sexta-feira, 1 de junho de 2012

Woman's Scent

Conheci Eva (nome fictício) tínhamos ambos 18 anos fresquinhos, e entrado há pouco para os nossos primeiros empregos. De estatura média-baixa, muito branca, cabelo escuro e grandes olhos da mesma cor, dava-lhe um não sei quê especial o nariz arrebitado, mas principalmente o pequeno espaço que separava os dentes da frente, e que lhe emprestava um ar descarado quando se ria. E ria-se muito. O corpo parecia ter sido feito de encomenda, com as medidas certas, as mamas perfeitas, cintura estreita a fazer sobressair as coxas generosas.
Apresentou-ma o namorado dela de então, num baile de domingo na velha Academia de Santo Amaro, namorado que durou pouco tempo. Tornámo-nos amigos, e o nosso inner-circle - éramos uns 5 ou 6 - reunia-se às horas de almoço num café da Alexandre Herculano para falar de trivialidades e rirmo-nos com aquela despreocupação própria de quem tem a vida toda pela frente.
 Mas a minha relação com Eva sempre foi invulgar. Parecíamos estar sempre numa espécie de equilíbrio instável, tínhamos uma relação “quase”. Quase fomos namorados, quase fizemos amor...sempre quase. Mas estranhamente parávamos também sempre à beira de uma tomada de posição que tornasse tudo mais definitivo. E mais estranho, porque isso me pareceu depois, da parte de ambos, uma decisão inconscientemente deliberada, e não fruto da indecisão de nenhuma das partes. Porque na altura, o que sentia era que seria fácil tombar Eva numa cama. 
Quando estávamos na presença um do outro, sentia que algo de muito forte estalava, como uma tempestade daquela que faz rebentar raios por todo o lado, uma espécie de tumulto eléctrico. A química era forte e talvez por isso evitássemos, a maior parte das vezes, estarmos sós, embora paradoxalmente, quando estávamos em grupo, nos tentássemos isolar. 
Todos os sábados e domingos reuníamos o pequeno grupo e arranjávamos sítio para dançar. Todos gostavam, mas creio que a dança era só um pretexto de ambos para um acirrar de instintos e pulsões. Como naquele domingo de outono. Chovia mas a temperatura estava agradável e a nossa ida nessa tarde de domingo era a uma discoteca, acessível (as semanadas não eram elevadas), e bem aconchegada. Que é como quem diz, suficientemente escura para permitir um certo número de pequenos atrevimentos. Inocentes, claro. 
Eva chegou e trazia, por baixo da gabardina, uma saia clara, muito leve, parecia uma mistura de algodão com seda e cingia-lhe a cintura com um elástico pouco apertado. Caía-lhe perfeitamente pelas ancas, e pronunciava-lhe o redondo das nádegas, onde se reconhecia a marca das cuecas. Usava uma blusa fresca, com um decote que deixava à mostra grande parte do peito. Eva parecia usar sempre uns soutiens dois tamanhos abaixo do que devia, porque lhe apertavam os seios um contra o outro, de modo que entre os dois, parecia não caber uma folha de papel. Aquela, era talvez a sua imagem de marca, e eu percebia porque raramente os outros rapazes conseguiam falar com ela sem que os olhos se lhes fixassem naquele local, como que hipnotizados. Até eu, a quem aquela visão já era familiar, sentia fugir-me muitas vezes os olhos para lá. E ela percebia bem a tentação com que acenava. Sorria sempre com um sorriso atrevido, e compunha a blusa, para lhes dar o devido destaque. 
