quarta-feira, 16 de junho de 2010

Afirma O'Hanlon

Afirma O’Hanlon que não haverá mais Thomas Hardy Ale.
Vamos por partes: Quem é o O’Hanlon? E a Thomas Hardy Ale?
Bem, para começar pelo princípio: há dias, quando foi da inauguração da Cask Ale, comunicou-me um amigo e amante cervejeiro que é uma espécie de Michael Jackson português (só que mais novo e, felizmente, vivo!), que a Thomas Hardy’s Ale tinha acabado. Espanto e estupor! A Thomas Hardy’s Ale é SÓ – na opinião do escriba, obviamente – uma das melhores cervejas do mundo.
Digeri –mal - a má nova, quase da mesma maneira como se sente a partida definitiva de um velho mas longínquo amigo, e procurei informar-me do que teria levado ao fim de um produto de tão excelsa qualidade. Deixem-me fazer um aparte para vos dizer que, embora goste muito de cerveja, não me mantenho a par das novidades da industria. Sou, como costumo dizer, um consumidor moderado ao qual só interessa a qualidade do que lhe põem à frente. Bom, informo-me também sobre os locais a visitar, se há novidades com que possa satisfazer a minha gula e se as houver, verificar sobre as suas virtudes, enfim, essas coisas... O resto, confesso que me passa um bocado ao lado (que me desculpem os meus amigos que se dedicam de alma e coração à feitura da cerveja perfeita e sua divulgação, mas sou demasiado preguiçoso para me abalançar no fabrico).
A Thomas Hardy, uma Barley Wine inglesa encorpada, foi criada pelo cervejeiro Eldridghe Pope em finais dos anos 60. No início deste século, a sua elaboração passara para as mãos da Cervejeira O’Hanlon, que a manteve até ao princípio de 2009, altura em que se decidiram pela sua não continuidade. A explicação é simples: a sua feitura era demorada e complexa, e enquanto as outras cervejas da O’Hanlon eram engarrafadas em 2 semanas, o processo da T H era iniciado no início de cada ano e só podia ser engarrafada por voltas de Setembro, o que, afirma O’Hanlon himself, tornava os custos da cerveja incomportáveis.
A Thomas Hardy’s Ale era uma espécie de Bentley das cervejas. Tem uma apresentação impecável: etiqueta explicaticva, a tampa coberta por uma prata dourada como as garrafas de champanhe, uma medalha com o retrato em sombra do perfil do autor inglês que lhe deu o nome, e cada uma das pequenas garrafas era numerada, o que lhe emprestava um toque de exclusividade. Mas principalmente, era uma cerveja única: um corpo intenso de um castanho escuro opaco, pouca ou nenhuma espuma, um aroma complexo e um sabor intenso, inconfundível, licoroso. Depois, a potência dos seus mais que 11º de Abv nos quais não se notava sequer resquícios de álcool, o que a tornava surpreendente.
Pois é…mas ao que parece, o mundo chegou àquele ponto em que nem a qualidade suprema se salva, e tudo se sacrifica no altar do deus $$$.
Ontem, assomei à minha despensa e verifiquei que ainda me restavam 3 garrafinhas de TH da colheita de 2007. Para me desforrar da notícia, decidi que, assim como assim, algum dia teria que ser e decidi-me a abrir uma e deliciar-me com ela num jantar alancharado. Foi nela, pois então, que afoguei as mágoas. E ainda restam duas sobreviventes que seguramente tornarão mais felizes, outros dois momentos da minha vida.

Vic

2 comentários:

  1. Vou andar de olho atento, a ver se consigo apanhar uma garrafa que ainda tenha a alma fechada, e possa soltar-lhe o génio.
    Cumprimentos do
    UMTUGANATUGA

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  2. A santa ignorância de uma Mulher... Olhei para a garrafa e imaginei que fosse uma nova marca de Vinho do Porto,para exportação, a diminuir de tamanho ppr causa da crise...

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Eu leio todos com atenção. Mas pode não ser logo, porque sou uma pessoa muito ocupada a preencher tempos livres!