de um puto a gozar o prato e que só se ria. E já lá ia meia hora de filme, e eu sem ver pêva do filme. Desisti. Levantei-me, pedi licença para passar ao gajo que me estava a gozar. O tipo afastou as pernas ligeiramente e eu ao passar, ferrei-lhe uma valente pisadela, que o fez soltar um gemido e aquele palavrão que vocês estão a pensar. Claro que pedi desculpa com o meu ar mais seráfico. E pronto, foi isto que aconteceu no dia que era para ver o filme que não vi. Nunca mais fui ao cinema ao Colombo. E se alguma vez tal voltar a acontecer, vou-me certificar primeiro que nesse dia não há jogo dos lampiões!

* - A foto dá a ideia da cara que os lampiões terão amanhã, depois do jogo com o Chelsea. Ah! e no fim do campeonato! (brincadeirinha! amanhã espero que ganhem. Mas que levem uma trepa na 2ª feira)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Night' Music (9)


P.J. Harvey and Nick Cave - Henry Lee


Dos belos sentimentos

A minha namorada morreu. Despedaçou-se-me o coração e jurei ser fiel à sua memória. De início, não foi difícil; estava tão aflito que nem sequer conseguia imaginar-me a beijar outra pessoa. Mas passado algum tempo, outra rapariga começou a demonstrar certo interesse. Resisti à abordagem. - És muito bela - dizia-lhe - mas ainda é muito cêdo. Desculpa. Não desistia. Não parava de me tocar carinhosamente e de bater as pestanas com rimel. Acabei por ceder e caí-lhe nos braços. O homem pediu-nos que saíssemos. Explicou que o nosso roçagar, os nossos sorvos e as risadinhas incomodavam as outras pessoas do velório.
Dan Rhodes, em A Namorada Portuguesa e outras 100 Histórias

Ainda há pessoas capazes de sentimentos muito profundos

#2 - Marília (Ansiedade)

05:10 am, Rue de Levis. A ansiedade é um despertador. Demasiado. Deixei a chave na recepção, o homem quase nem olhou para mim: "Chambre 23"; "Merci, m'sieu, bonne journée"; "Vous aussi". Que diabo, ainda faltavam quase 2 horas. "Gare du Nórd às 7, já sabes". E Dutronc a sussurrar cá dentro:
"Il est cinq heures, Paris s'eveille"

Ainda não havia metro. De qualquer forma, queria ir a pé, o tempo escoar-se-ia mais rápido. Na rua os homens montavam as bancas. Legumes, queijos, marisco e peixe, em breve a Levis seria um mercado a céu aberto. Muitos cheiros, alguns agradáveis, mas já nem tinha paciência para observar a faina. Estugava o passo. Para quê? Ainda faltavam quase 2 horas. Raio do tempo. Olhei o relógio pela 3a vez nos últimos 5 minutos. A ansiedade ia em crescendo. A ansiedade dá-me cabo dos nervos, pior se carregada de desejo. Decidi ir por baixo. Caminho mais longo, o fazer tempo. Cheguei breve à Clichy, fim de noite para uns, trabalho de corpo, muito. A zona é como um néon enorme e garrido a meio da cidade que acordava quase à pressa
"Les travestis vont se raser
Les stripteaseurs sont rhabillées
Les traversins sont ecrasés
Les amoureux sont fatigués
Il est cinq heures Paris s'éveille"
 

Parei num pequeno café. "Un expresso, s'il vous plait"; "Oui, m'sieu". Má ideia, não era bom, e só serviu para acelerar a ansiedade. Ansiedade! Que tinha um nome: Marília, às 7:00am, na Gare do Nórd. E ainda faltava uma hora e meia. À saída, a abordagem de uma mulher. Olhei-a de relance. Pequena e bonita. Muito pintada. Fiz-lhe que não, e sorri-lhe. A Clichy é comprida. Porque é que não fazia de metro o resto do caminho? Desisti novamente. Melhor assim.
"Le café est dans les tasses
Les cafés nettoient leurs glaces
Et sur le Boulevard Montparnasse
Lá gare n'est plus qu'une carcasse
Il est cinq heures Paris s'eveille"
 Tentava não pensar no objecto da caminhada, mas a cada instante, vinha-me o cheiro da pele dela, o cheiro a lavado de fresco, a uma lavanda muito suave. Como os cabelos, espalhados sobre o meu peito, preguiçosos. Leves.

