sexta-feira, 8 de junho de 2012

Os Pontos nos iiiiiis

“Uma coisa são os homossexuais, outra os maricas. Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não”
As opiniões acima expressas não são minhas. São de uma senhora das nossas letras, Agustina Bessa Luís, e foram proferidas por ela numa entrevista que deu há uns anos à revista Visão.
Nunca li nada da D. Agustina, e tenho vários motivos para o nunca ter feito. Um deles é porque os livros dela têm sempre mais de 20 páginas, e uma vez dei-me ao trabalho de folhear um e ler um parágrafo que bastou para me cansar. Segundo, acho que ela escreve sobre assuntos escabrosos que eu não aprecio. Pelo menos, tem um livro chamado “Jóia de Família” que eu acho que se refere àquilo que estou agora a pensar. Terceiro, a senhora é baixinha e atarracada e o meu primo Luís desde que se divorciou da Frederica que tem 1,48 cm, pesa 80 kilos e tem a alcunha de Frederica, a Pequena Barrica, diz-me sempre para me manter afastado de senhoras baixinhas e atarracadas porque nos depenam num abrir e fechar de olhos. Isto é, não tenho nenhuma razão plausível, só não gosto do estilo(dela e da escrita dela).
Bom, mas a senhora é uma proeminência da nossa intelectualidade e até apoiou o Sr. Professor Cavaco, o que lhe confere o estatuto de infalibilidade, pelo que admiti que tivesse razão no que dizia. Mas ao ver aquela separação de águas entre maricas e homossexuais, fiquei preocupado com a minha ignorância, porque pensava que era tudo a mesma coisa, se bem que aqui na minha rua não se designem essas pessoas por nenhuma dessas denominações.
Há muito que ando com esta encasquetada, entretanto deu-se o referendo que autorizou o casamento entre homossexuais, e eu sempre na dúvida, porque nunca quis dar parte de fraco para ninguém. E a coisa l+a ficou adormecida num cantinho do meu cérebro
Até que agora foram divulgadas umas estatísticas que falavam sobre os divórcios que já houve nos casamentos gay desde a aprovação da lei - parece que as mulheres se divorciam mais entre elas que os homens - e o assunto voltou a aflorar-me o pensamento, e decidi por fim pôr tudo em pratos limpos. 
Por isso, fui consultar o Leonel que tem opinião sobre tudo, sabe de tudo e discute tudo. Isto é, ele é uma espécie de Pacheco Pereira cá do sítio, só que mais completo porque também percebe de futebol, orientações sexuais e gajas boas. 
Portanto, lá lhe dei conta da minha apreensão. Ele apoiou ambas as mãos na mesa, puxou os óculos mais para a ponta do nariz, olhou-me por cima deles e disparou: 
- Pois é o que te disse já várias vezes: tens que ler mais, informares-te. Cultura, homem! É o que te falta. Vê-se, porque esse assunto está na ordem do dia. Claro que não é tudo a mesma coisa. Lembras-te daquele gajo que fazia de Perry Mason na televisão? Esse era homossexual. Viveu 30 e tal anos com um tipo chamado Benevides e só se soube da coisa depois de ele morrer. Já o Elton John, com aqueles adereços e lantejoulas, e que até casou com outro larilas há uns anos, é gay. Portanto, aí está, a senhora dona Agustina tem toda a razão, tás a perceber? 
- Estou. É uma questão de sobriedade. 
- E não só. Há muitas variáveis. Por exemplo, o George Michael que de vez em quando é apanhado em casas de banho públicas a engatar matulões, é um mariconço. Já aquele senhor muito bem posto e diplomata no trato, que andou muito tempo pelas páginas dos jornais, e que eu não quero aqui referir o nome, como gosta de rapazinhos, é pederasta. 
- Resumindo, há vários tipos, dependendo do modo de agir em público. 
- Pois! Mas é uma matéria que dá pano para mangas. Ainda há as bichas malucas, como o Castelo Branco… 
- Ah! Deve ser nessa categoria que se integra o Celestino. 
- Qual Celestino? Aquele que da mercearia? 
- Esse mesmo! O que foi apanhado pela mulher, na cama com o Tripé. 
- Eh pá, realmente não percebes nada disto. Esse gajo é um pindérico, ninguém o conhece. Esse é mesmo paneleiro. 

- Uma nota para referir que se nenhuma generalização é aceitável, aquela dos franceses dizerem. “Les portugais sont toujours gais”, é especialmente intolerável.

