quinta-feira, 3 de maio de 2012

O hábito faz o monge?

Os raios de sol mal se escapavam para dentro do quarto através das frinchas das persianas, mas pela luminosidade intensa dos reflexos, apercebi-me de imediato que me tinha atrasado. Era a 2ª vez na mesma semana que o meu despertador interior me traía - nunca me habituei a despertar com qualquer tipo de som, por muito musical que fosse - sinal que a idade é uma virtude infame.Levantei-me a correr, e fiz o inventariado mental do que tinha para esse dia: reservara a manhã para as duas consultas, depois o almoço de negócios, e enfim, a tarde livre. Talvez aproveitada para aquela ida ao cinema já por 3 vezes adiada. Ou uma tarde de preguiça em frente à tv. Hum...a seu tempo decidiria.
Enquanto isto me passava pela cabeça, bebia um copo de leite, lavava os dentes, metia-me no duche - soltei um berro com a água fria a cair-me nas costas e só então rodei o manípulo para o quente - limpei-me bem, acho que estou a ficar apaixonado pelo meu suavíssimo atoalhado de veludo negro, olhei-me ao espelho e fiquei aliviado ao verificar que não era dia de fazer a barba. Corri para o quarto ainda pouco iluminado, abri a gaveta do roupeiro e tirei uns slips que vesti rapidamente - detesto slips mas era o que estava logo ali à mão de semear - e acabei de me arranjar com a roupa que tinha preparada já do dia anterior, parecendo que previa que me ia atrasar.
Meti-me no carro, e logo aí senti que algo não estava bem: demorei mais que o costume a sair do estacionamento e os movimentos pareciam presos. Lá conduzi até ao consultório, e com a arrumação da viatura passou-se o mesmo. Estive quase a arrumar "à patrão", mas arranjei um bocado de paciência e lá ficou mais ou menos decente.
Subi ao consultório, e ao fim de 5 minutos já estava impaciente. Levantei-me, e disfarçadamente, compus os slips: já sabia que aquilo iria acontecer, estavam-me a apertar e a fazer-me comichões à frente e atrás. Raios! Por fim, lá fui chamado. A consulta era de rotina, o médico mediu-me a tensão - estava ligeiramente elevada - auscultou-me e dei um pulo: o estetoscópio estava gelado, e em vez de respirar fundo, arfei. E o médico: “Oh, homem, está nervoso?” E eu nem sabia o que responder, mas lá que me sentia esquisito...
Terminou a consulta, levei a receita com os medicamentos do costume e fui para outra sala à espera da chamada para oftalmologia. Demorou pouco. Ouvi o meu nome: era para fazer a medição da tensão ocular. A técnica mandou-me sentar em frente ao aparelho, compus novamente os slips, e sentei-me. Para quem nunca fez este exame, em poucas palavras explico: encostamos à vez os olhos ao aparelhómetro, do outro lado a técnica calibra aquilo, e quando vê que está no ponto, acciona um botão e o aparelho dispara um jacto de ar directamente em cada uma das duas vistas. Aquilo parece uma cuspidela no olho, e tenho sempre a tendência para afastar a vista mas como já estou habituado, controlo-me razoavelmente.Desta vez, quase caía da cadeira, e a cuspidela acertou-me em cheio no meio da testa. Tive que repetir o exame.
Depois, segui para o consultório do médico. Cumprimentei-o e sentei-me à frente dele que me diz que a tensão ocular estava ligeiramente elevada - pudera - e que ia confirmar. Mandou-me chegar a cabeça à frente e ajustou a maquineta à minha vista esquerda. Não conseguia ficar imóvel e o médico: “Oh homem, se não está quieto, ainda lhe enfio isto num olho!” Seria o cúmulo da ironia sair cego de uma consulta de oftalmologia. Levantei-me ligeiramente, compus os slips, e tentei manter a calma. O homem lá me fez os exames, ao que parece estava tudo dentro da normalidade, excepto as lentes, pelo que me passou receita para comprar umas novas, e outra de gotas para o tensão ocular.
Só consegui tirar o carro do estacionamento, depois de o deixar ir abaixo duas vezes e de ter metido uma 1ª em vez de marcha-atrás, que me ia fazendo embater na parede. Ajeitei-me no banco, respirei fundo, concentrei-me e lá saí.Fui directo ao restaurante, e por causa das coisas, deixei o carro na rua e estacionei em espinha.
Do almoço há pouco a contar. Só que não me consegui concentrar na conversa, não houve negócio, e o meu sócio perguntou-me se havia algum problema. Eu respondi:
"Não. Porquê?"
"Pá! Não é muito normal estares só com conversa de chacha durante um almoço de negócios, e ainda pior, levantares-te 3 vezes da cadeira para coçares uma vez o cú, e aconchegar duas vezes os tomates!"
Bom, decididamente não era dia para ir ao cinema. Conduzi directamente para casa, e nem vou, mais uma vez, falar dos trabalhos porque passei para estacionar o carro. No caminho é que se passou uma coisa estranha, reparei num anúncio daqueles grandes, na beira do passeio. Era a uma marca de roupa interior para homem, ou melhor, o rapaz do anúncio só exibia umas boxers justas e uns abdominais que eu nunca terei. Quando voltei a olhar para a frente, tive que fazer uma travagem brusca que me deixou a 2cm do carro da frente que parara no sinal vermelho.
Irra! aquilo não era normal. "Mas que diabo? Eu a distrair-me com um anúncio com um gajo em trajes menores?" Comecei a ficar alarmado!
Cheguei a casa e decidi: ia vestir o pijama e sentar-me frente à televisão. Ao menos assim seria menos provável acontecer a desgraça que pressentia desde que me levantara. Comecei a despir-me em frente ao espelho do roupeiro. De repente, fiquei paralisado e lívido:.
Não tinha vestido uns slips, mas sim umas cuecas fio-dental brancas translúcidas, e com umas rendinhas nas orlas.Ora aí estava a resposta para o aperto entre pernas, para as nabices na condução e para a atracção ou ligeira rabichice pelo anuncio da roupa íntima masculina!
Estou a ver que tenho que começar a superintender no arrumo da roupa cá em casa.
Só de imaginar na vergonha que seria que os meus exames médicos exigissem que me despisse da cintura para baixo, ainda me provoca suores frios!Só faltava mesmo ter vestido um corpete em vez da t-shirt interior!

