quarta-feira, 4 de julho de 2012

Night' Music (47) - Pearl Jam - Just Breathe

Pearl Jam - Just Breathe




Dúvida Existêncial - O Efeito Tuna

À hora do almoço, e no intervalo de um praia/piscina, abri a televisão para ver as notícias e que se me depara logo? Pois uma tuna. E ainda por cima, uma tuna de uma universidade de medicina.
Ora eu nunca fui muito fã das tunas, até porque nunca percebi bem para que servem aquelas macacadas que eles fazem (e ainda me lembro do Hermanias sobre o tema). 
Pois desta vez, imaginei que daqui a uns tempos estes rapazes e raparigas que vi hoje se formam, e vêm a aumentar o nosso contingente de médicos, como provavelmente acontecerá, e eu necessito de algum cuidado de saúde e sou atendido por um deles. 
Será que vou confiar num médico que eu já vi na televisão aos pulos e a bater com uma pandeireta no rabo e nos joelhos?

Pimba! Mesmo Nas Nalgas

Por causa deste post da nossa amiga Xuxi, veio-me este vídeo à ideia




La Demoiselle à la Piscine

On the Beach

A Vida é Uma Rua Estreita




O percurso era sempre o mesmo mas todos os dias se ia renovando, porque era início de Primavera, aquela época em que, a cada momento a Natureza se renova, em que a cada instante nasce nova folha verde no grande castanheiro bravo que, à entrada do jardim, abre a sua copa oferecendo a generosidade da sua sombra. Logo pela manhã, mal adentrava o perímetro arborizado sentia o abraço fresco daquele imenso verde, que ainda respingava as últimas gotas do orvalho da madrugada.
Depois de respirar fundo aquele ar, ia até à mesa do costume bem junto ao pequeno lago e pousava o livro e o pequeno caderno onde tomava ocasionais notas e bebia o café fumegante e cheiroso, enquanto o olhar se perdia.

Foi numa dessas deambulações do olhar que dei pelo homem. Nada o distinguia dos outros que numa mesa atrás de si jogavam às cartas, mas qualquer coisa me alertou para a diferença. Já o tinha notado mais vezes, mas daquela ative-me a olhar com mais atenção. Os da mesa, reformados como ele, jogavam uma sueca murmurada, sussurro só quebrado por uma demonstração mais ruidosa de alegria por uma vitória conquistada à força da matreirice de velho. Ele, abandonava-se no banco, os olhos pequenos, quase fendas, e gozava o sol com um esboço de sorriso no rosto marcado pelos sulcos profundos que a vida lhe deixara. Era sempre assim, isolado dos outros, as emoções pareciam não lhe conseguir nunca perturbar as feições quase severas.
Nesse dia decidi-me a meter conversa. Paguei a bica, caminhei devagar e fui-me sentar junto dele.
Antes que pudesse dizer alguma coisa inquiriu-me:
- Que livro anda a ler?
- Um livro de viagens, do Jack London.
Respondeu-me que não conhecia, que a literatura dele, depois de uma 4ª classe tirada à pressa, passava por uma olhada rápida aos jornais diários, e pelas obras de escritores portugueses. - Gosto do Torga, especialmente. Uma escrita quase animal, como eu. E do Eça de Queiroz. Muito actual, o Eça, não lhe parece? As Farpas dele podiam ter sido escritas agora. Também gosto do Eugénio de Andrade.
Fiquei surpreendido por gostar de poesia, mas não me manifestei. Perguntou-me então o que tanto escrevia no caderno.
- Pequenas ideias que me surgem, e de que ocasionalmente depois me sirvo para desenvolver e escrever qualquer coisa mais trabalhada. Por vezes também tento a poesia. Se tenho inspiração, o que é raro. Por vezes, é um pensamento que me parece bom, mas depois acho-o desinteressante, não lhe consigo dar continuidade.
- É como a vida, não é? Muitas vezes parece interessante, mas às tantas, vai-se estreitando, estreitando, até quase nos tirar o ar. Há dias em que não descobrimos o porquê dar-lhe continuidade, tal o vazio que se sente. Abrimos as mãos e verificamos que estão cheias de nada.
Não sabia que lhe responder e fez-se um silêncio entre nós.
- Mas esse livro deve ser interessante. Gosto de viagens, embora a maior parte das que fiz tivessem sido muito curtas. Sou reformado da carris – e sorriu. Era guarda-freio, nos eléctricos. Conheci cada canto da cidade. Muita gente também. Se você guarda pensamentos, também deve guardar recordações, e aí, talvez eu lhe pudesse contar algumas. Quem sabe não encontraria alguma interessante.
Disse-lhe que sim, que a sua postura me despertara a curiosidade e respondeu-me que era igual aos que jogavam atrás de nós, que os conhecia, que gostava deles, mas que não apreciava jogos e que estava bem assim, acompanhado mas a uma distância considerável.
- Nasci num pátio, na Domingos Sequeira, em Campo de Ourique. Só vivia lá gente pobre vinda da província, miserável em busca de melhor vida, mas na maior parte dos casos, melhor fora que por lá tivesse ficado. As paredes ressumiam humidades, a luz era dos mal cheirosos candeeiros a petróleo, o comer escasso, e à noite, embrulhava a cabeça nos cobertores grosseiros para não sentir na cara as baratas que voavam em direcção ás luzes e cujo contacto me deixava enojado. A promiscuidade era tanta que conhecíamos envergonhadamente as intimidades uns dos outros.

