Uma das minhas características mais notadas é ser bastante distraído. Acontece-me frequentemente passar por vizinhos e não os cumprimentar. Então se vou passear a minha cadela e de auriculares, é fatal que vai haver alguém a dirigir-se a mim e não receber resposta. Mas neste caso até se trata de um misto de distração/atenção. Estranho? Nem por isso. Eu explico: é verdade que o uso dos auriculares agudiza a minha proverbial distração. Mas também é verdade que vou bem atento ao chão que piso, uma vez que a zona onde moro está mais minada com trampa de cão que a zona de guerra mais perigosa do Afeganistão.Esta idiossincrasia custou-me alguns puxões de orelhas das pessoas mais chegadas, que me chamavam repetidamente a atenção: que a minha distração passa por falta de educação, e assim. Vocês percebem.
Até que há uns tempos decidi levar em conta o que eles me diziam. E fui mais longe. Para provar que andava atento, fui tomando nota das coisas estranhas com que me deparava nas minhas voltas. Arranjei um pequeno moleskine com um lápis encaixado de lado e zás: qualquer facto insólito, tomava nota.
Quando considerei ter já anotado um razoável número de peculiaridades alheias, decidi publicitar alguns dos factos testemunhados, e que me tinham despertado mais curiosidade - por insólitos - num dia em que se tinha juntado cá em casa alguma da família mais chegada.
- Ouçam só: esta semana, na esplanada da Tentadora, vi pelo menos dois tipos a usar meias diferentes. Um quase que passava: uma das meias era preta a outra, azul clara. Mas no outro caso, uma era cinzenta e a outra de fantasia. Agora interrogo-me: estes tipos são mais distraídos que eu, desmazelados ou acham mesmo que usar meias desirmanadas lhes empresta um pouco de nonchalance? Na mesma categoria, encontrei uma velhota com duas pantufas diferentes e um tipo a passear de pijama e roupão em pleno dia, e numa das ruas mais movimentadas do bairro.
Seguinte: a filha da vizinha do 47, sabem quem é? Aquela baixinha e morena que trabalha no Colombo e anda sempre com umas saias muito justas? Não a via aí desde o princípio de Dezembro, altura em que mal se lhe notava peito e revi-a na semana passada. Pois bem, em três meses, a medida do soutien dela aumentou pelo menos 4 tamanhos! Deve ter sido prenda do Menino Jesus!
Mas há mais. Aquela fuinha que mora na esquina do 61, que vai todos os dias à igreja ajudar o padre, que se gaba de comungar diariamente (e ser uma "mulher muito séria, e não uma doidivanas como umas e outras") e anda sempre a cortar na casaca de toda a gente, vive sozinha desde que lhe morreu o marido há 2 anos, não é? Pois há mais de 2 meses que todas as semanas tem 3 ou 4 pares de cuecas de homem penduradas para secar, juntamente com a roupa dela. E só por curiosidade, coincidentemente, ela deixou de usar aquelas cuecas de gola alta. Agora são todas da Women’ Secret.
- Opá, mas tu agora deste em reparar nessas coisas? Isso é quase invasão de privacidade! – diz-me a Augusta, a minha prima que é advogada
- Claro. Vocês andavam-me sempre a chatear por causa de eu andar distraído na rua, e agora criticam por andar atento? È que ainda por cima, há coisas que não dá para ignorar. Como por exemplo o que se passou com a fanchona loura do 164 1º esquerdo.
- Que foi? - perguntou a Augusta.
- Bem a nossa rua é como vocês sabem. Aqui nesta parte de cima, então, uma pessoa parece que vai a subir uma parede, e para baixo, se não metemos travões a fundo, vamos em 5ª velocidade até Santos-o-Velho. Pois eu ia a subir e ela vinha a descer. Eu esbaforido e ela a fazer uma ginástica do caraças para se equilibrar em cima daqueles saltos agulha de 15 cm que ela costuma usar. Às tantas, estava aí a uns 6 ou 7 metros de mim, começa a esbracejar, a esbracejar, parecia que queria levantar voo. E voou:a malinha da Louis Vuitton. E ela ainda se aguentou uns centésimos de segundo em suspenso, mas acabou por também dar um espalhanço de fazer levantar um estádio. Com aquele espalhafato todo, e com a mini saia que ela trazia e que não tinha mais que a largura de um cinto, como é que eu não havia de reparar que ela não só não trazia cuecas, como tinha feito uma depilação à brasileira?
P.S. – Não fiquem preocupados que felizmente, a moça não se aleijou muito (também, com aquele sumptuoso par de nalgas a amortecer a queda - nunca percebi bem porquê, mas de cada vez que a vejo de trás, só me apetece comer uma talhada de melancia - não era de esperar que algum osso fosse molestado). Só umas esfoladelazitas e eu fui muito solícito a ajudá-la a levantar e ela até agradeceu, embora estivesse um pouco combalida e eu não soubesse bem onde estava a meter as mãos. Estava também muito vermelhona, mas deve ter sido da comoção do trambolhão. Espero que não desconfie do que descobri das suas intimidades.