22 comentários:

  1. OH MY GOD!
    Ainda estou a tentar entender como não notaste a diferença antes!

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  2. eheheheheh! que situação, só não ficou mais embaraçosa porque o médico não mandou despir senão tinhas que mudar de médico!

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  3. Não posso acreditar... ahahahah

    Não quero imaginar as tristes figuras se tivesses de te despir no senhor doutor.

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  4. se fosse a ti comprava óculos urgentemente isso não é distração é falta de visão!

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    1. Por isso é que o oftalmologista me receitou uns novos, claro.

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  5. Que exagero, ó Vic, eu cá quando uso boxers estou na boa. Exijo o mesmo da situação contrária! ;)

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    1. Náo te ponhas com ideias, Alexandra! :)

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  6. Tens de experimentar com umas mais confortáveis, ò Vic :p

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  7. ahahahahahaha. vais ter o mulherio todo à pega :)

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  8. Bom, que as cuecas sirvam de desculpa para o incómodo e comichões, para alguma rabichice de admirar abdominais masculinos espetaculares e tal, ainda vá! Agora para as nabices da condução, à beira de ter dois acidentes?!? Ná, aí é mesmo nabice do condutor, que tem a mania que só as mulheres é que conduzem "à beira de um ataque de nervos"... :)))

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    1. Lol! Teté foste a 1ª a reparar nesse pormenor. Mas não, eu até conduzo razoavelmente. Em outros dias, caro :)

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  9. Fazias como eu, ao fim de 50 km a pedalar com umas dessas deixei-as ficar no meio do monte.

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    1. Pois, mas só dei por ela em casa, Vera :)

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  10. Ahahahahhahahahahaha E agora? Estás a ver televisão com um baby-doll? :DDDD

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    1. Estou. Vou tirar uma fotografia e pôr no blog, PE :)

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Eu leio todos com atenção. Mas pode não ser logo, porque sou uma pessoa muito ocupada a preencher tempos livres!