Na discoteca, muito escura, o ambiente era suavizado pelo ar condicionado. Naquele dia, Eva não aceitou solicitações de mais ninguém e preferiu dançar sempre comigo, o que, de certo modo me embaraçou. Além de me deixar em situação delicada junto aos outros, porque ela era par desejado por todos, o contacto constante com aquele corpo morno e cheiroso, deixava-me quase indecentemente excitado. Dançávamos sempre muito apertados, como se de um tango se tratasse. Mas naquele dia a pressão dela era ainda maior, e a certa altura tive a sensação que lhe ia sair pelas costas, tal a forma como nos fundíamos um no outro. Depois de uma breve pausa, ecoaram as primeiras notas do Nights in White Satin, dos MoodyBlues, uma canção muito antiga, mas que para ambos tinha uma espécie de magia, era como se fosse “a nossa música”. Ela levou-me para um canto mais escuro da sala, cingiu-se a mim ainda mais fortemente. E eu senti-lhe as mamas rijas contra o peito, e as pequenas gotas de suor que lhe perlavam o pescoço. Naquele embalo, não resisti e beijei-lho. 
Mas ela já estava excessivamente excitada para se contentar com aqueles jogos, quase ingénuos. Puxou-me a cabeça e meteu-me a língua na boca, em explorações em que nunca até então se aventurara. E não parava, mordia-me os lábios, e voltava a entrar-me pela boca, quente como uma brasa. Por essa altura, já estávamos os dois demasiado ocupados um com o outro, para que nos preocupássemos com mais alguma coisa. Foi como se o resto deixasse de existir, e nem tínhamos noção de que estávamos num local público. Já não dançávamos, limitávamos a mover o corpo ao ritmo das nossas bocas, até que ela se virou quase de costas para mim e me puxou a mão, e a insinuou pelo elástico frouxo da saia, puxando-ma para baixo, até sentir a tepidez que lhe transpirava de entre as coxas. 
Nessa altura, a música parou. Ela afastou-se, compôs a saia e voltámos à mesa, com ela a agarrar-me a mão. Mas não voltei a dançar nessa tarde. Ela queria retomar onde tinha deixado a questão em aberto, mas disse-lhe que não estava bem, e acabei por ficar triste, porque a vi genuinamente preocupada. Mas a verdade é que sabia que devia evitar deixar os instintos à solta. Sempre fui um bocado irreflectido, por vezes, impetuoso demais, até, mas cá dentro, naquela altura foi como se tivesse soado um sinal de alarme, algo me dizia que a Eva não era a mulher da minha vida, e a continuarmos assim, eu sabia que o caminho seria irreversível. Sabia que eu era a seara, e ela a fagulha, e que mais tarde ou mais cedo, acabaríamos por ceder àquilo que ambos desejávamos, mas que, no fundo, não queríamos. 
Fui levá-la a casa, como era hábito, mas não tocámos no incidente, que parecia não ter sido notado por mais ninguém. 
Por motivos profissionais, deixei de ser assíduo, e não voltámos a dançar. Fomos perdendo intimidade, a nossa vida divergiu e os nossos encontros foram ficando cada vez mais episódicos, até que deixaram de acontecer. Claramente, nunca discutimos o que acontecera, mas no olhar dela, senti sempre que algo ficara inexplicavelmente a meio. Gostava sinceramente dela, era bonita, elegante, tinha um cheiro inconfundível e inocentemente perverso. Sabia que cumpriria mais que satisfatoriamente todos os sonhos eróticos de qualquer homem. Mas também sabia que não era a tal.
Soube anos mais tarde pela irmã,  que casara com um oficial de marinha e que tinha uma ranchada de filhos. Ao que parecia, o marinheiro sempre que aportava, deixava semente. Mas fiquei admirado, nunca pensei que aquelas hormonas de Eva, sempre tão activas, suportassem os longos jejuns que um casamento assim impõe. 
Ao mesmo tempo senti-me feliz por a minha vida ter tomado outros rumos, porque embora goste muito de crianças e gostasse muito de Eva, nunca me vi com muitos filhos à minha volta.
Pior que isso, hoje provavelmente pertenceria àquela cena das "famílias numerosas" e teria como companheiro o Ribeiro e Castro. Pior que isso, ter que aturar as preleções da inefável Isilda Pegado.