*****
06:00 am, Rue Saint Lazaire. Ainda faltava quase uma hora...O nosso primeiro encontro, o espanto de a ver desembaraçar-se da roupa, como os outros rapazes. Ficaram as pequenas cuecas, alvas, que após o primeiro e destemido mergulho de cima da fraga, pouco deixavam por revelar, a pequena mancha escura através do translúcido do algodão. O adolescente da cidade, os conceitos. A rapariga sem medos. Sem pudores hipócritas. Sem preconceitos. E olhar que não se me conseguia desviar daquela cara de sorriso aberto. Quase obsceno. E do corpo. Moreno. De onde sobressaiam os peitos incipientes, túrgidos. Uma provação. Saiu lentamente das águas. Parecia uma jovem ninfa. Veio até mim. Sentado num pequeno relvado, pernas flectidas o queixo sobre elas, e os braços de volta. Tentativa de esconder a excitação. Difícil. Parecia-me que ela ia olhar-me nos olhos e descobrir a traição da líbido. Vinha de pele arrepiada e ria. Ria muito. "Não vais?" E eu envergonhado, "A água deve estar gelada". e ela a rir" E está. Mas sabe bem, faz-me sentir coisas estranhas", "Que coisas?" perguntei. E arrependi-me logo. Ela riu outra vez: "Sei lá! Coisas! Coisas cá dentro. Estranhas". Estava estendida de lado, apoiada no cotovelo esquerdo. A mão direita passava-me pelo cabelo caído para a testa. Afago inocente.E o coração acelerava. Nunca a tinha tido tão perto. Os outros continuavam a chapinhar no açude e a gritar uns com os outros. Nem davam por nós. Ali os dois tão chegados, quase íntimos, não fora mal nos conhecermos. E o coração a acelerar cada vez mais. E o coração a acelerar cada vez mais à medida que a Gare Du Nórd se aproximava. "Est-ce que vous avez du feu, s'il vous plait, m'sieu?", "Pardon madame, j'fume pas"' "Ah! merci m'sieu. Pardonnez moi"."Pas du tout"
*****
06:45h, Rue de Dunquerque. E a Gare du Nord já à vista, robusta mais que pesada. Donde estava, já divisava as majestpsas esculturas que lhe encimam a fachada. E o coração quase a saltar pela boca. A ansiedade. A ansiedade que quase não me deixava coordenar os movimentos.Mais umas dezenas de metros ainda, e enfio-me pelo meio da confusão. De vozes e linguas que se confundem e me confundem. Muita gente, tanta gente. Ao pé da máquina de bilhetes mais perto da entrada, dissera ela. Devia ser aquela. Andava de cá para lá, num espaço de poucos metros, não conseguia estar parado.
07:00h am, Gare du Nord. E a espera. Sofrida.
*****

foto de yopi ari yusman

Mudança de Assinatura

Esta coisa de assinar com VdeAlmeida anda a dar-me trabalho a mim e a quem responde.
Portanto, a partir de hoje passo a assinar só Vic.
Ok?

domingo, 1 de abril de 2012

Dúvida Existêncial (9)

Alguém me poderá esclarecer se será sinal de alguma crise que atravessa o País e da qual ainda não me tinha apercebido, o facto de ter deparado com um varal de roupa a secar, onde constava: um par de calças de homem, duas saias, uma blusa florida, dois pares de cuecas de homem, dois soutiens, três pares de cuecas transparentes de mulher, duas t-shirts, três camisas, um par de lençóis e dois preservativos.

Canções da Vida (11) - Gerry Rafferty - Baker street


Gerry Rafferty - Baker Street

Se a perfeição fosse conseguida em qualquer segmento da vida, "Baker Street" teria sido considerada perfeita. É a composição de Gerry, a sua voz, a de algum modo misteriosa lírica, a melodia, e sobretudo o excepcional riff de sax de Raphael Ravenscroft - talvez o mais conhecido solo de sax em todo o mundo - que se vai elevando acima de um gritante solo de teclas. Este êxito a nível planetário, poderia ter sido o arranque para uma super-carreira para Gerry, que mesmo antes já era um cantor/compositor considerado, principalmente após a sua participação na banda "Stealers Wheel's" (Tarantino usou o maior êxito de Rafferty enquanto membro dos Stealers,"Stuck in the middle with you" na sua masterpiece "Pulp Fiction). Porém, Gerry foi sempre vítima ora do seu feitío difícil, ora de decisões tomadas em alturas erradas e problemas judiciais. É essa a principal causa de, tendo sido Gerry Rafferty um autor/compositor de alto gabarito, dos maiores do UK em finais dos anos 70 (faleceu há pouco mais de um ano), com álbuns de grande nível, hoje, parece que a sua obra se resume a esta extraordinária "Baker Street", o que constitui uma lamentável injustiça.