Depois de uma adolescência paupérrima, acabei por ir parar à Carris. Com uma cunha, claro. Parecia um emprego estável, ordenado ao fim do mês e reforma garantida. E assim foi. Marcas más, como as greves do fim dos anos 60 durante as quais ainda fui preso, muitos dias a trabalhar 16 horas sem ganhar mais um tostão, muitas noites com um sono indescritível, mas a ser obrigado a pegar naquele volante gelado e abalar, percorrendo as tortuosas ruas da Graça, até largar aqui no largo da Estrela, no frio da madrugada. Depois, chegar a casa, despir-me à pressa e procurar o calor tépido do corpo da mulher, mas já sem vontade para mais nada que não fosse dormir e, se possível, só acordar daí a 2 ou 3 dias. Mas antes de adormecer, ainda lhe sentia o suspiro de desalento. Eu sabia que a decepcionava e sentia-o dolorosamente. Mas não tinha forças para mais nada. E ela compreendia. Compreendeu sempre.
Folgava aos domingos, quando folgava, e o meu entretêm era vir de manhã até aqui ao jardim ver a banda da GNR tocar, e à tarde, deixar os miúdos na casa da minha sogra, pegar na mulher e ir a um cinema de reprise, à sessão da tarde. Muitas vezes, a caminho do cinema, voltávamos atrás e gozávamos a cama, como não o tínhamos feito durante a semana. Era o dia mais feliz da semana. Esquecia tudo o resto, só existia aquele momento.

Tive percalços. Uma vez galguei a calçada do Combro com o eléctrico desembestado, sem travões. Um terror, imaginar que alguém podia ser colhido. Felizmente era um sábado à tarde, só trazia um passageiro e havia pouco movimento. Consegui guinar aquele monstro contra uma parede, e ficámos mal tratados, umas escoriações feias, eu e o passageiro, mas nada de mais, que eu gritei-lhe para ele se agarrar bem, e ele, apesar do pânico, obedeceu.
Outra vez, foi um miúdo que vinha à pendura no estribo e caiu. Ficou mal, os miúdos são inconscientes, próprio da idade, claro. Andei uma semana cheio de pesadelos. O miúdo aparecia-me no sono, estendido no chão, imóvel, com o sangue a escorrer pelo ouvido. Péssima recordação.

E conheci pessoas. Algumas interessantes, encostavam-se à grade a meu lado e contavam-me episódios bizarros da sua vida. Tive alguma intimidade com dois ou três, mas sou pouco expansivo. Uma delas era a Júlia. Era manicura e puta. Quando me tocava o turno da noite, apanhava-a sempre aqui no largo, e deixava-a no Arco do Cego, onde ia à procura dos clientes habituais. Vida dura, a dela. Tinha um filho pequeno do namorado que tinha sido mobilizado para Angola e lá tinha morrido, e o que ganhava como manicura mal dava para pagar as papas do menino. História como muitas outras, mas eu sempre gostei da Júlia, era carinhosa, humana. Mesmo nos dias de frio intenso vinha para ao pé de mim e contava-me como tinha sido o dia, das clientes exigentes e chatas, ou das simpáticas que lhe davam uma gorjeta mais generosa. A presença dela aquecia-me a noite. Reformou-se com 60 anos. Com a conta bancária exactamente com a mesma quantia que tinha quando se vira obrigada a aventurar-se nos meandros da noite. O filho era médico e nem lhe falava, tinha vergonha dela, mas ela, dizia, entendia. "Não me importo, sabe? Não fica bem a um médico ter uma mãe puta". Conheceu-me dezenas de anos e nunca me tratou por tu. Curioso, não? Eu era mais velho e também me reformei pela mesma altura. Tive portanto com ela, uma vida paralela sem contudo nos termos nunca encontrado fora da plataforma do eléctrico.
Podia agora contar-lhe muito mais, tudo, mas seria maçador.