20 comentários:

  1. Um belíssimo texto. (este não deixa dúvidas: és homem.:))
    Não me lembro de ter algum dia uma relação de amizade assim...explosiva.
    Deixa marcas, seguramente, e a inevitável questão "E se...?":)
    Acredito, porém, que há "ses" que doem...e este não.:)
    beijocas

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    1. Pois é, Nina. Há determinados eoisódios que nos fazem pensar como seria a nossa vida se...
      Mas nunca encontramos resposta :)

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  2. Ai, Vic... :) Muito diferente da Marília, mas gostei muito. Lembrou-me... coisas!

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  3. Dezoito anos e com um controlo desses? A minha vénia. Pegando no final da história e nas hormonas da Eva, sabes se a ranchada de filhos era toda parecida com o marinheiro? Abraço!

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    1. Nessa altura já nos conhecíamos bem, Rauf.
      E olha que essa questão dos filhos serem todos do marinheiro, na altura também se me pôs :)

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    2. Além disso, Rauf, tinha mesmo que haver controle: conhecia o pai dela :)

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  4. São estas histórias que me fazem regressar ao passado e relembrar certos momentos porque passei, o que na altura faz sentido quando reencontramos essa pessoa anos mais tarde damos graças por não termos continuado, pois não têm que ver com a nossa maneira de ser e de viver.

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    1. É verdade, Rainha, tens toda a razão. Há coisas de que nos arrependemos, mas doutras, só temos que agradecer ao destino :)

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  5. Estou a ver que a Eva provocadora encontrou novo rumo... mas não foi esquecida. :)

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    1. S*, há episódios na vida que não esquecem:)

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  6. Todo o Adão tem a sua Eva, independentemente dos nomes poderem mudar! :)

    E essa discoteca (ou seria boite?) por acaso não ficava ali para os lados do Arco do Cego? Muitas paixões, consumadas ou não, devem ter ardido naquele archote... :)))

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    1. Verdade, Teté.
      E não, não era no Arco do Cego. Era na Av. Da Igreja :)

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  7. Até já puxei do abanico! Consegues ser muito realista! E de que maneira!
    Um pequeno reparo: os homens não conseguem perceber as mulheres, tu incluido.
    Quando dizes que ambos não queriam, só podes falar por ti. Quanto à Eva, pelo que li parecia-me que o queria e muito. Nãopercebeste? O 'no fundo não queriamos' é só teu. Pelo menos é a minha interpretação.
    Quanto aos filhos, sabes lá se tivesses enveradado por essa 'carreira', agora não te imaginarias doutra forma. É dificil vermo-nos noutras realidades.
    Outra coisa: são consideradas familias numerosas as com 3 ou mais filhos. Achas muito, 3 filhos?
    Bem, vou beber uma águinha. Puseste-me com calores e preciso de me refrescar.
    Antes que me vá:
    Outra coisa, qual a duraçãodos jejuns de que falas dos casados? Deixaste-me curiosa.
    Hoje podiamos sentar-nos numa esplanada qualquer e falar sem destino. Apetece-me.
    Vou aborrecer outro, que é melhor.
    Um beijinho.

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    1. Claro que não, Pérola, nem tenho essa pretensão. Mas ali eu sentia que ambos queríamos o mesmo, e que ambos evitávamos o mesmo. Não posso falar por ela, mas tenho quase a certeza que tenho razão.
      Quanto aos filhos, não acho 3 demais. Só que no caso dela eram bem mas que isso :)
      Naturalmente que a duração dos jejuns dos casados é muito variável, e não só depende de nós próprios, como também das alturas da vida. Mas naquela altura, e pelo que lhe conhecia, nenhum dos dois era dado a jejuns prolongados de mais de 2 dias:)
      E nunca aborreces, Pérola :)

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  8. É mesmo isso. Ou é ou não é. O quase é ‘por um triz’, mas não :)

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  9. Ah, e já me esquecia... Amoooo Nights in White Satin dos MoodyBlues. Já postei, mas vou postar de novo. Qualquer dia que me apeteça :)

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    1. É o tal "quase", nêspera. Eu também adoro o Nights In White Satin :)

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  10. É engraçado, há alturas em que, contra todas as vontades e desejos, uma pessoa até consegue pensar duas vezes. E se deve ter sido difícil para ti, com 18 aninhos!

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    1. Mas já tinha noção do que podia acontecer, Elsa. E não me interessava muito :)

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Eu leio todos com atenção. Mas pode não ser logo, porque sou uma pessoa muito ocupada a preencher tempos livres!