sexta-feira, 23 de março de 2012

Maravilhas da Natureza

O local foi escolhido meticulosamente, com mão de mestre, não aqui que não tem ângulo, ali também não que bate o sol a partir das 10. Nem acolá, que tem muito tojo e carqueja e sai-se de lá todo picado.
Escolheu um sítio onde o muro de xisto fazia um recanto com uma oliveira, foi erguendo uns ramos de pinheiro que estavam por ali caídos, e o casinhoto que nos iria servir de abrigo e camuflagem, foi tomando forma.
- Hum...parece-me bem. Não vão dar por nós. - disse. E mandou-me entrar, seguindo-me. Depois, com mais uns ramos de oliveira, tapou a entrada. Estávamos completamente escondidos, mas aquilo era apertado. Ao fim de 5 minutos comecei-me a mexer, incomodado.
- Está quieto, que eles são muito ariscos e dão conta de todos os movimentos,
Doíam-me os joelhos.
- Claro, estás de cócoras. Põe-te como eu, de joelhos e apoia o rabo nos pés. Ou então, senta-te. - Optei pela 2ª posição aconselhada e assim fiquei.
Os raios de sol começavam a iluminar o pomar, e a penetrar pelas frestas deixadas pelos ramos que nos escondiam. Estavamos situados num pequeno morro, o que nos dava uma vista abrangente sobre todo o pomar. Era na verdade esplêndido, as várias árvores misturadas, as frutas de várias cores e o sol a bater-lhes fazia aquele pedaço de terra parecer uma tela àlacre. E aromática. Os cheiros frutados misturavam-se e inundavam-nos as narinas de forma avassaladora. E mesmo á nossa frente, as três imponentes cerejeiras, batidas em cheio pelo sol que reflectia nos magníficos frutos, enormes, quase do tamanho de pequenas ameixas. Eram realmente belas cerejas, vermelhonas, suculentas. Mesmo á medida do apetite dos vários casais de melros que de repente apareceram do nada, e se puseram a depenicar nos frutos, saltando de ramo em ramo, deixando atrás, das cerejas devoradas, só caroços.
Reparei então na beleza dos pássaros, a sua plumagem negra e lustrosa, o bico amarelo, um contraste extraordinário. Eram animais muito bonitos, cuja beleza só era propocional à sua voracidade.
Estava naquela espécie de enlevo, quando senti a meu lado um ruído seco seguido de um silvo. Ao mesmo tempo, lá fora, ouvi um baque e vi os melros, como que impelidos por uma mola, levantarem voo em grande velocidade.
Ele então afastou os ramos da entrada, desatou a correr para a cerejeira mais próxima e agachou-se.
- Pimba, mêmo na tola - exclamou triunfante, ao mesmo tempo que se erguia segurando numa mão um dos melros, e na outra, a espingarda de pressão de ar.

29 comentários:

  1. fiquei convencida até ao fim, que tanta preparação era para tirar uma fotografia...
    são para comer os melros??

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro, MissK. :) E costumam ser gordinhos...

      Eliminar
  2. Um texto tão bom, para um final infeliz! Nem muito surpreendente, já que em tempos vi fisgas para pardais e maltosa a pendurar latas nos rabos de cães e gatos de rua. Mas não há como mudar essas histórias passadas, pois não? Só tentar que não se repitam...

    Bom fim de semana para ti!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. éheheh, Teté não leves isto a sério. Depois, não te esqueças nunca que o homem nasceu caçador, e na província não se vê estas coisas da mesma maneira como nós, os citadinos, as vêm. Lá, não há politicamente correctos:)

      Eliminar
  3. Eu estava a imaginar-vos de máquina fotográfica munidos de várias lentes e eis que no final Pum#"$# e lá se foi o melro!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eheheh! porque será que toda a gente pensava que era para a fotografia, RST? :)

      Eliminar
  4. Sou mesmo inocente, imaginava que todo este sacrifício era só para tirar belas fotos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Como podes verificar, não foste a única, Vera :)

      Eliminar
  5. topei rapidamente o desfecho mas tenho que referir que nunca aconteceria comigo. à primeira bicada espantava a melralhada porque não troco cerejas por nenhum bicho com penas, nem frito!

    ResponderEliminar
  6. Fiquei preocupado com a saúde das árvores dessa zona, eram ramos caído por todo o lado...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ó rafeiro, tu és da cidade, não sabes que no campo há muitos ramos caídos?

      Eliminar
  7. Pobres dos pássaros! Mas as cerejas, ai as cerejas... saudades!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, as cerejas são boas S*, mas o melro também não estava nada mau:)

      Eliminar
  8. Coitado do melro! De qualquer maneira, apreciei o texto e os "cheiros" que dele emanaram.

    Beijinhos e bom fim de semana,
    Patrícia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Coitado do melro? E o meu ouvido, que ia estourando com o barulho do tiro?
      Bom fim de semana Patrícia :)

      Eliminar
  9. Ora aqui está o exemplo perfeito da famosa frase popular "cada tiro, cada melro" :))))

    (VdeAlmeida, as meninas ficaram a modos que a achar que és um verdadeiro Merlrial Killer lol)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Francisco, não fui eu que disparei. Ê nã fiz nada!:)

      Eliminar
  10. A minha pressão de ar ainda está oleada e com chumbo dentro, me casa dos meus pais. Era um terrível caçador de pardais em miúdo. :)
    Melros não. Melros era para lhes ir aos ninhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas olha que os melros são maiores :)

      (a gente faz cada coisa quando é miudo. acho que agora não era capaz de fazer o mesmo, por muito bons que sejam os passarinhos fritos)

      Eliminar
  11. O melro sabia a cereja? Pelo menos ele teve direito a uma última refeição bem boa...

    ResponderEliminar
  12. Respostas
    1. Meu caro JC, não só se comem, como são um petisco:)

      Eliminar

Eu leio todos com atenção. Mas pode não ser logo, porque sou uma pessoa muito ocupada a preencher tempos livres!