Perguntei-lhe pela mulher e pelos filhos. Uma sombra atravessou-lhe o olhar, turvou-lho de uma maneira estranha.
- A minha mulher morreu há dois anos. Foi a partir de então que comecei a vir para o jardim passar os dias. A solidão dói-me muito, e basta-me a noite, em que estendo os braços e só tenho o vazio para abraçar.
Os filhos...têm a vida deles, estão bem, gostam de mim. Mas sou um incómodo, preocupo-os. Um velho a caminho dos oitenta só dá chatices. Mas ao menos sou independente, trato de mim, tenho a minha reforma. Visitam-me uma vez por mês, por obrigação. Um mês um, no outro mês outro. Mas gostam de mim. Passam o tempo a repeti-lo, como se se quisessem convencer disso eles próprios.

- Portanto, está a ver, é como lhe dizia, olha-se para trás, revê-se uma vida e ela é uma rua estreita, como tantas que percorri com aquele volante de aço nas mãos, e que desemboca numa mão aberta e cheia de nada. Com esta idade, nem sonhos.
Só me restam recordações, muitas mais que as que lhe contei, mas hoje estou cansado, é a bronquite que herdei dos milhares de cigarros fumados entre uma viagem e outra, e este banco onde me sento e donde vejo partir os poucos eléctricos que ainda restam na minha cidade.

Era tarde, esperavam-me para o almoço. Despedi-me e deu-me um aperto de mão que me surpreendeu pelo vigor, num homem daquela idade.
-Até amanhã. Falamos mais?
-Quem sabe?


(2007)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Night' Music (46) - Graham Nash- Chicago

Graham Nash- Chicago


Gaivota


No desbravar de insólitos destinos
Que os meus olhos procuram sem cessar
Sou mais livre que a mais selvagem das gaivotas
Que voa sem destino e sem amarras
E que sabe que lhe pertence todo o mar

As Minhas Mãos

As minhas mãos são umas mãos vulgares, às quais não dispenso atenções especiais. Talvez o que as diferencie das demais seja o facto de serem minhas e portanto as conhecer melhor. 
São pequenas para mãos de homem. Lembro-me que as do meu pai eram grandes, ossudas. Sempre me pareceram mãos para agarrar com força, mãos de muito trabalho e pouco afago. As minhas ao contrário, são pequenas, eu acho, pouco dados a trabalhos demasiado pesados, quem sabe se feitas só com o propósito de tocar ao de leve, tactear, acariciar. 
E um dia destes vou acordar e verificar que as minhas mãos estão cobertas de pequenas manchas castanhas, pequenos sinais de oxidação com que o tempo me lembrará que já passou muito do tempo que me foi destinado. 
 Nesse dia sei que vou querer visitar os locais que me viram crescer, naquela cidade pendurada num rio largo e com a qual acordei quase todos os dias da minha vida. Nesse dia, que eu sei que vai ser um dia de sol, sei que me vou sentar sozinho, num banco debaixo de um cedro centenário no Príncipe Real que é a árvore mais bonita de Lisboa e olhar as crianças que brincam e riem sem medo do futuro, porque para elas só existe presente, e são quem melhor o sabe viver. E então mais uma vez direi para mim mesmo a frase tão gasta, mas que nem por isso é menos verdadeira, que as crianças são o melhor do mundo 
Nesse dia sei que me sentirei diferente do dia anterior, porque vou saber que estou com muitos anos vividos, que me vão chamar velho e provavelmente me tratarão com comiseração como tratam todos os velhos. E nesse dia sei que quererei fazer um balanço do que deixei para trás. 
Nesse dia sei que quererei saber se as mordidas da vida valeram os sorrisos que ela me deu e vou chegar à conclusão que sim. Porque me lembrarei então que amei e fui retribuído, e só isso já faz com que tudo valha a pena.

(2007)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Night' Music - The Air That I Breath - The Hollies


The Air That I Breath - The Hollies



Não vos quis preocupar...

