Se há coisa de que não gosto é de sonhar. Pode parecer estranho, poderia dizer que detesto pesadelos. Mas não, não gosto de sonhar tout court.A minha filosofia de vida passa por pretender que cada coisa esteja no seu devido lugar - infelizmente trata-se somente de uma boutade, uma vez que sou desarrumado por natureza, até nos pensamentos - pelo que, quando me enfio na cama o meu desejo é dormir as 8 horinhas sem qualquer tipo de interrupção, seja para atender telemóvel - religiosamente desligado antes de me deitar - seja para o aperto de bexiga das 6 da manhã. Portanto, muito menos aprecio uns tipos que me entram pelo sono dentro sem serem convidados, qualquer que seja o motivo ou objectivo. E se os pesadelos são fáceis de justificar - não é agradável cair de um sítio alto e muito menos desembarcar numa ilha de canibais e passar a noite a fugir á frente deles - os sonhos não são melhores. A mijadela das 6 só acontece ou por me ter descuidado na quantidade de líquidos ingerido antes de deitar, ou, sabe-se lá, porque a próstata quer avisar que a idade não perdoa (e o que eu gosto de frases feitas). Qualquer que seja o motivo, é natural e no 1º caso, ate se me podem assacar culpas.
Agora sonhos? Não me interessa nada sonhar com os números do Euromilhões, até porque de manhã não me lembro deles e acabo por ficar lixado comigo mesmo, e se me lembrasse, com a sorte que eu tenho, eram os números da semana anterior. Muito menos quero ter daqueles sonos que dão origem às tão faladas poluções nocturnas - felizmente que estas com a idade vão rareando - e a outras situações embaraçosas. É por isso que evito ver filmes mais sugestivos a partir das 9 da noite.
E sei do que falo: é que ainda há dias, como o sono tardava, caí na tentação de, já na cama, sintonizar a televisão no AXN Black. Estava a começar um episódio de uma série australiana, “Satisfaction”, que fala do ofício e relações - em sentido lato - de quatro ou cinco prostitutas de um bordel de luxo. Ali pelo meio meteram-se umas cenas mais ousadas, como era de esperar, e como também era de esperar, o sono, além de demorar ainda mais, foi agitado. E o acordar não foi melhor. Às oito da manhã, ainda naquele meio dormido, meio acordado, dei 2 ou 3 voltas na cama, apalpei à direita e à esquerda e nada.
Foi mesmo uma noite da treta e razão tenho eu em detestar sonhos.
É que é uma chatice um tipo acordar de tenda armada, e depois não ter ninguém que o ajude a desarmá-la.