17 comentários:

  1. No fundo, no fundo, gostam todos da mesma fruta... só que uns querem a fruta mais chique!

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    1. Como se vê até nisto há uma certa divisão de classes, S*

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  2. Aquela do Perry Mason é brincadeira, certo?
    Agora essa dos franceses, nunca ouvi nos 18 anos que la vivi e continuo a não ouvir das várias vezes que ainda lá vou. Mas, vá lá, sempre é melhor dizerem "sont toujours gais" que "sont toujours gays", digo eu. E só para retomar o assunto principal deste teu texto, claro ;p

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    1. É mesmo verdade, Mam'Zelle. O Burr viveu muitos anos em união de facto com Robert Benevides, a quem deixou toda a sua fortuna, quando faleceu. Na altura em que a divulgação foi feita, os porta-vozes de Burr, afirmaram que ele só tinha escondido o facto para proteger a carreira.
      E olha que essa frase francesa é muito conhecida :)

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  3. Nem sequer A Sibila? :)

    (olha que é bonita - a obra, a sibilina nem tanto -, mas tem de ser uma leitura acompanhada e explicada porque só assim a apreciarás; como de resto idealmente com qualquer obra)

    Mas isto era sobre os homossexuais, pois ... nada contra.

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    1. Nem esse Maya. Nunca me consegui enquadrar com escrita dela. E acontece o mesmo com Lobo Antunes. :)

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  4. Sim, o Raymond Burr é tão homossexual como é o Travolta. Diz-se. E eu acredito. Mas eu também acredito em tudo.

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    1. Pois é, Maya. E como era o Rock Hudson e o Randolph Scott. E o Montgomery Cliff que era tão querido das meninas :)

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  5. Da Agustina também nunca li nada, já tentei mas não gosto da escrita dela.
    Quantos ao Homossexuais, maricas, gays, frutinhas, bichas há para todos os gostos :)

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    1. eheheheh! Pois há, Rainha. É como quiserem :)

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  6. Eu a pensar que ia ter uma lição a sérionesta matéria e fiquei...mais ou menos na mesma. Tudo depende do estatuto social, dos olhos de quem aprecia e de como 'eles' se assumem, certo?
    Vou-te confessar, Vic, pensava que todas as outras denominações seriam sinónimos de homosexual no masculino.
    Parece-me que tenho ainda muito para aprender. E, o pior é que não tenho nenhum Leonel por aqui.
    És um homem cheio de sorte, rodeado de sábios.
    Um beijo.
    P.S. Segundo penso o Castelo Branco gosta dos adereços femininos, mas prefere as mulheres, ou não? Fiquei confundida.
    Uma sugestão:
    Tens de postar separadamente sobre:
    Homossexuais; maricas; larilas; paneleiros; travestis;gays;... para entender, sou de compreensão lenta.
    Outra coisita: O 'gais' fancês é alegre, seu brincalhão.Não tem nada a ver com o assunto, ou terá? (já não sei nada)

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    1. eheheh! É Pérola, por aqui é só sábios :)
      Sobre o Castelo Branco, acho que com ele marcha tudo, não é esquisito
      Eu sei que gais é alegre, Pérola. E que achas que quer dizer gay?

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  7. Tenho uma amiga, que também s achava perita no assunto, por ter muitos amigos gays. Na teoria dela, gays/homossexuais não suportavam as bichas e trichas, que são aqueles que gostam de dar nas vistas com gritinhos efemininados, dedinhos mindinhos espetados e restantes ademanes que todos topam de longe. É uma opinião, como todas as outras.

    Por mim, não vejo porquê não casarem. A duração o casamento já depende da relação de cada um, não vejo porque havia de ser diferente entre gays! Com a vantagem de depois não poderem afirmar que foi a sociedade que não permitiu que vivessem o grande amor da sua vida... Como se um papel passado desse qualquer garantia! :)))

    Quanto à Agustina, também só li as primeiras páginas do seu romance mais célebre, "Sybila". Estava em férias, não tinha dicionário por perto e o palavreado não era de todo acessível a uma compreensão rápida do texto. Ficou para outra altura... até hoje! :D

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    1. Além do mais, Teté, o texto era sobre a diversidade, a riqueza do nosso léxico, e a precisão de cada palavra, ehehe. Cada uma adequada a seu tipo :)
      Claro que concordo contigo sobre Agustina, embora a minha menor simpatia não tenha que ver com o problema do dicionário :)

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  8. Nunca li nada de Agustina, quanto ao resto do texto não sei nada e nem quero saber, que sejam todos felizes independente da nome que têm e do que fazem...

    Afinal não é só a língua portuguesa que é traiçoeira :p

    Os teus amigos são o máximo, é cada um melhor que o outro eheheh

    Beijinho e bom fim de semana :)

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    1. Acho que a língua portuguesa pode ser traiçoeira, é verdade, mas, como se demoonstra, também é rica eheheh
      Brigado, para ti também :)

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  9. Ao ler este texto e os comentários seguintes percebo é que os portugueses não são todos "gays", mas lá que são burros, lá isso são lol.

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Eu leio todos com atenção. Mas pode não ser logo, porque sou uma pessoa muito ocupada a preencher tempos livres!