Bem, a verdade é que de manhã, além dos reflexos da noite de pesadelo, tinha mesmo muito que fazer - e à tarde foi conduzir pela A2 - pelo que não deu para as visitas habituais às vossas casas. 
Então foi assim, primeiro (e esta é a parte mais chata, mas já tiveram ocasião de ver que ia muito jeitoso) tive que ir à minha médica de otorrino do IPO, para ela me dar ordem de soltura para poder entrar de férias. E ela deu, o que me deixou muito aliviado - por uns meses está visto que posso dormir descansado, a não ser que a minha vizinha de cima se lembre de andar na coboiada com o seu namorado que eu acho que são dois, e a dar cabo da cabeceira da cama, da parede, e da minha própria cabeça - mas avisou-me para não andar ao sol. 
Logo a seguir meti a família e a tralha no carro(estava com tanta certeza na decisão da senhora, que já lá tinha enfiado quase tudo)e cá vim até ao Algarve, onde espero passar uns dias relaxado e sem vizinhos barulhentos. Seguindo religiosamente as ordens recebidas, vão mesmo ser passados à sombra na beira da piscina e de volta da leitura em atraso, enquanto o resto da famelga vai até à praia que fica aqui a 2 minutos. O único problema é que o meu acesso net, não é o habitual, pelo que se não for tão assíduo como é costume, não se admirem e não pensem que me esqueci de vós, meus/minhas caríssimos/as e clarividentes amigos/as destas lides. 
Mais uma vez peço desculpa da letra irregular, mas isto de escrever deitado, não dá mesmo jeito nenhum.

Hoje, Só Vos Deixo a Roupa Que Tenho Vestida


É como digo, hoje só vos deixo cá a roupa com que vou sair. E nem deixo uma foto de corpo inteiro, onde figuraria o blazer azul escuro de botões brancos (acho que aquilo é madrepérola ou assim) porque não tenho ninguém para a tirar, e o automático da máquina dá um trabalhão do caraças a afinar.
E não escrevo mais nada - já é a 2ª vez em pouco tempo - por várias razões, sendo que o pouco tempo de que disponho, não é a principal, mas uma delas.
Ora aí vão algumas delas:
- a vizinha de cima lembrou-se outra vez da rebaldaria, e passei até às 5 da manhã, a ouvir a cama dela a ranger e a bater com a cabeceira na parede. Acho que o namorado, são dois que se vão revezando.
- lembrei-me de que tinha um resto de feijoada no frigorifico e aqueci-a para o jantar. Má ideia: queria deitar-me cedo para me poder levantar cedo e fi-lo. Por volta das 10h. Só que até à meia-noite, já me tinha levantado 5 vezes para ir à casa de banho. Estava a ver que o melhor era ir buscar a almofada e acampar na sanita.
- a minha cadela, por causa do calor, passou a noite a saltar para cima da cama, e de lá para a tijoleira do corredor para se refrescar.
- ontem, estava a ler as notícias na net, e dei com uma acerca do divorcio da Luce e Djaló. A disputa dos bens é de ir às lágrimas. O rapaz devia-se era chamar Yannick Tótó . Só assim se compreende que se deixe endrominar por uma família daquelas, que mais parecem As Sopranos. Como é que aquilo irá terminar? Agora ando ansioso para saber o desfecho e quando ando assim, custa-me adormecer sem saber nada dos próximos capítulos. É o que dá seguir desinteressadamente a tragédia familiar dum casal constituído por um
jogador de futebol que só pensa da cintura para baixo e uma cantora azeiteira.
- quando parou a balbúrdia lá em cima, virei-me para o lado esquerdo, que é, como já disse, o meu lado melhor, e tentei, por fim, adormecer. Quando já estava quase, tocou o despertador e foi como se levasse uma marretada. Deduzo que quando o acertei, estava sem óculos, e troquei o 9 pelo 6.
- por fim, ainda consegui dormir uma hora ou coisa assim, e logo por azar, nessa hora fui envolvido numa orgia romana com aquelas artistas que entram no Spartacus, onde há sempre comes e bebes e o resto, e quando já se tinham acabado os comes e bebes e se ia entrar no resto que é sempre a parte melhor, lá tocou a porcaria do despertador, desta vez a horas e acordei todo arrelampado e com uma vontade enorme de urinar, se é que me entendem.
Portanto, estão a ver que não tenho razões para estar muito bem disposto, muito menos para estar para aqui a escrever sobre o que quer que seja.
Agora vou sair, que já estou atrasado para o compromisso que tinha agendado.

domingo, 1 de julho de 2012

Night' Music (46) - Orchestral Manoeuvres In The Dark - Souvenir



Orchestral Manoeuvres In The Dark - Souvenir




Eis uma Mulher de Coragem!



Patrícia Mamona


Conhecendo os portugueses como conheço, tenho a certeza que se eu fosse ela,já teria mudado de apelido.

Sem Pecado



Naquele entardecer morno e dolente
Em que o sol beijou a lua descarado
Olhei-te na penumbra, bela e nua
Despi a minha pele, vesti a tua
E adormeci entre os teus braços, sem pecado